O “vale-tudo” está acabando
A
era do “vale-tudo” nas redes sociais
está acabando
Jordi Pérez
Colomé
Decisões importantes
do Youtube, Facebook, Reddit e Twitch demonstram que não é mais permitido todo
discurso político

Nos últimos dias houve novidades impactantes para o futuro
das redes sociais. Nenhuma decisão por si só é brutalmente inovadora. Mas seu
fluxo incessante indica o caminho que as redes adotaram: o discurso de ódio
não é permitido e a linha vermelha ficará cada vez mais clara. A guerra
sobre onde está o limite marcará o futuro da Internet.
Em ordem de importância, as decisões foram estas quatro:
Primeiro, o Twitch removeu temporariamente o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, de sua plataforma. O Twitch é uma rede de
transmissões ao vivo dedicadas principalmente a videogames. Mas seu crescimento
é contínuo e os streamings são cada vez mais variados. O conteúdo que
aparentemente provocou a suspensão temporária de Trump é um streaming de um
comício dele em 2015, no qual dizia que o México estava enviando estupradores
para os Estados Unidos, além de outros comentários racistas em um recente
comício em Tulsa, Oklahoma.
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Twitch baniu Donald Trump devido aos seus discursos de ódio e preconceito |
O Twitch parece que passou a levar a sério as repetidas
acusações de mulheres de que permite o assédio em sua plataforma. A importância primordial da decisão
do Twitch é que cancelou a voz do presidente dos Estados Unidos. Outras
redes sempre optam por mantê-lo, com a desculpa do discurso político e de sua
importância informativa, na melhor das hipóteses chamando a atenção com avisos
ao lado de suas mensagens. O Twitch, de propriedade de Jeff Bezos, com quem
Donald Trump tem uma relação complicada, foi um passo além.
A decisão do Twitch se soma à do Snapchat no início de
junho, quando decidiu deixar a conta de Trump intacta, mas não a destacar
mais em sua página principal, para impedir que seus comentários promovam
violência.
O segundo é o Reddit,
que removeu mais de 2.000 comunidades de sua plataforma por promoverem
discurso de ódio. O motivo foi a atualização de suas políticas: “A regra 1
estabelece explicitamente que as comunidades e os usuários que promoverem o
ódio baseado em identidade ou em vulnerabilidade serão suprimidos”. O Reddit é
uma rede social estruturada em torno de milhares de comunidades de interesse às
quais os usuários se unem ― de questões políticas a peculiaridades como
bricolagem, culinária ou arquitetura ― e que têm seus próprios moderadores
voluntários.

Desde a sua criação, em 2005, o Reddit se caracterizava como
um dos fóruns mais transgressivos da Internet. Isso acabou. O Reddit agora
baniu canais que violam sua nova norma de ódio, de todas as ideologias, mas
um se destaca: r/The_Donald. Chama-se assim por seu apoio ao presidente.
O Reddit tentou, durante anos, sem sucesso, fazer com que os moderadores do
r/The_Donald restringissem os posts ao que é permitido. As punições e sanções
da empresa contra a comunidade fizeram com que os usuários mais ativos migrassem
para um fórum próprio: TheDonald(.)win.
Terceiro, o Facebook designou o movimento Boogaloo como
uma “organização perigosa”, o que resulta em ações contra seus promotores. A
empresa excluiu 220 contas do Facebook, 95 contas do Instagram, 28 páginas do
Facebook e 106 grupos, além de outros 400 grupos e 100 páginas vinculadas.
O Boogaloo é uma dessas coisas impossíveis que não
existiriam sem a Internet. O nome vem de um filme dos anos 80 e era usado em
fóruns remotos como 4chan e 8chan. Seus membros são aparentemente filiados à
tradição de milícias armadas nos Estados Unidos e sua suposta intenção é
provocar uma segunda guerra civil nos Estados Unidos. No final de maio, um
extremista que dizia pertencer ao grupo matou um policial em Oakland,
Califórnia. Seu local preferido de coordenação era supostamente o Facebook.
