Poucos são os cegos!
Adeptos
fiéis a Bolsonaro são 15% da população adulta
Reginaldo
Prandi
Sociólogo e Professor Emérito da Universidade de São Paulo –
USP
Levantamento mostra o
que pensam esses eleitores sobre
a democracia e o seu
presidente
![]() |
Manifestação em apoio a Bolsonaro em Passo Fundo (RS) Domingo, 15 de março de 2020 |
Em manifestações à porta dos palácios que habita ou em meio a
pequenas aglomerações públicas mais propícias ao contágio do novo coronavírus
ou ainda em declarações a veículos de imprensa que o apoiam, é marca do
presidente Jair Bolsonaro se fazer acompanhar de um grupo barulhento de
seguidores irrestritos, que demonstra especial predileção em desafiar as
instituições democráticas.
Bolsonaro fala pouco e mal, geralmente criando clima de desafio
e ameaça. Ele repete que fala e governa em nome do povo e da Constituição. De
que povo fala Bolsonaro?
Com dados da pesquisa Datafolha de 23 e 24 de junho, é
possível descrever algumas das posições de um grupo formado por eleitores e
eleitoras que votaram em Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais,
que avaliam seu governo como ótimo ou bom e que acreditam sempre no que ele
diz, e confrontá-las com o que pensam os restantes 85% da população.
Esse grupo de adeptos fiéis, entusiastas fanáticos,
adoradores em qualquer situação, representa 15% da população adulta. É o
chamado grupo heavy do presidente, um núcleo duro de apoiadores
irrestritos, bolsonaristas radicais, que vai às ruas por seu presidente, que
Bolsonaro confunde com o povo brasileiro.
Esses 15%, ainda que
minoritários, formam uma base barulhenta,
destemida e sempre se
mostrando.
Suas opiniões contrastam muito com as dos demais 85% da
população, uma maioria que também abriga bolsonaristas de outro perfil,
gente que votou no presidente, mas que nem sempre leva a sério o que ele diz,
pensa e faz, e que não prima por avaliações necessariamente favoráveis ao
governo Bolsonaro.
Que inclui também quem votou em Bolsonaro para não votar no
oponente, inclusive
os arrependidos, e igualmente os que não votaram em nenhum dos dois, além dos
eleitores do adversário derrotado.
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Apoiadores de Bolsonaro hostilizam jornalistas diante do Palácio do Alvorada - Brasília (DF) Segunda-feira, 25 de maio de 2020 |
Quem são os bolsonaristas
ferrenhos?
O grupo adorador do presidente é formado hoje por:
a) uma maioria feminina de 60%.
b) Atrai mais os brancos do que os negros e
c) não difere muito dos restantes 85% em termos de escolaridade.
d) A renda familiar dos bolsonaristas irrestritos é,
entretanto, significativamente maior (no grupo bolsonarista radical, 40% das famílias têm renda
maior que três salários mínimos mensais, contrastando com os 26% dos demais).
Eleitores do Nordeste são menos atraídos pela devoção a
Bolsonaro que os do Sudeste. Não deixa de ser curioso o fato de que no grupo radical do presidente
36% solicitaram o auxílio emergencial devido à pandemia, taxa menor que os 42%
do grupo dos demais.
Difícil saber o que cada cabeça entende por democracia.
Nominalmente, 75% do país prefere a democracia a outro
regime, taxa que atingiu o ápice no mês corrente. Os bolsonaristas
fanáticos ficam um pouco abaixo: 70% declaram preferir a democracia, enquanto
os demais, com 76%, estão próximos ao número para o Brasil como um todo.
Opinião sobre democracia
Em %
Concorda que a democracia é sempre melhor que qualquer outra forma de governo
Concorda que houve uma ditadura no Brasil
Concorda que a ditadura deixou mais realizações negativas que positivas
Concorda com o fechamento do Congresso
Concorda com o fechamento do Supremo Tribunal Federal
Concorda que os direitos humanos devem valer para todos, inclusive para criminosos
Concorda que o governo brasileiro deva ter o direito de censurar jornais, TV e rádio
* Votaram em Bolsonaro no segundo turno, avaliam seu governo como ótimo ou bom e sempre confiam no que ele diz.
Fonte: Pesquisa Datafolha realizada em 23 e 24 de junho, com 2.016 brasileiros adultos que possuem telefone celular em todas as regiões e estados do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Opinião sobre democracia
Em %
Concorda que a democracia é sempre melhor que qualquer outra forma de governo
Concorda que houve uma ditadura no Brasil
Concorda que a ditadura deixou mais realizações negativas que positivas
Concorda com o fechamento do Congresso
Concorda com o fechamento do Supremo Tribunal Federal
Concorda que os direitos humanos devem valer para todos, inclusive para criminosos
Concorda que o governo brasileiro deva ter o direito de censurar jornais, TV e rádio
Fonte: Pesquisa Datafolha realizada em 23 e 24 de junho, com 2.016 brasileiros adultos que possuem telefone celular em todas as regiões e estados do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Bolsonaristas: amantes da
ditadura!
Mas quando a palavra democracia é contraposta à ditadura,
ditadura militar, os dois grupos têm respostas diferentes. O entrevistador
introduz a questão: "Sobre o regime militar que durou de 1964 a 1985, o
presidente Jair Bolsonaro já disse que não houve ditadura no Brasil. Pelo
que você sabe ou imagina, houve ou não uma ditadura no Brasil durante o regime
militar?".
