E daí?
A
expressão espontânea de uma
natureza
pervertida
Zenon Lotufo
Junior & Francisco Lotufo Neto*
“Não estamos diante
de um doente mental que não pode ser responsabilizado por seus atos (situação
que, por si, já é catastrófica),
mas diante de alguém
simplesmente mau e destituído de
qualquer resquício de
empatia e compaixão
Em sua coluna de 03 de maio último, Vera Magalhães (“O ‘e
daí’ como política”) levanta interessantes questões sobre o papel dessa
expressão em contextos nos quais ela revela problemas sérios de caráter;
situações em que seu autor “coloca em risco a saúde pública”, “se esquiva de
responsabilidade pelos seus atos” e, talvez o mais grave “demonstra num
só ato sua absoluta ausência de empatia com os mais vulneráveis”. Embora a
perspicaz jornalista não use o termo, temos aí sinais peculiares de psicopatia,
sinais que, sugere Magalhães, são exibidos pelo presidente com o intuito de
apresentar-se como um doente mental, como quem não tem condições de responder
por seus próprios atos, ou seja, como alguém inimputável. A tese é, ao
mesmo tempo, contundente e plausível, fazendo por merecer algumas
considerações.
Se partirmos da hipótese, atualmente bastante encontradiça em
meios acadêmicos, de que o ser humano tende, por natureza, a ser empático,
compassivo (ver, p. ex., a coletânea organizada por Dacher Keltner, da
Universidade da California em Berkeley, “The Compassionate Instinct”
[tradução livre: O Instinto Compassivo], ou “The Psychology of
Compassion and Cruelty” [tradução livre: A Psicologia da Compaixão e da
Crueldade], organizado por Thomas Plante, de Stanford, do qual
participamos com um dos capítulos) a ausência dessas qualidades requer que se
busquem explicações em fatores não biológicos, quer dizer, em causas
psicológicas e socioculturais. Vejamos, ainda que à vol d’oiseau [= de
modo rápido], algumas delas e como podem produzir os “e daí” da vida.
Herdamos das culturas que mais nos influenciaram, a crença
de que o mundo é justo e que as pessoas recebem sempre o que merecem, visão que
dota os acontecimentos de certa previsibilidade, além de explicar
sofrimentos, tragédias e sucessos. A persistência dessas crenças e os problemas
delas decorrentes levaram Melvin Lerner, durante muitos anos professor
de Psicologia Social na Universidade de Waterloo, a dedicar muitos anos de sua
vida aos aspectos psicológicos da justiça, sobretudo ao que foi chamado “Hipótese
Mundo Justo” ou “Falácia Mundo Justo”. Lerner e pesquisadores que
caminharam em suas pegadas realizaram grande número de estudos abordando várias
áreas do comportamento humano sob o prisma dessa falácia. São especialmente
interessantes, dentre essas pesquisas, as desenvolvidas por John T. Jost
e Orsolya Hunyady, respectivamente das universidades de Nova York e
Adelphi, apontando para o fato de que a cultura atual é permeada por
ideologias que permitem às pessoas “justificarem e racionalizarem o modo
com o as coisas são, de tal forma que situações sociais, econômicas e políticas
atuais tendem a ser percebidas como justas e legítimas.”

Assim, o sentimento que naturalmente decorreria da presença
de miséria e sofrimento pode ser desativado pela constatação panglossiana de
que “Tout est pour le mieux dans le meilleur des mondes” [tradução
livre: Tudo é para o melhor no melhor de todos os mundos possíveis]. “E
daí? Não tenho nada a ver com isso”, seria manifestação típica dessa
racionalização. Em outro escrito, registramos que ideologias desse tipo
funcionam como “lobotomias não invasivas”, considerando o parentesco destas com
aquelas cirurgias que, para tranquilizar doentes psiquiátricos, destruíam áreas
nobres de seus cérebros.
Mas nossa espécie é criativa quando se trata de encontrar
nebulosas justificativas para comportamentos antissociais, moralmente
reprováveis seja por comissão, seja por omissão. Quem estudou mais de perto
essas contorções mentais foi um dos mais importantes psicólogos da atualidade,
o canadense Albert Bandura, que propôs o conceito de “desengajamento moral” (“moral disengajement”)
para analisar os processos aí envolvidos, identificando oito variações:
Justificação moral
Ex.: “Um homem deve lançar mão de todos os recursos disponíveis
quando se trata de evitar que um filho corra o risco de ser condenado pela
justiça”.
Comparação vantajosa
Ex.: “E daí que morra muita gente nesta pandemia? Paralisar a
economia é pior”.