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Membro do Movimento Boogaloo |
Parece natural para o Facebook perseguir grupos que usam sua
plataforma para matar policiais, mas o Boogaloo é um desafio em si mesmo. Seu
esquema de organização consiste em usar outros nomes como referência,
dissimular suas opiniões e enganar a rede. O esforço que o Facebook deverá dedicar
à caça de grupos organizados para combater ferramentas de inteligência
artificial que eles adotam será enorme e uma novidade.
Quarto, o YouTube fechou alguns canais que considerava
racistas. De novo, não é a primeira vez. Mas seus tentáculos se expandem. Um
dos canais é de Stefan Molyneux, que lamentou no Twitter a “censura”
imposta pela plataforma. Para gente como ele, o desaparecimento do YouTube pode
causar problemas de subsistência. A possibilidade de crescimento que o YouTube
lhe dava é difícil de encontrar em outro lugar. Molyneux tentou o Twitch, com
pouco sucesso. A personalidade e os usuários de cada rede são únicos.

A Internet não é mais a
mesma
Estas medidas são importantes por vários motivos, mas há um
mais do que evidente: a Internet não é mais o espaço livre e aberto onde
todos nós nos conectamos com todos, sem que ninguém intervenha. Isso pode
continuar a ser feito, é claro: na maioria dos países, ninguém impede a
abertura de um site nem que se conte a barbaridade que se desejar, desde que
isso não seja um crime. O problema será como ficar conhecido, disseminar e
propagandear esse conteúdo.
As principais plataformas são aquelas onde as pessoas estão. Um
grupo de fanáticos poderá continuar criando seu fórum supremacista na Internet,
mas como recrutarão novos usuários? Onde encontrarão milhões de almas
cândidas dispostas a rir de seus memes agressivos? O r/The_Donald se
beneficiava da página inicial do Reddit ― “a capa da Internet” ― que milhões de
pessoas acessavam para ver o que estava acontecendo, qual era a tendência. Ali,
as piadas poderiam atrair a atenção de usuários que acabariam entrando no r/The
Donald para ver o que mais havia. Agora, The_Donald é um site na Internet. Lá
podem conversar, rir e se organizar, até crescer, mas devagar. Eles não têm
mais um lugar fácil para recrutar adeptos.
O pesquisador Savvas Zannettou, do Instituto Max
Planck, de Berlim, analisou a influência na conversa na Internet do antigo
canal r/The_Donald no Reddit. Era impactante. Agora ele se
empenha em analisar como o fim de sua relação com o Reddit repercutiu no peso
desse grupo. A investigação não está terminada, mas ele é cético: “Nossos
resultados preliminares mostram que apenas uma fração dos usuários ativos no
r/The_Donald migrou para a nova casa, mas esses usuários estão mais ativos
agora do que quando estavam no Reddit”, explica. Embora o trabalho não esteja
concluído, a intuição de Zannettou indica que seu peso caiu. “Suspeito que a
influência da nova casa será substancialmente menor em comparação com a
anterior, pois agora eles têm plataforma/fórum próprios e não podem facilmente
alcançar o grande número de usuários que passavam pelo Reddit”, acrescenta.
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STEVE HUFFMAN Fundador e Diretor-Geral do Reddit |
O nervosismo do ano eleitoral nos Estados Unidos, a pressão
desencadeada pelo movimento Black Lives Matter e as evidências, com a
pandemia, de que as informações que circulam nas redes têm consequências reais
facilitaram a absorção dessas decisões. Mas é uma tendência que parece clara há
anos. O fundador e CEO do Reddit, Steve Huffman, refletiu no The
New York Times sobre sua mudança de opinião: “Quando começamos o Reddit, há
15 anos, não proibíamos coisas. E era fácil, como para muitas outras pessoas,
dizer coisas assim porque, primeiro, eu tinha crenças políticas muito mais
rígidas, e segundo, me faltava perspectiva e experiência do mundo real”, diz
ele. A tradução é simples: os fundadores dessas redes não são mais tão
jovens e viram que as consequências de permitir tudo são extraordinárias.
Mas Huffman prossegue: “Aqui estamos agora, acreditando que a
liberdade de expressão é muito importante e que é uma das coisas que torna o
Reddit especial, mas, ao mesmo tempo, vendo que permitir tudo é trabalhar
contra a nossa missão”. Até agora, a linha vermelha do que as redes permitiam
era feita de tinta borrada e desgastada, mas, com o tempo, está se tornando um
muro sólido para deixar de fora o que acreditam ser ódio, assédio e
violência. Parece uma decisão lógica e fácil, mas há tribunais que discutem
os limites há décadas.
