Os vendilhões do templo
Como
manipular fiéis e encher uma igreja
Gilmar
Pereira*
A partir da angústia
existencial, líderes religiosos podem exercer
controle sobre quem
busca milagres

A questão fundamental é que nossa liberdade é limitada.
Pode-se ter uma vontade imensa de levitar, mas nem por isso se trata de algo
possível. E as impossibilidades perpassam não só a física como também as
dinâmicas político-sociais, relacionais etc. Assim, no alto de nossos 36 anos,
com uma compleição corporal robusta e revestida de boa e grossa camada de
tecido adiposo, não nos é possível mais ser bailarino clássico.
A falta de controle sobre a vida, somada à incerteza do
futuro, igualmente indominável, gera angústia. Esse estreitamento existencial leva o humano
a buscar no divino a superação de sua natureza e de seus limites, sejam
eles de quais ordens for.
Esse
sobrepassar do possível por ação divina é o que denominamos MILAGRE.
Obviamente, algumas possibilidades parecem inexistentes e
não o são. Às vezes, quem as encontra sem achar que existissem pode acabar
lhes nomeando como milagre, mas não é o mais apropriado. Entendendo como obra
de Deus, seria melhor chamá-las graça.
Na dinâmica da fé, a graça está no campo da possibilidade
humana que se move em consonância com o divino. O milagre romperia com a
ordem natural e possível das coisas – ainda que, no plano narrativo dos
evangelhos, essa adjetivação não seja a melhor, uma vez que aí se presta à
função catequética-mistagógica, querendo significar outra coisa e não
necessariamente a fatualidade de seu acontecimento. Por isso, uma cura pela
medicina é lida pelo crente como graça divina, que concede sabedoria a
farmacêuticos e médicos para produzirem e indicarem o tratamento adequado. Quando
a ciência não explica a cura, ela é tida, na ótica da fé, como milagre.

O ser humano tentando
controlar as forças invisíveis
Como se trata de um movimento humano, a tentativa de romper
com a angústia existencial diante do possível indeterminado ou mesmo das
impossibilidades é observada já na Antiguidade. Por não compreender a dinâmica
da natureza, o humano atribuía certa personalidade aos fenômenos naturais,
entificando-os. Assim, haveria uma divindade que controlaria cada uma das
realidades que percebesse maior que si. Como explicar a corrente em um lago
aparentemente calmo, que puxa alguém para o fundo, senão por algum ser
sobrenatural? E sendo assim, como agradá-lo para que não provoque destruição e
morte?
Desse modo, nascem as ofertas votivas, como modo de
agradar e acalmar as divindades. O humano passa a tratá-las como a um líder
tribal poderoso e lhes oferta o que tem de melhor com o intuito de lhes
dominar. A relação é ambígua. O dominado, em sua subserviência, busca ter
seu dominador sob seu controle.

As diferenças entre
cristianismo e demais religiões
A EXPERIÊNCIA CRISTÃ se difere disso por inúmeras razões:
* pela fé em um Deus que se abaixa assumindo o que é
inferior;
* pela sua não identificação com a natureza, não
podendo sequer ser representado;
* pela sua negação de sacrifícios, sacrificando-se
ele mesmo, entre outras.
Numa primeira instância, têm-se o humano que faz Deus sua
imagem e semelhança; na outra, Deus que, em Jesus, quer fazer do humano
divino, elevando-o à participação de sua vida. Embora sejam dinâmicas
diametralmente opostas, não é assim que a maioria dos cristãos as vivem, mesmo
as igrejas, misturando essas posturas que são inconciliáveis. Daí surge a
pregação e as práticas rituais para se alcançar milagres. Há uma máxima que diz
“a gente não é do jeito que quer, mas do jeito que a gente dá conta”. Contudo, nem
todo mundo dá conta de si de suas circunstâncias e, por não ver uma
possibilidade de mudanças possíveis, recorre ao sobrenatural e busca o milagre.
Há um fascínio no transcender a natureza que coaduna com o desejo humano de
continuidade (infinitude) ou de completude, que estariam na esfera do Ser
absoluto ou divino. Qualquer lampejo disso é encantador, faz a pessoa se sentir
mais forte, capaz, encorajada. Experimentar o poder divino pode ser
terrificante, mas não menos fascinante. Assim, qualquer experiência de
romper ou sobrepor a natureza provoca maravilhamento. Por isso o humano
gosta:
a) da mágica, pela qual sente controlar as forças ocultas que movem
o universo;
b) dos estados alterados de consciência, quando vê ou sente coisas
que não contempla no estado normal;
c) da guerra, quando desperta forças em si, que
desconhecia, e até mesmo arbitra sobre a vida ou morte de outrem, algo também
atribuído ao divino.
Dito isso, temos aqui os elementos necessários para a
compreensão da manipulação que se pode exercer sobre outrem através do discurso
religioso baseado em milagres. É fácil exercer a manipulação sobre alguém
desde que se toque em sua angústia e lhe ofereça, ao mesmo tempo, alguma
experiência que lhe pareça mágica, sobretudo se promover algum estado alterado
de consciência ou lhe fizer sentir, em si, mais força ou poder.

