A conversão pastoral da Igreja
Renovar
toda a Igreja no Evangelho
Eliseu
Wisniewski
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do
Paraná, Curitiba
A renovação é
incômoda, traz inseguranças, questiona hábitos passados, compreensões
tradicionais, formulações familiares, concepções estáticas de Igreja
Sobre o livro «Renovar toda a Igreja no Evangelho.
Desafios e perspectivas para a conversão pastoral na Igreja» do Prof. Dr. Pe.
Francisco de Aquino Junior.
Vivemos numa cultura marcada por transformações aceleradas.
Renovar é um sempre um desafio. É um chamado à conversão de mentalidade e de
estruturas. Sem essas conversões qualquer renovação se torna inviável.
O longo passado da Igreja nos ensina que as renovações
eclesiais sempre foram tempos agitados por atingirem mentalidades e
comportamentos. A renovação é incômoda, traz inseguranças, questiona
hábitos passados, compreensões tradicionais, formulações familiares, concepções
estáticas de Igreja. Traz por isso resistências. Mas, contudo, entretanto,
todavia, sem embargo as renovações sempre acompanharam a Igreja no curso dos
séculos.
Revisitando o peregrinar na Igreja identificamos diferentes
modelos eclesiológicos com seus respectivos modelos de ação:
* na Igreja entendida como mistério de comunhão
encontramos a pastoral profética,
* na Igreja entendida como corpo de Cristo encontramos
a pastoral sacramental,
* na Igreja entendida como sociedade perfeita
encontramos a pastoral coletiva,
* na Igreja entendida como Povo de Deus encontramos a pastoral
de conjunto.
É no modelo normativo neotestamentário, ou seja, a
Igreja:
* é apostólica,
* é una,
* é a Igreja da Palavra e dos sinais sacramentais,
* é regida por uma ordem de carismas e ministérios,
* é a comunidade dos convertidos e dos que nasceram para a fé,
* está no mundo, mas não é deste mundo,
* é uma realidade escatológica...
... que encontramos os elementos essenciais que devem
estar presentes em qualquer modelo eclesiológico e modelo de ação.
Papa Francisco corajosamente assumiu a renovação eclesial
iniciada pelo Concílio Vaticano II. Uma Igreja que se renova constantemente
através de uma verdadeira volta às fontes bíblicas e patrísticas. A
renovação da Igreja a partir do Evangelho é tema do livro: Renovar toda a Igreja no Evangelho. Desafios e perspectivas
para a conversão pastoral na Igreja (Editora
Santuário, 2019) de autoria do Prof. Francisco de Aquino Júnior.
Francisco de Aquino Junior é presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE,
doutor em Teologia pela Westfälischen Wilhelms-Universität, Münster, Alemanha,
e professor de Teologia na Faculdade Católica de Fortaleza e na Universidade
Católica de Pernambuco (UNICAP).
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Prof. Dr. Pe. Francisco de Aquino Junior |
O livro Renovar toda a Igreja no Evangelho. Desafios e
perspectivas para a conversão pastoral na Igreja, com prefácio do Prof. Dr.
Agenor Brighenti, reúne um conjunto de textos que tratam da renovação
eclesial ou da conversão pastoral e missionária (cf. páginas 9-16). Foram
originalmente escritos e publicados como artigos independentes, mas estão
sintonizados com as preocupações e orientações pastorais do Papa Francisco:
buscam acolher seu convite de renovação, segundo a Exortação Apostólica Evangelii
Gaudium (2013).
O autor abre o texto com algumas considerações gerais sobre o
atual panorama da Igreja católica. Destaca a novidade do Papa Francisco,
indica alguns apelos (a missão e a organização da Igreja) e alguns desafios
evangélicos que emergem do atual panorama eclesial (páginas 21-43).
Em seguida, indica alguns sinais de desvio de rota da
Igreja (cf. páginas 45-55). Estes desvios produzem o que o autor chama de “depressão eclesial” (página 45). Por outro lado, em
sintonia com o Papa Francisco, insiste na necessidade de conversão eclesial,
ou seja, na retomada do caminho de Jesus ou o retorno ao Evangelho do reinado
de Deus (páginas 51-55).
