Palavra do Bispo
TRAGÉDIA
E ESPERANÇA EM TEMPOS
DE
PANDEMIA
Dom Reginaldo
Andrietta
Bispo Diocesano de Jales – SP
Se o momento é
catastrófico, onde chegaremos com
as medidas
paliativas, ora em curso?
Tornamo-nos gado que
vai para o matadouro.
Resta-nos a justiça divina.
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Dom José Reginaldo Andrietta |
Poucos meses apenas, após os primeiros casos de contaminação
da COVID-19 no Brasil, chegamos a um número alarmante de mortos. Se esse
vírus surgiu e se alastrou no mundo por negligência humana, um óbito por
esse motivo já seria demasiado, pois a vida de cada pessoa é infinitamente
preciosa. As ações da Organização Mundial da Saúde para combater esse vírus
são valiosas, mas estão sendo suficientes? Os Estados Nacionais e todos os
segmentos da sociedade estão adotando medidas condizentes e coerentes para
salvar vidas?
Evidentemente, a responsabilidade primeira por cuidar da vida
é de cada indivíduo. No entanto, quanto mais uma pessoa assume funções de
liderança nas esferas familiar, profissional, empresarial, educacional,
associativa, comunitária, cultural, comunicativa, religiosa, econômica e
política, mais pesa sobre ela a responsabilidade ética por medidas em defesa
da vida. Pesam sobre os governos das nações, especialmente as mais ricas,
sobre a Organização das Nações Unidas e sobre as grandes corporações
econômicas, responsabilidades maiores.
Algumas nações já passaram pelo pior momento da pandemia. O
Brasil, hoje, é seu epicentro. Aqui, a catástrofe anuncia-se maior. A
disseminação comunitária é altíssima e acelera-se descontroladamente. O
“genocídio” alertado pelo Papa Francisco na carta que escreveu à Associação
Pan-Americana de Juízes para os Direitos Sociais, no último dia 28 de março, é
hoje realidade. Interesses econômicos influenciam distintas instâncias de
governo, sobrepondo-se às vidas humanas que se perdem por falta de medidas
sensatas e honestas.
A desonestidade é tamanha a ponto de muitos gestores
públicos demonstrarem que medidas reais de controle comprometeriam seus interesses
eleitorais. Grande parte do povo, de algum modo, desinformado, ingênuo,
manipulado, excluído de participação e muitas vezes reprimido, se torna refém
desses interesses mesquinhos. As consequências dessa situação são macabras,
preocupando, sobremaneira, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil [CNBB],
que assim se expressa em sua análise da conjuntura realizada no passado mês de
junho:
«O atual governo central
optou por caminhos tortuosos no enfrentamento à pandemia.
Na contramão da ciência,
das recomendações da Organização Mundial da Saúde
e desdenhando de experiências
exitosas no combate à COVID-19,
como o isolamento social, criou
uma “tempestade perfeita”,
associando de maneira
enviesada as crises econômica e política à crise sanitária.
Essa associação indevida
mitigou esforços para o combate à pandemia e
produziu graves tensões
institucionais, com potencial para aumentar
os conflitos sociais e produzir uma erosão democrática.»
O colapso no atendimento hospitalar, alertado desde o
início da pandemia, se alastra, agora, pelo país. Se o momento é catastrófico,
onde chegaremos com as medidas paliativas, ora em curso? Tornamo-nos gado que vai para o matadouro.
Resta-nos a justiça divina. Essa não falha. Se, com fé, por ela combatemos,
temos certeza da vitória. Afinal, “se Deus é por nós, quem será contra nós?”
(Rm 8,31). Em tudo nos tornamos mais que vencedores, graças a Jesus Cristo
que nos amou por primeiro (cf. Rm 8,37). Seu amor nos liberta e nos impele à
ação (cf. 2Cor 5,14).
Por isso, em meio à tragédia atual, é esperançoso ver
tantos profissionais, sobretudo da saúde, arriscando suas vidas para salvar
outras, e a imensa rede de solidariedade gerada por entidades sociais, religiosas,
educativas, profissionais e de movimentos populares. É esperançoso ver, também,
a luta de muitos em defesa de setores marginalizados. É esperançoso, enfim, ver
crescerem em todos os cantos do país, manifestações em prol de uma nação na
qual as vozes democráticas valham mais do que as insanidades de um
presidente e as astúcias de seus palacianos.
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