Recursos para manipular
emoções
Nesse sentido, músicas com acordes altos podem induzir ao
êxtase, ainda mais em ambiente onde se promova a sinergia dos fiéis,
dando-lhes o sentido de unidade e de força que um grupo coeso oferece. Conduza
isso num clima de excitação crescente até um ponto de extravasamento e,
abruptamente, substitua por um clima calmo – excitação, gozo
e relaxamento. Alguém vai duvidar que a sensação prazerosa de um culto
assim não é divina?
O que se dirá, então, de quem conduz uma experiência assim? Esse seria um humano diferente,
alguém que transita na nossa realidade e na divina. Assim são vistos os líderes
religiosos e por isso deles não se permite o erro, porque são homens e
mulheres de Deus. Alguns até se creem especiais por isso. Outros abusam
desse lugar, cientes que sua palavra não é questionada, dado que ela não lhe
pertenceria, mas a Deus. Isso explica porque muita gente adulta e, em tese, com
formação crítica, acaba se submetendo a abusos de lideranças religiosas: porque
a dinâmica simbólica que forma seu arcabouço cultural fala mais alto que
qualquer racionalidade.
O milagre, ou sua busca, acalma a angústia existencial de tal modo
que
a pessoa pode não perceber que acabou por cercear a própria liberdade
a fim de ultrapassar os limites de sua finitude.
Há quem, em nome dessa fé de milagres, tenha limitado
grandemente sua vida, tudo para não romper com o estado de santidade que se
exige para alçar o sobrenatural. Ironicamente acabam cantando que são livres em
Deus, mas se esquecem que, na verdade, cultuam um ídolo, pois fizeram um
deus à sua imagem e semelhança, que barganha com o ser humano para conceder
favores.
E quando o milagre não se alcança? É o diabo! É bom ter um diabo para tirar as
responsabilidades da própria vida de escolhas malfeitas ou pelo insucesso na
mística milagreira. É ele quem quer desviar desse caminho “tão santo”. Portanto,
é importante manter o diabo vivo no discurso religioso. Ele exime o fiel de
qualquer responsabilidade e, ainda, pelo medo que causa e por ser inumano,
leva a buscar ainda mais o sobrenatural. No final das contas, multidões lotam
templos e aderem piamente ao que diz o líder, aquele que expressa sempre a
vontade divina. No final, todos dizem: Eita, glória!
* Gilmar Pereira
é mestre em Comunicação e Semiótica, bacharel e licenciado em Filosofia,
bacharel em Teologia, possui formação em Fotografia, é estudante de psicanálise
e responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total.
Charlatanismo
religioso:
um
pecado contra Deus
Fabrício
Veliq*
A graça de Deus,
conforme anunciada por Jesus Cristo,
em nada se coaduna
com práticas de extorsão

O termo charlatanismo é
definido pelo dicionário como a “exploração da credulidade pública,
inculcando ou anunciando cura por meio secreto ou infalível”.
Consequentemente, a pessoa charlatã é aquela que faz uso desse tipo de
artimanha junto ao povo. Juntamente com a prática comumente vem a questão
financeira, uma vez que todas essas curas ou mesmo milagres não são de graça.
Muito pelo contrário, é necessária a demonstração de fé, geralmente com
dinheiro, daquele que busca essa dádiva das divindades.
Embora possa parecer algo recente, a ideia do
charlatanismo já era presente no Antigo Testamento na figura dos adivinhos.
Eles “revelavam” o futuro aos seus consulentes, mas recebiam pagamento em
troca. Uma vez que na religião judaica não existia a categoria de futuro como
algo pronto, mas somente como expectativa e consequência das escolhas do
presente, toda tentativa de sua previsão era condenada por Javé. Nesse caso,
por enganarem o povo, afirmando algo que não era verdade, os adivinhos deveriam
ser mortos apedrejados para que o mal em Israel fosse extinto.
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Traduzindo, da esquerda para a direita: óleo de oliva da Galileia, solo sagrado de Jerusalém, água do rio Jordão |
Neopentecostalismo: ambiente
favorável ao charlatanismo
Nos dias atuais, principalmente no meio neopentecostal,
vê-se um movimento crescente de charlatões, que usam a fé das pessoas simples
e de bom coração para enriquecimento próprio. É muito comum se ouvir falar
de campanhas com:
* alguma vassoura ungida,
* óleo especial buscado em Israel,
* garrafas com um pouco de água do rio Jordão,
* dentre tantos outros apetrechos.
Estes são vendidos a fim de propiciar libertação, cura
ou qualquer tipo de alívio para o sofrimento humano.
Esse tipo de discurso, uma espécie de “magia cristã”,
muitas vezes é referendada e institucionalizada por algumas igrejas. Apelando
para forças sobrenaturais e divinas - tudo aliado a um forte apelo emocional
que, na maioria das vezes, gera medo das forças das
trevas - os ministros de tal prática fazem com que muita gente se sinta
coagida a pagar por esses apetrechos, a fim de caírem nas graças de Deus e ter
seus problemas resolvidos.
O charlatão, ao cometer um crime doloso para com a sociedade,
peca contra Deus.
Ele explora a fé dos pequeninos angariando
lucro para si, vendendo falsas esperanças, tais como os adivinhos do Antigo
Testamento.
Dessa forma, todo e qualquer discurso que tenta oferecer a graça
de Deus com alguma contrapartida deve ser visto com grande desconfiança
e, mais ainda, denunciado às autoridades competentes.
A graça de Deus, conforme anunciada por Jesus Cristo, em nada
se coaduna com práticas de extorsão. Muito pelo contrário, a absurda e
incompreensível graça de Deus se mostra como terror para todo e qualquer
charlatanismo, visto que não exige e não cobra absolutamente nada daquele
que é alcançado por ela. Diante disso, é tarefa de uma teologia responsável
denunciar toda e qualquer proposta charlatã que tenta negociar as bênçãos de
Deus, ainda que seja transvestida de uma áurea de santidade e autoridade.
Deus, conforme anunciado por Jesus é aquele que faz vir sua
chuva sobre bons e maus, que ama a todos indiscriminadamente, desejando que
tenham vida em abundância sem exigir nada em troca. Em outras palavras, é um
Deus de amor e, portanto, é gratuito e livre, de maneira que nada precisa ser
pago para experimentá-lo.
* Fabrício Veliq
é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo
Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU
Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG).
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