A religião é relevante?
Enquanto
a Igreja não colocar o Evangelho no centro da vida, o cristianismo não
contribuirá com a solução que o mundo necessita
José María
Castillo
Teólogo espanhol
Religión Digital
25-07-2020
Aquilo que o
teólogo afirma, diz respeito à realidade da Europa,
porém, em breve,
será algo comum, aqui, no Brasil!

Uma das coisas que mais me fazem pensar, em relação ao vírus
e a pandemia, é o desinteresse religioso por esses. A doença preocupa quase
todo o mundo, quais os remédios para curá-la, qual a vacina para preveni-la,
quais as graves consequências que carrega, qual o futuro que nos espera...
É verdade também se fala do religioso. Mas, por quê? Com
bastante frequência, o religioso associa-se com o festivo: a Semana
Santa, o Natal, a festividade da Padroeira em paróquias e comunidades, as
romarias e suas procissões, os batizados, as comunhões, as bodas, os enterros,
etc. Tudo isso interessa a muita gente. Porém, onde e em que está o
interesse? Não há de se pensar muito para se dar conta de que...
... a “religiosidade popular” interessa a muitas pessoas,
mais pelo festivo que pelo estritamente religioso, tal como se vive
e se celebra.
Isso todo mundo entende e não se necessita de muitas
explicações.
Mas, claro que o acabo de apontar, que chama a minha atenção,
nas condições do que está nos acontecendo, não é a rejeição de Deus e da
religião, mas o desinteresse por tudo que se relaciona (ou se pode
relacionar) com Deus e, em geral, com todo o transcendente. Hoje já é
evidente – ao meu ver – o que acertadamente quis indicar Pröpper: a mensagem
cristã tornou-se uma “oferta sem demanda”. No meu ponto de vista de crente
em Deus, ruim é negar ou rejeitar sua existência. Mas é ainda pior
desinteressar-se de Deus, e de tudo o que é de Deus, até tal extremo, que haja
tanta gente que não se importa com o que se pensa, se diz ou se faça porque
Deus quer ou não quer, porque Deus disse ou deixou de dizer.
E que conste, ao falar deste assunto, não me refiro
somente a Deus em si mesmo, mas também os que o representam: os homens do clero.
A uma importante maioria da população, o que os clérigos pensam e falam,
importa a cada dia menos. A não ser que um clérigo faça ou diga alguma
extravagância.
Por que a religião interessa cada dia menos? Por que decaiu, e segue decaindo sem
parar, a prática religiosa? Este assunto é muito complexo e delicado.
Não é possível dar uma resposta adequada e completa em uma breve reflexão.
De qualquer forma, há um fato inquestionável:
os problemas que nos ameaçam e nos dominam estão aumentando,
a ponto de ver o futuro da humanidade, da terra e da vida
a cada dia mais duvidoso e avassalador.
E sendo esse o caso, em que contribui a religião e em que
contribuem os homens da religião, em resposta às muitas perguntas que as
pessoas sentem em suas vidas e para as quais não encontram solução?

Nesta breve reflexão, ouso propor um ponto de partida, que
possa abrir horizontes de luz para nós. Eu quero dizer o seguinte: o
cristianismo, desde o século III até o século VIII, viveu e administrou a
Igreja de uma maneira que produziu confusão não resolvida, depois de tantos
séculos. A confusão era que se misturou e fundiu o Evangelho de Jesus com a
religião, originada no judaísmo e como se vivia no Império. Agora, essa
fusão de “religião” e “evangelho” ainda não foi resolvida. Por isso, a Igreja
vive, naturalmente, várias coisas que são muito fundamentais. E são coisas que
contradizem o que Jesus, a Palavra de Deus e o Filho de Deus, disse e fez.
Dando tanta importância – a essas coisas – que foi o que lhe custou a vida.
De que coisas estou falando?
a) O “poder” e a maneira concreta de exercê-lo.
b) O “dinheiro” e as tristes relações que a Igreja tem
com esse assunto capital.
c) E as “relações humanas” que a Igreja permite e mantém, que não
são precisamente relações de “igualdade” e “bondade” em amor mútuo, que a
Igreja não resolve.
Antes de decisões eclesiásticas, há o Evangelho, no qual Deus revelou-se para nós. Enquanto a Igreja não colocar o
Evangelho no centro da vida, o cristianismo não contribuirá com a solução que
este mundo necessita.
Traduzido
do espanhol por Wagner Fernandes de Azevedo.
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