Linguagem eufemística
Ex.: “Não há por que fazer tanto barulho por uma simples
gripezinha”.
Distorção das consequências
Ex.: “É válido incentivar aglomerações durante a epidemia porque
põe em evidência o direito de reunião”.
Desumanização
Ex.: “Quilombolas são tão desprezíveis que não merecem ser
tratados como seres humanos”.
Atribuição de culpa
Ex.: “Vejo com bons olhos o fechamento do STF porque estou
indignado pelo modo como me desautorizam”.
Deslocamento de
responsabilidade
Ex.: “Se um policial trabalha em um ambiente violento, ele não
tem culpa se vez por outra mata um inocente”.
Difusão de responsabilidade
Ex.: “Um militar não pode ser condenado por torturar alguém
quando ele o faz sob ordens superiores e a prática é comum em seu meio”.
Passemos às explicações propriamente psiquiátricas. “Descaso
pela segurança de si ou de outros. Irresponsabilidade reiterada” são duas
das características apontadas pelo Manual Diagnóstico e Estatísticos de
Transtornos Mentais, DSM-5, coerentes com a atitude “E daí?” e indicadoras de
Transtorno da Personalidade Antissocial, padrão anteriormente referido como psicopatia
ou sociopatia. A descrição das “Características Diagnósticas” assim inicia: “A
característica essencial do transtorno da personalidade antissocial é um padrão
difuso de indiferença e violação dos direitos dos outros” (realce nosso).
É relativamente farta a literatura científica que associa
psicopatia (o termo ainda mais usado) ao sucesso nas áreas organizacional,
política e militar, êxito explicável por certas características nada éticas,
mas valiosas em circunstâncias nas quais competição é a palavra de ordem e o esprit
du temps [tradução livre: espírito dos tempos = mentalidade da
época] incensa o sucesso a qualquer preço. Martha Stout, autora de
conhecida obra sobre sociopatia, observa: Estranhamente, alguns atos
envolvem tal deterioração emocional que eles requerem a ausência de consciência,
da mesma forma que a astrofísica requer inteligência e a arte requer talento.
Com relação aos guerreiros que podem agir sem consciência, o tenente-coronel Dave
Grossman escreve, em On Killing [tradução livre: Sobre Matar],
“Chamemo-los psicopatas, cães pastores, guerreiros ou heróis, eles estão lá,
constituem uma distinta minoria e, em tempos de perigo, uma nação precisa deles
desesperadamente (“The Sociopath Next Door” = O Sociopata ao Lado).
Nesse contexto, Bolsonaro não estaria simplesmente
representando um papel com vistas a parecer inimputável. Como ressaltam
encomiasticamente seus asseclas, um de seus grandes méritos está em ser
autêntico. Contudo – ponto para Vera Magalhães:
há psiquiatras com irretocáveis credenciais acadêmicas que
defendem a tese de que boa parte dos indivíduos rotulados
como PSICOPATAS
não podem ser considerados doentes.
Em artigo publicado ano passado, sob o título “Cruel,
Immoral Behavior Is Not Mental Illness” [tradução livre: Comportamento
Cruel e Imoral não é Doença Mental], os professores norte-americanos James
Knoll e Ronald Pies explicam:
É altamente
desconfortável aceitar a noção de que
extremo
egoísmo, ressentimentos
e tendências infames
são
simplesmente parte do amplo espectro da natureza humana.
Mas esses
traços têm estado conosco desde o alvorecer de nossa espécie.
Esse tipo de turbulência psicológica pode ser tratado por
profissionais de saúde mental, mas apenas com envolvimento e dedicação de um “paciente”.
Indivíduos coagidos, ameaçados ou desinteressados tendem a se mostrar pacientes
muito problemáticos.
Pode-se pensar, então, que não estamos diante de um doente
mental que não pode ser responsabilizado por seus atos (situação que, por
si, já é catastrófica), mas diante de alguém simplesmente mau e destituído
de qualquer resquício de empatia e compaixão. “E daí?”, então, seria
simplesmente a expressão espontânea de uma natureza pervertida.
* Sobre os AUTORES deste
artigo: Zenon Lotufo Junior,
filósofo, teólogo, analista transacional, doutor em Psicologia da Religião pela
PUC-SP e autor de "Kind God, Cruel God: How Images of God Shape Belief,
Attitude, and Outlook", e Francisco
Lotufo Neto, doutor em Psiquiatria, professor associado da
Universidade de São Paulo e da Pós-Graduação em Psicologia Clínica da USP e do
Instituto de Estudos Brasileiros da USP.
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