Cuidado com o ódio
O
cristo-neofascismo se alimenta do ódio, cresce e inclusive se deleita com ele
Juan José
Tamayo
Teólogo
espanhol
Religión
Digital
15-07-2020
Os movimentos
religiosos integristas também se alimentam do ódio e adotam essa atitude contra
o que não corresponde a seus princípios doutrinários e suas morais repressivas.

Estamos vivendo uma nova e preocupante situação nas relações
entre religião e política: a aliança entre a extrema direita
ultraneoliberal, homofóbica, sexista, racista, xenófoba, antiecológica,
negacionista da mudança climática e da violência machista, e as organizações
cristãs integristas de caráter fundamentalista.
É o que chamo de a Internacional-cristo-neofacista
- expressão que fez sucesso na teoria crítica das religiões -, que constitui
a mais grosseira manipulação do cristianismo e perversão do sagrado, já que
apoia os discursos e as práticas de ódio dos partidos de extrema direita em
todo o mundo. Diria mais: o cristo-neofascismo se alimenta do ódio,
cresce e inclusive se deleita com ele, fomenta-o entre seus seguidores e
o estende a todos os cidadãos.
Acredito que podemos afirmar que nasceu uma nova religião,
talvez a mais perversa, a mais destrutiva do planeta e da humanidade: a religião do ódio. Neste artigo, tentarei mostrar como
se constrói.

O que é o ódio
Em seu livro, “La obsolescencia del odio”, o
intelectual pacifista alemão Günther Anders (1900-1992) considera que “o
vulgar e quase universalmente acatado Eu odeio, portanto, eu sou ou Odeio,
logo, existo é hoje mais verdadeiro que o famoso cogito, ergo sum de
Descartes”. O ódio é “a autoafirmação e a autoconstituição por meio da
negação e a aniquilação do outro” (PRE-TEXTOS, Valência, 2019, 34-35).
Em outras palavras, por meio do ódio aos outros, às outras, e
da eliminação das pessoas e os coletivos odiados, quem odeia confirma sua
própria existência conforme este raciocínio: o outro não existe,
portanto eu existo como o único que resta. Ocorre, além disso, que a
aniquilação do outro por meio do ódio produz prazer. Por exemplo, o torturador
se deleita no ato de torturar: “ódio e prazer acabam sendo uma só coisa”,
diz Anders. Quanto mais o ato de aniquilação se estende e mais vezes se repete,
mais tende a se ampliar o prazer pelo ódio e o prazer em ser ele próprio.
Se a filosofia africana Ubuntu afirma: “Eu apenas sou,
se você também é”, o discurso do ódio diz:
“Ele não deve existir para que eu exista.
Ele já não existe, portanto, eu existo como o único que resta”.
Chega-se assim ao prazer pelo ódio, que constitui ao ápice do
ódio.

Como surge o ódio
O ódio não surge do nada, possui um contexto histórico e
cultural específico,
alguns motivos, algumas causas, alguns porquês. Recorrendo à alegoria de
Shakespeare, assumida pela intelectual alemã Carolin Emcke, alguém
precisa produzir a poção que provoca a reação do implacável e aceso ódio. São “algumas
práticas e convicções friamente calculadas, amplamente cultivadas e
transmitidas durante gerações” (Contra el ódio, Taurus, 2019, p.
53), alimentadas pelos fóruns de debate, publicações, meios de comunicação,
canções, discursos, reuniões.
Estes meios propagadores do ódio não apresentam, por exemplo,
as pessoas migrantes, refugiadas, deslocadas, gays, lésbicas, negras,
muçulmanas como o que são: seres humanos, pessoas com os mesmos direitos e
dignidade que aqueles que as julgam, gente pacífica, cidadãs e cidadãos
normais, respeitosos das normas de convivência, mas como gente atípica,
estranha, fora do normal, monstruosa, pior ainda, como delinquentes, bárbaros,
violentos, doentes.
Nunca reconhecem seus valores, suas qualidades, sua cultura, seu
trabalho, menos ainda sua situação de marginalização social e discriminação
cultural. E quando reconhecem, justificam-se dizendo que merecem. Há, aqui,
uma redução da realidade, mais ainda, uma construção social da realidade que
não corresponde à verdadeira realidade.
Como se constrói o discurso
de ódio
Os discursos criados e divulgados por meio destes canais
geram padrões enraizados no imaginário social muito difíceis de desconstruir. A
construção do discurso de ódio segue o seguinte processo:
1º) Identifica-se um inimigo, geralmente coletivo, destacando seus traços negativos: as
mulheres, as pessoas migrantes, refugiadas e deslocadas, negras, indígenas,
muçulmanas, judias, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais. Nada há em seu
comportamento que seja incorreto, que incomode o cidadão, mas considera-se
que encarnam o mal. Estes coletivos não são a causa do ódio, mas o objeto
do mesmo. O ódio não precisa ter uma base real que o justifique, é uma
construção humana.
2º) São construídas as razões de tal encarnação e do motivo
do ódio:

- As mulheres são
discriminadas por ser consideradas inferiores. Exerce-se domínio e violência
sobre elas, a partir da masculinidade hegemônica, e inclusive da masculinidade
sagrada, e chega-se ao feminicídio como expressão extrema do ódio à sua vida,
justamente contra elas que são doadoras da vida.