Os dois primeiros capítulos apresentam o atual
contexto eclesial e assinalam os principais desafios pastorais com os quais a
Igreja se defronta hoje (p. 21-55).
O terceiro capítulo, escrito no contexto da
celebração dos cinquenta anos da Conferência de Medellín (1968) e dos cinco
anos do pontificado de Francisco (2018), destaca a importância de Medellín e
de Francisco para a Igreja e para a sociedade (páginas 57-79). Explicita a
perspectiva teológico-pastoral fundamental do Papa e indica, a partir dessa
perspectiva, alguns desafios com os quais a Igreja se depara hoje, em sua
missão evangelizadora:
* autocompreensão e configuração em vista da missão
(eclesiologia) e
* apelos e exigências que brotam da situação histórica atual
(sinais dos tempos).

O capítulo seguinte [capítulo quarto] aborda a centralidade
dos pobres na Igreja (págians 81-105). Destaca seus atuais clamores e
resistências. Evidencia que a celebração dos cinquenta anos da Conferência de
Medellín foi uma ocasião privilegiada para revisitar seus textos, explicitar
sua importância histórica e, sobretudo, para reafirmar e atualizar, crítica e
criativamente, seu legado teológico-pastoral. A novidade e o impacto de
Medellín na América Latina, e mesmo, no conjunto da Igreja, está
radicalmente vinculado ao que, sobretudo a partir de Puebla, se convencionou
chamar de “opção preferencial pelos pobres”, caracterizado na Conferência
de Aparecida (2007) como “uma das peculiaridades que marcam a fisionomia
da Igreja latino-americana e caribenha”. Assinala que a opção pelos pobres
e marginalizados e suas lutas por libertação são o ponto fundamental e
determinante de Medellín. Afirma sua atualidade e descreve como ela se
configura, hoje, a partir de seus clamores e resistências. Enfim, conclui
afirmando que Medellín aparece não como um evento passado, mas atual, e que nos
interpela e obriga a um criativo processo de atualização histórica.
O último capítulo [capítulo quinto] contempla
as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Elas marcaram decisivamente o
processo de recepção do Concílio na América Latina e, por um tempo, se
impuseram como fato eclesial e social mais importante de nossa Igreja.
Destaca o caráter institucional que elas adquiriram nas Conferências de
Medellín (1968) e Puebla (1979), aspecto decisivo, tenso e ambíguo. Elas
aparecem nos documentos finais destas Conferências não como uma experiência
isolada, mas como projeto pastoral para o conjunto da Igreja latino-americana
(páginas 107-123). Ao concluir, o autor indica os desafios e as perspectivas
atuais da Igreja na América Latina em relação às CEBs:
* repensar seu lugar (cada vez mais marginal) e
* sua atuação (cada vez mais profética) no conjunto da Igreja
(páginas 125-127).
Livro interessante sobre renovação da Igreja. A contribuição
do autor é a seguinte: sintoniza o leitor com desafios eclesiais da
atualidade, com perspectivas pastorais do Papa Francisco, com o Vaticano II e a
tradição libertadora da Igreja na América Latina. É didático, claro e
poderá ser usado por agentes de pastoral como referência para
entenderem/aprofundarem como se tornar sujeitos da renovação eclesial, assim
expressa no título: “renovar toda a Igreja no Evangelho”. Além disso, o
livro é um valioso subsídio para ajudar as paróquias e comunidades a pôr em
marcha de modo humilde, mas responsável, um processo de renovação
caminhando para uma nova fase de comunidade cristã deixando para as futuras
gerações paróquias melhores orientadas para a mensagem do Evangelho,
centradas na pessoa de Jesus e abertas aos caminhos do Reino de Deus. Daí a
necessidade de uma Ecclesia semper reformanda (Igreja em contínua
reforma)...
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