Fé na morte!
Falas
de Bolsonaro contra isolamento podem ter matado mais seus eleitores,
aponta
estudo
Fernando
Canzian
Isolamento caiu e
houve mais óbitos proporcionalmente em cidades
que tiveram mais
eleitores do presidente
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Isto é para aqueles que acreditam nele!!! |
O discurso negacionista do presidente Jair Bolsonaro na
epidemia do coronavírus pode ter contribuído para matar principalmente seus
eleitores.
Em praticamente todas as ocasiões em que o presidente
minimizou a pandemia, a taxa de isolamento social no Brasil diminuiu — e mais pessoas morreram,
proporcionalmente, nos municípios que mais votaram em Bolsonaro em 2018.
A conclusão é do estudo “Ideologia,
isolamento e morte: uma análise dos efeitos do bolsonarismo na pandemia de
Covid-19”, de quatro pesquisadores da Universidade Federal do ABC
(UFABC), da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade de São Paulo.
O trabalho sustenta que
a votação do presidente
no primeiro turno, por município,
tem correlação negativa
com a taxa de isolamento;
e correlação positiva
com mortes por Covid-19.
Em resumo, onde Bolsonaro teve mais
votos, o isolamento tem sido menor — e o número de óbitos, maior.
Acesse as tabelas da pesquisa,
clicando aqui
“É como se, com seu discurso, Bolsonaro tivesse levado seus
eleitores ao abatedouro”, diz um dos autores do trabalho, Ivan Filipe Fernandes, doutor em
Ciência Política pela USP e professor da UFABC.
“Não conseguimos estimar quantas pessoas morreram a mais por
conta das falas do presidente, mas certamente teríamos menos óbitos,
principalmente entre seus apoiadores, se ele tivesse agido de forma diferente.”
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Jair Bolsonaro tossindo durante manifestação antidemocrática em Brasília - Domingo, 19 de abril de 2020 Brasília - DF |
A pesquisa levou em conta as ocasiões em que Bolsonaro fez
afirmações contrárias à ameaça da Covid-19 (como quando falou em “gripezinha”)
e seus efeitos sobre o isolamento social, monitorado a partir dos dados de
georrefenciamento de telefones celulares captados em todos os Estados pela
empresa Inloco.
A cada vez que
Bolsonaro minimizou a pandemia,
foram registradas
quedas significativas nas taxas de isolamento social
em todos os Estados — sem
exceção.
Esses resultados foram cruzados com a votação do presidente
no primeiro turno de 2018 e com o número de mortes acumuladas por município,
revelando que os óbitos foram maiores onde o
presidente conquistou mais votos.
Para reforçar os achados, além dos votos no presidente em
2018, o levantamento analisou os efeitos diretos sobre mortes das votações de
José Serra (PSDB), em 2010, e Aécio Neves (PSDB), em 2014. Mas a correlação
positiva só foi encontrada em relação à eleição de dois anos atrás que levou
Bolsonaro à presidência.
Um cruzamento adicional mostra ainda que a adesão ao
isolamento social foi menor nos municípios em que o presidente teve votações
mais expressivas.
As conclusões de Ivan Fernandes e seus colegas no trabalho — ainda
não publicado em revista de referência, nem submetido a revisão por pares — são
reforçadas por um outro levantamento realizado pelo cientista político Carlos
Pereira, professor da FGV.
Em suas pesquisas, Pereira constatou que o apoio ao
isolamento social diminuiu entre os eleitores identificados como de direita
à medida em que a epidemia foi se tornando mais grave no Brasil.
Numa primeira rodada de entrevistas com esse tipo de eleitor,
entre o fim de março e o começo de abril, 59% apoiavam o isolamento para
combater a expansão da epidemia.
Em uma segunda vez em que os eleitores de direita foram
questionados, entre o fim de maio e o começo de junho (após a maioria das
declarações do presidente), o apoio ao isolamento havia caído para 41%.
Pereira afirma que há dois tipos de eleitores de direita
identificados com Bolsonaro:
1) os identitários, mais coesos e que apoiam o discurso conservador
do presidente; e
2) os pragmáticos, circunstancialmente favoráveis desde que sejam
tocadas as agendas econômica e de combate à corrupção.
“É sobretudo entre os identitários que figuram os
eleitores mais propensos a negligenciar o isolamento social”, diz o cientista político.
Segundo Pereira, o impacto substantivo de ser conservador é
maior até que o medo da morte entre esses eleitores. “Ter proximidade com
alguém que morreu por Covid-19 reduz em torno de 20% as chances do eleitor de
direita votar em Bolsonaro. Mas possuir a identidade conservadora com o presidente
pode garantir quase 90% de apoio desse eleitor à sua reeleição em 2022.”
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