Carta ao Povo de Deus
Carta
de 152 bispos católicos do
Brasil
sobre a situação de nosso País
Mônica
Bergamo
Jornalista
e Colunista
O Brasil atravessa um
dos momentos mais difíceis de sua história,
vivendo uma “tempestade
perfeita”...
Todos, pessoas e
instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave
e desafiador.
![]() |
Bispos brasileiros reunidos em celebração no interior do Santuário Nacional de Aparecida Aparecida - SP |
Uma carta com duras críticas ao governo de Jair Bolsonaro foi
assinada por 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos do Brasil. Ela deveria
ter sido publicada na quarta (22 de julho), mas foi suspensa para ser analisada
pelo conselho permanente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). [...]
O texto, chamado de “Carta ao Povo de Deus”, afirma
que o Brasil atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história, vivendo
uma “tempestade perfeita”. Ela combinaria uma:
a) crise sem precedentes na saúde e
b) um “avassalador colapso na economia”
c) com a tensão sobre “fundamentos da República, provocada em grande medida
pelo Presidente da República [Jair Bolsonaro] e outros setores da sociedade,
resultando numa profunda crise política e de governança”. [...]
O documento afirma ainda que o “sistema do atual governo”
não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa
intransigente dos interesses de uma economia que mata, centrada no mercado e no
lucro a qualquer preço”. [...]
O texto é assinado, entre outros, pelo cardeal-arcebispo
emérito de São Paulo, dom Claudio Hummes, pelo bispo emérito de
Blumenau, dom Angélico Sândalo Bernardino, pelo bispo de São Gabriel da
Cachoeira (AM), dom Edson Taschetto Damian, pelo arcebispo de Belém
(PA), dom Alberto Taveira Corrêa, pelo bispo prelado emérito do Xingu
(PA), dom Erwin Krautler, pelo bispo auxiliar de Belo Horizonte (MG), dom
Joaquim Giovani Mol, e pelo arcebispo de Manaus (AM) e ex-secretário-geral
da CNBB dom Leonardo Ulrich Steiner. [E pelo nosso bispo diocesano de
Jales (SP), dom Reginaldo Andrietta.]
![]() |
Celebração com os bispos do Brasil, durante a 57ª Assembleia Geral Ordinária da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Santuário Nacional de Aparecida - Aparecida (SP) |
Eis
a “Carta ao Povo de Deus” na íntegra:
Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil,
em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena
com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão
evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz.
Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do
momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja,
como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas
incertezas e tanto sofrimento do povo.
Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus.
Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no
mundo” (Papa Francisco, Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de
que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A
nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos
gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações
destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino
de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Papa Francisco, Alegria do Evangelho,
180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e
meta.
É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade
atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos,
ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino
de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção
de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma
civilização do amor.
O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua
história, comparado a uma “tempestade perfeita” que, dolorosamente,
precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma
crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia
e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada
em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade,
resultando numa profunda crise política e de governança.
Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à
prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais
diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar
propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes
desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais
vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta
e violenta. Essa realidade não comporta indiferença.
É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se,
claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a
narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal,
não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram
sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum,
ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros,
mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que
despreza os direitos humanos e os da mãe terra.
![]() |
PAPA FRANCISCO |
“Não podemos pretender ser
saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra
sangram também a nós”
(Papa
Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do
Dia
Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020).
Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações
ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente:
* a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar
ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como
fruto do acaso ou do castigo divino,
* o caos socioeconômico que se avizinha, com o
desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e
* os conchavos políticos que visam à manutenção do
poder a qualquer preço.
Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado
com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio
“para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos
claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas
crises. As reformas trabalhista e previdenciária,
tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo.
É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as
que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram
vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o
controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz
social.
É insustentável uma economia
que insiste no neoliberalismo,
que privilegia o monopólio de
pequenos grupos poderosos em detrimento
da grande maioria da
população.
O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa
humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma
“economia que mata”
(Papa Francisco, Alegria do Evangelho, 53), centrada
no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a
incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações,
agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e
municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar
de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a
democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo
pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações
de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores
radicais.
O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia
também nos estarrece.
Esse desprezo é visível:
* nas demonstrações de raiva pela educação pública;
* no apelo a ideias obscurantistas;
* na escolha da educação como inimiga;
* nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos
ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura;
* no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e
de importantes pensadores do Brasil;
* na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade
de pensamento e de imprensa;
* na desqualificação das relações diplomáticas com vários
países;
* na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos
primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem,
sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde;
* na desnecessária tensão com os outros entes da República
na coordenação do enfrentamento da pandemia;
* na falta de sensibilidade para com os familiares dos
mortos pelo novo coronavírus e pelos profissionais da saúde, que
estão adoecendo nos esforços para salvar vidas.
No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos
pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País,
privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os
grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer
o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Há uma
brutal descontinuidade da destinação de recursos para as políticas públicas no
campo da alimentação, educação, moradia e geração de renda.
Fechando os olhos aos apelos de entidades nacionais e
internacionais, o Governo Federal demonstra omissão, apatia e rechaço pelos
mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam:
* as comunidades indígenas,
* quilombolas,
* ribeirinhas,
* as populações das periferias urbanas,
* dos cortiços e
* o povo que vive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil.
Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram
medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e
econômica que lhes são impostas de forma cruel. O Presidente da República,
há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à COVID-19,
aprovado no legislativo federal, sob o argumento de não haver previsão
orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material
de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores
e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de
comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao
Congresso Nacional, 13/07/2020).
Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças,
provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes.
Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre
religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos
religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário.
Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa
Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao
invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de
Deus e sua justiça?
O momento é de unidade no respeito à pluralidade! Por isso, propomos um amplo
diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia,
movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja
restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de
Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos
públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental,
com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e
saúde integrais e de qualidade para todos. Estamos comprometidos com o recente “Pacto
pela vida e pelo Brasil”, da CNBB e entidades da sociedade civil
brasileira, e em sintonia com o Papa Francisco, que convoca a humanidade para
pensar um novo “Pacto Educativo Global” e a nova “Economia de
Francisco e Clara”, bem como, unimo-nos aos movimentos eclesiais e
populares que buscam novas e urgentes alternativas para o Brasil.
Neste tempo da pandemia que nos obriga ao distanciamento
social e nos ensina um “novo normal”, estamos redescobrindo nossas casas e
famílias como nossa Igreja doméstica, um espaço do encontro com Deus e com os
irmãos e irmãs. É sobretudo nesse ambiente que deve brilhar a luz do
Evangelho que nos faz compreender que este tempo não é para a indiferença,
para egoísmos, para divisões nem para o esquecimento (cf. Papa Francisco, Mensagem
Urbi et Orbi, 12/4/20).
Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz
meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos
assolam. Com o
apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima;
rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).
O Senhor vos abençoe e vos guarde.
Ele vos mostre a sua face e se
compadeça de vós.
O Senhor volte para vós o seu olhar e
vos dê a sua paz!
(Nm 6,24-26).
Comentários
Postar um comentário