Fonte: El País – Tecnologia – Segunda-feira, 06 de julho de 2020 – Publicado às
22h03 (Horário de Brasília – DF) – Acesso em 09/07/2020 – Internet: clique aqui.
Enquanto isso... Aqui no Brasil
Facebook
derruba rede de perfis falsos ligada a funcionários dos gabinetes da família
Bolsonaro
Bruno Romani,
Camila Turtelli e Julia Lindner
Plataforma anuncia
retirada de páginas e contas de desinformação
e perfis falsos
vinculados a integrantes dos gabinetes do
presidente e
familiares, além de políticos do PSL
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TERCIO ARNAUD THOMAZ & JAIR BOLSONARO |
O Facebook anunciou nesta
quarta-feira, 8 de julho, que derrubou uma rede de contas e perfis falsos
ligados a integrantes do gabinete do presidente de Jair Bolsonaro, a seus
filhos, ao PSL e aliados. Foram identificados e removidos:
* 35 contas,
* 14 páginas e
* 1 grupo no Facebook e
* 38 contas no Instagram.
O material investigado pela plataforma identificou pelo
menos cinco funcionários e ex-auxiliares que disseminavam ataques a adversários
políticos de Bolsonaro. Nessa lista está Tercio
Arnaud Thomaz, que é assessor do presidente e integra o chamado
“gabinete do ódio”, núcleo instalado no terceiro andar do Palácio do Planalto.
[Espera aí! Quer dizer que essa
pessoa ganha dinheiro do povo brasileiro, pago em impostos, para ficar atacando
gente e disseminando o ódio e a divisão em nome de... Jair Bolsonaro?! –
Simplesmente, criminoso!]
A existência do “gabinete do ódio” – que mantém um
estilo beligerante nas redes sociais e é comandado pelo vereador Carlos
Bolsonaro (Republicanos-RJ) – foi revelada pelo jornal O Estado de S.
Paulo em setembro do ano passado.
Os citados negaram irregularidades e classificaram a medida
como arbitrária. O PSL disse que as contas são de responsabilidade dos
parlamentares e não possuem relação com o partido.
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CARLOS BOLSONARO O arquiteto e responsável pelo "Gabinete do Ódio" - segundo os entendidos |
Um dos funcionários envolvidos nessa rede identificada pelo
Facebook trabalhava para Carlos Bolsonaro, filho do presidente. Outro funcionário
identificado é contratado do deputado estadual pelo PSL de São Paulo Coronel
Nishikawa.
As páginas no Facebook tinham 883 mil seguidores, enquanto as
contas no Instagram, 917 mil seguidores. Além disso, 350 pessoas estavam no
grupo. A página “Bolsonaro Opressor 2.0” foi identificada à conta @bolsonaronewsss,
que estava sob administração de Tercio.
A rede de fake news derrubada pelo Facebook também inclui os deputados
estaduais Anderson Moraes e Alana Passos, ambos do PSL do Rio.
Em maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de
Moraes apontou indícios de que um grupo de empresários atuava de maneira
velada financiando a disseminação de fake news e conteúdo de ódio contra
integrantes da Corte e outras instituições. O ministro também definiu como “associação
criminosa” o grupo do “gabinete do ódio”. [E
não se esqueça, tudo isso financiado com o meu, o seu, o nosso dinheiro!]
O controverso inquérito que apura ameaças, ofensas e fake
news contra ministros do Supremo, conduzido por Moraes, pode pavimentar o
caminho da cassação do presidente Jair Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral
(TSE). A avaliação entre ministros do tribunal é a de que, caso seja autorizado,
um compartilhamento das provas do STF com a Justiça Eleitoral deve dar um novo
fôlego às investigações que apuram o disparo de mensagens em massa na
campanha presidencial de Bolsonaro em 2018. A possibilidade dessas ações
serem “turbinadas” com o inquérito das fake news do Supremo já acendeu o sinal
de alerta do Palácio do Planalto.
