As crianças na pandemia
A
verdade acima de tudo
Rosely Sayão
Psicóloga
Dizer a verdade às
crianças, amorosamente, sem falsas
promessas, é o melhor
a fazer

Nunca a morte – bem como a ideia dela – esteve tão em
evidência para nós quanto nestes tempos de pandemia. Diariamente lemos,
ouvimos, falamos, assistimos a reportagens e trocamos ideias a respeito da
doença provocada pelo covid-19, da gravidade dela e da morte.
Sofrimento e morte: eis os temas que têm ocupado lugar
privilegiado em nossos pensamentos. Muitos perderam pessoas próximas, com quem tinham laços de
parentesco ou de vínculo de afeto. O sofrimento decorrente dessas perdas tem
sido muito intenso e o luto, nada fácil. Afinal, quase todos foram privados
do funeral e do enterro, rituais que ajudam a organizar o luto das pessoas.
Mesmo quem não perdeu alguém conhecido ou próximo sofre por empatia.
Já lemos opiniões e análises de que as notícias sobre o
número de infectados e mortes poderia desumanizar a dor da perda de tantos
brasileiros, já que se as informações acabam se transformando em números e
estatísticas. Entretanto, nossa humanidade não permite que ignoremos por
completo o fato de que o sofrimento, a angústia, a ansiedade e o medo, entre
outros, nos rondam neste período de pandemia e não há vacina tampouco
tratamento efetivo para a doença.
Nesse panorama, é importante perguntar: como ficam as
crianças e os adolescentes nesse contexto? Vale lembrar que todos eles estão
com acesso a todas as informações do mundo adulto. Como será que entendem e
elaboram essas questões? Como a ideia de morte é percebida? Como responder às
perguntas que nos fazem?
Primeiramente, é preciso lembrar que a ideia da morte
varia de acordo com o estágio de desenvolvimento da criança, bem como com as
experiências já vivenciadas. Por exemplo: uma criança de 4 anos pode não
entender a morte no seu real significado, e outra, da mesma idade e mesmo
estágio de desenvolvimento, por viver em locais de extrema violência, pode ter
um entendimento mais pleno da finitude humana.

Vamos lembrar que a aceitação da morte é difícil até para
adultos e que, a partir dessa ideia, as crianças passaram a ser poupadas da
ideia da morte, como se isso fosse possível! Muitas famílias não contam aos
filhos pequenos sobre a morte de um parente próximo e até criam mentiras para
explicar a ausência das pessoas que morreram. Em vez de dizer, por exemplo,
“o vovô morreu”, dizem: “o vovô viajou”. No geral, devemos sempre respeitar a
criança e dizer-lhe a verdade.
Ocultar a morte para evitar sofrimento não ajuda em nada:
a criança percebe que há pessoas tristes ao redor e
a relação de confiança sofre, então, uma quebra.
Dizer a verdade à criança a respeito da morte pode sofrer
variações de acordo com a idade dela. Para as que estão na primeira infância
pode ser útil recorrer a alguns mitos. Por exemplo: “vovô morreu e agora
está no céu, com as estrelas”, uma fantasia que ajuda a criança a elaborar
o conceito.
Crianças maiores já entendem o significado da morte quase como um adulto:
“É o fim”, me disse uma garota de 10 anos. E quando essa compreensão chega, em
geral chega acompanhada de medo – medo de perder os pais, medo da morte.
Acolher amorosamente esse medo, sem falsas promessas, é o
melhor que podemos ofertar. Não podemos garantir que ela não morrerá, mas
podemos aquietar o quanto possível essa angústia: “Irei sempre cuidar de
você e de sua saúde, da minha também”. Isso dá segurança à criança. E
quando eles perguntam o que não sabemos? “Por que as pessoas morrem?” é
uma curiosidade frequente. Responder que é “porque toda a vida acaba” é um modo
delicado de apontar a finitude da vida.
E os adolescentes? Com eles, a questão é mais complexa porque, em tempos de
pandemia, de isolamento físico, de quebra do acesso ao mundo adulto que eles
vinham conquistando, a ideia de morte pode acrescentar à ansiedade e à
tristeza deles um fator perigoso. Muitos amigos psiquiatras têm relatado a
procura de pais de adolescentes que têm falado de ideias suicidas. Nesses
casos, é preciso procurar rapidamente um profissional.
No geral, devemos incentivar no adolescente o amor à vida
e o cuidado com ela, em qualquer situação, e nunca o desafio da morte.
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