Sim, houve uma ditadura, respondem 47% dos bolsonaristas
heavy, contra 83% dos demais.
Os bolsonaristas ferrenhos primam pelo negacionismo também
da ditadura militar, o que é coerente com seu desejo político, expresso
reiteradamente nas ruas, de uma intervenção militar supostamente consonante com
a Constituição e princípios republicanos, com Bolsonaro na presidência,
evidentemente.
Parece alentador que 37% dos adoradores de Jair Bolsonaro
concordem que a ditadura deixou mais realizações negativas que positivas, mas o
grupo dos demais os coloca lá embaixo com seus 66%.
Não se pejam esses 15% de concordar com o fechamento do
Congresso Nacional (36% se dizem favoráveis) e do Supremo Tribunal Federal (com
o apoio de 44%). É muito, considerando que as porcentagens respectivas dadas
pelo grupo dos demais brasileiros foram 14% e 16%.
Em outros pontos da pesquisa, o desprezo do grupo
bolsonarista pelos princípios e práticas democráticos vai se constituindo num
edifício autoritário descarado.
Estão abaixo do grupo majoritário no que concerne à concepção
de que direitos humanos se aplicam a todos (53% contra 68%) e concordam que o
governo brasileiro deva ter o direito de censurar jornais, TV e rádio (36%
versus 15%).
O País desejado pelos
bolsonaristas fiéis
* Sem Congresso,
* sem Supremo Tribunal Federal (STF),
* sem imprensa livre,
* sem direitos humanos para todos,
é esse o país idealizado e buscado com muito barulho,
propaganda, mentira e artifícios jurídicos, por parte dos adoradores do santo
Messias Bolsonaro.
Se o país assim vai se desenhando, o que pensa a minoria fiel
de seu herói? Deles, 80% o creditam como democrático (contra 22% dos demais).
Opinião sobre o presidente Bolsonaro
Em %
O presidente é democrático
O presidente é preparado
O presidente é competente
O presidente é sincero
O desempenho de Bolsonaro em relação à pandemia da Covid-19 tem sido ótimo ou bom
O presidente Bolsonaro mais ajuda que atrapalha no combate à pandemia
Bolsonaro sabia onde Queiroz estava
Bolsonaro está envolvido no escândalo das “rachadinhas”
* Votaram em Bolsonaro no segundo turno, avaliam seu governo como ótimo ou bom e sempre confiam no que ele diz.
Fonte: Pesquisa Datafolha realizada em 23 e 24 de junho, com 2.016 brasileiros adultos que possuem telefone celular em todas as regiões e estados do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Opinião sobre o presidente Bolsonaro
Em %
O presidente é democrático
O presidente é preparado
O presidente é competente
O presidente é sincero
O desempenho de Bolsonaro em relação à pandemia da Covid-19 tem sido ótimo ou bom
O presidente Bolsonaro mais ajuda que atrapalha no combate à pandemia
Bolsonaro sabia onde Queiroz estava
Bolsonaro está envolvido no escândalo das “rachadinhas”
O que pensam de Bolsonaro,
seus seguidores fiéis
De um homem que abandonou o país à própria sorte,
desmantelando instituições duramente construídas, e corroendo a autoestima de
seus cidadãos, 97% dos seguidores fiéis consideram-no preparado (contra
28% dos demais).
Adiante, 99% dizem que é competente, apesar de apenas
34% dos demais pensarem assim. Por fim, 99% da minoria fiel qualificam-no
como sincero, mais que o dobro (40%) dado pelo grupo majoritário.
Diante de 60 mil mortos pela pandemia, e nem chegamos a
dobrar a curva, 85% dos fanáticos concordam que o desempenho de Bolsonaro em
relação à pandemia tem sido ótimo ou bom, enquanto o grupo majoritário restringe essa resposta a 18%.
Mais que isso, é a visão de 93% dos adoradores que, nesse aspecto, o presidente
mais ajuda que atrapalha, ficando em 24% essa avaliação por parte dos demais.
Comemorando o... nada!
Com o país entregue à morte no atacado, a economia
descarrilhada, ministérios transformados em máquinas do nada, o
presidente e seus seguidores se autoenobrecem pela suposta ausência de
corrupção no governo e entornos.
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Fabrício Queiroz é conduzido por policiais de São Paulo, durante sua prisão em Atibaia (SP) Quinta-feira, 18 de junho de 2020 |
A polícia à porta
Mas há vultos a serem escondidos, envolvendo ministérios, tribunais
superiores, polícia, redes sociais. Dois escândalos são emblemáticos:
* o sumiço de Fabrício Queiroz e
* o processo das “rachadinhas”,
que se transformaram em explosivos nacionais.
Pois bem, 22% dos seguidores cegos de Bolsonaro admitem
que o presidente sabia onde Queiroz estava, porcentagem que se apaga perto
dos 71% daqueles que não fazem parte do grupo dos adoradores. E apenas
2% dos devotos acham que Bolsonaro está envolvido no escândalo das “rachadinhas”,
contrariando os outros, que formam 44%.
Essa minoria que adora Bolsonaro é o povo
brasileiro que Bolsonaro vê.
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