- Pessoas e grupos de migrantes
e refugiados são considerados culpados por
tudo: pela insegurança no país que os acolhe, são ingratos, ladrões,
bagunceiros, tiram o trabalho dos cidadãos nativos, significam um gasto
adicional ao Estado, aproveitam-se dos serviços sociais, sanitários,
educacionais, que, como é dito, pertencem aos nativos (“os espanhóis, os
estadunidenses, primeiro”). São obrigados a renunciar sua identidade cultural,
suas tradições, hábitos e costumes e a assimilar a nossa cultura. Caso
contrário, tornam-se um perigo para a sociedade e um elemento desestabilizador.
Por isso, devem ser odiados e menosprezados e, caso não se adaptem, são
expulsos.
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Tradução do cartaz que uma das mulheres traz consigo: "Juntos(as) nos unimos contra o ódio" - ao lado está escrita a palavra "amor" |
- Os muçulmanos e muçulmanas são apontados como fundamentalistas, violentos,
machistas, atrasados, fanáticos, inimigos do Ocidente, contrários à democracia,
com um direito de família diferente que permite a poligamia, etc. Não se
reconhece nenhum valor neles. Tudo é negativo. Não é possível se relacionar com
eles em um plano de igualdade, nem manter empatia, tampouco podemos reconhecer
direitos já que os utilizarão contra nós. A identificação e os juízos de valor,
sempre negativos, não se referem às pessoas muçulmanas individuais, mas ao
coletivo muçulmano.

- As pessoas LGBTI [lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e
intersex] são odiadas porque mantêm relações afetivo-sexuais
antinaturais, são pessoas doentes a serem curadas e, do ponto de vista
religioso, pecadoras. Na incitação ao ódio às pessoas LGBTI, o discurso
homofóbico da maioria das religiões tem um importante papel.

- As pessoas negras são racializadas a partir do supremacismo branco,
que coloca todo o aparelho do Estado, especialmente os corpos e forças da
chamada “Segurança”, a serviço da repressão contra as minorias negras, chegando
ao seu assassinato impiedoso, como no caso do cidadão afrodescendente
estadunidense George Floyd, assassinado no último dia 25 de maio, nos Estados
Unidos, por um policial branco.
As pessoas odiadas deixam de ser percebidas como indivíduos
concretos e se tornam um coletivo abstrato “ficcional”. Odeia-se os coletivos previamente
descaracterizados, a quem se difama, desprestigia e despreza.
Aquele que odeia não conhece
o odiado
Uma vez inoculado o ódio, acreditam conhecer aqueles aos
quais odeiam e o conhecimento leva a odiá-los ainda mais. Mas estamos
diante de um suposto conhecimento e diante de um suposto ódio, porque na realidade não se conhece a pessoa que se odeia.
Trata-se de um ódio fantasmagórico, produzido artificialmente, embora
resulte muito eficaz.
Uma das características das pessoas e dos coletivos do ódio é
a sua segurança, sua certeza absoluta. Nunca dizem “talvez”, “é possível que”,
“eu acredito”. Caso contrário, não odiariam.
Conforme apontava mais acima, as organizações sociais e os
partidos políticos da extrema direita se alimentam, crescem, engordam e até
chegam a se deleitar com o ódio. Em relação ao desfrute do ódio, penso que pode
ser aplicado a estas organizações a definição de “fanatismo” oferecida pela Enciclopédia, publicada em Paris,
entre 1751 e 1772, sob a direção de Diderot e D’Alambert:
“O fanatismo
é um zelo cego e apaixonado que nasce de opiniões supersticiosas e leva a
cometer atos ridículos, injustos e cruéis. Não só sem vergonha, nem remorso,
mas inclusive com uma espécie de gozo e de consolo”.
Os movimentos religiosos integristas também se alimentam do
ódio e adotam essa atitude contra o que não corresponde a seus princípios
doutrinários e suas morais repressivas. O que acontece? Curam a infelicidade
que a repressão religiosa lhes produz com o ódio e, paradoxalmente, nele
encontram a sua felicidade, que dizem se prolongar inclusive após a morte. Que
perversão e falso consolo!
Tal modo de proceder implica uma contradição com os princípios
religiosos, concretamente, no cristianismo, com o perdão
e o amor ao próximo, pregados por Jesus
de Nazaré e tristemente não praticados por muitos de seus seguidores. Ambos
princípios exigem renunciar à vingança, ao “olho por olho e dente por dente”,
perdoar as ofensas “até setenta vezes sete” (Mateus, 18,22), ou seja,
sempre, e cumprir o preceito de Jesus: “amai os vossos inimigos” (Mateus
5,43).
O discurso do ódio não tem nada a ver com a orientação
libertadora, igualitária e acolhedora do outro, da outra, das pessoas
diferentes, nas religiões, expressa nas diferentes formulações da Regra de
Ouro: “Trate os outros como gostaria de ser tratado”.
Traduzido
do espanhol pelo Cepat. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
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