Entre as violações,
discursos de ódio
No material postado que foi identificado pelo Facebook
estavam conteúdos relacionados às eleições, memes políticos, críticas à
oposição, empresas de mídia e jornalistas, além de textos sobre o coronavírus.
Segundo a rede social, parte do conteúdo dessa rede já havia sido removida por
violar padrões de comunidade. Entre as violações estavam discursos de ódio.
Os detalhes de toda a operação brasileira foram postados no
site do Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab, instituição
que realiza análise independente de remoções do Facebook por comportamento
inautêntico coordenado.
O anúncio faz parte de uma remoção de redes de desinformação
que operavam em quatro territórios postando conteúdo relacionado a assuntos
políticos domésticos. Além do Brasil, foram derrubadas redes nos EUA, na
Ucrânia e na América Latina, incluindo países como El Salvador, Argentina,
Uruguai, Venezuela, Equador e Chile. No caso brasileiro, as investigações e
remoções ocorreram a partir de notícias na imprensa brasileira e referências
feitas ao assunto no Congresso durante a CPI das Fake News.
Baixe o documento publicado pela rede social,
clicando aqui.
Nathaniel Gleicher, diretor de Cibersegurança do Facebook, foi cauteloso em
apontar o envolvimento direto ou o conhecimento de políticos na campanha,
inclusive na coordenação das postagens. “Não podemos afirmar a ligação direta
das pessoas citadas, mas podemos afirmar que pessoas associadas a eles e a
seus escritórios se envolveram em comportamento inautêntico na plataforma.”
Segundo o executivo do Facebook, não há indícios de que uma
empresa foi contratada para realizar o trabalho, como aconteceu nos outros
países latinos. Foi gasto US$ 1,5 mil em impulsionamento dos conteúdos no
Facebook. De acordo com a Atlantic Council, o envolvimento de funcionários
de gabinetes pode indicar que a operação usou recursos públicos, pois as
postagens eram feitas durante o horário de expediente.
O relatório da DFRLab aponta que Tercio
Arnaud administrava páginas e contas com conteúdo de ataques a
adversários políticos do governo, em muitos casos com teor considerado
“enganoso” e que misturava “meias-verdades para chegar a conclusões falsas”.
Em agosto do ano passado, Bolsonaro compartilhou, pelo
Facebook, uma publicação que chama o procurador Deltan Dallagnol, chefe da
força-tarefa da Lava Jato, de “esquerdista estilo PSOL”. O link divulgado pelo
presidente redirecionava a página para um post do perfil Bolsonaro Opressor
2.0. Antes de atuar no governo, Tercio trabalhou para o gabinete do vereador
Carlos Bolsonaro no Rio de Janeiro. Ele ocupava cargo de auxiliar de
gabinete.
O DFRLab também identificou dois assessores do deputado
Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). São eles Paulo Eduardo Lopes (conhecido
como Paulo Chuchu) e Eduardo Guimarães.
Guimarães é funcionário do gabinete de Eduardo Bolsonaro na Câmara. Já Oliveira
foi exonerado no dia 26 de junho e agora está registrado como assessor do
gabinete do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), aliado do governo.
O relatório do DFRLab cita a página “Bolsofeios” como
sendo de Guimarães. A ligação já havia sido apontada pela CPI das Fake News,
que identificou atualizações do perfil a partir de um celular do assessor de
Eduardo.
Um dos perfis excluídos é o “Jogo Político”, no
Facebook e Instagram, que compartilhava publicações do site de mesmo nome,
registrado por Leonardo Rodrigues de Barros Neto.
A página do site no Twitter está suspensa. Ex-assessor da deputada estadual no
Rio Alana Passos (PSL), Barros Neto é responsável também pelos perfis “Bolsoneas”,
que recentemente foram derrubados pelo Twitter. Ele costuma se apresentar como
“Leonardo Bolsonéas” e seu principal perfil foi alvo do inquérito das Fake News
em curso no Supremo Tribunal Federal.
Parlamentares à frente da comissão afirmaram que o banimento
das contas está em linha com fatos revelados pela investigação e que o caso
reforça a necessidade de ter acesso ao conteúdo publicado por meio dessas
contas excluídas.
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