É tempo de diálogo
A
tolerância para o debate aberto
Editorial
Jornal «O Estado de S. Paulo»
Espécie de ajuste de
contas com o passado não pode levar a uma
restrição do debate,
fazendo com que, a cada dia,
mais assuntos, temas
ou opiniões sejam proibidos
![]() |
J.K. Rowling, Gloria Steinem, Salman Rushdie e Margaret Atwood estão entre os 150 que assinaram "Uma Carta sobre Justiça e Debate Aberto" |
No dia 7 de julho, a revista americana Harper's
publicou em seu site uma carta assinada por mais de 150 professores,
escritores e artistas de renome mundial, na qual apoiam as manifestações
por justiça racial e social que se iniciaram nos Estados Unidos e se difundiram
pelo mundo inteiro, após a morte de George Floyd em Minneapolis no final de
maio. Ao mesmo tempo, os signatários da Carta sobre
justiça e debate aberto – entre eles, Francis Fukuyama, Noam
Chomsky, Gloria Steinem, J. K. Rowling e Salman Rushdie – alertam para o
“clima de intolerância que se instalou por todos os lados”. O texto oferece
uma interessante reflexão sobre a chamada “cultura do cancelamento”.
A carta relata perseguições que vêm ocorrendo em nome da
justiça social:
* “Editores são demitidos por publicar materiais controvertidos,
* livros são removidos por suposta inautenticidade,
* jornalistas são impedidos de escrever sobre certos assuntos,
* professores são investigados por citarem livros de
literatura durante a aula,
* um pesquisador é demitido por circular um estudo acadêmico
revisado por pares”.
E constata que, “quaisquer que sejam os argumentos relativos
a cada caso em particular, o resultado tem sido estreitar constantemente os
limites do que pode ser dito sem a ameaça de represália”.
Trata-se, portanto, de um clima oposto ao que se deve esperar
de um ambiente no qual se respeitam as liberdades. Por exemplo, a liberdade de
expressão significa precisamente que cada um deve dispor de tranquilidade para
expressar o que bem entender, sem medo de represália ou punição. Não pode haver
em um Estado Democrático de Direito mais limites à liberdade que aqueles
determinados pela lei.
![]() |
Acesse o conteúdo original desta carta, clicando aqui |
No entanto, os autores da carta afirmam que “a livre troca
de informações e ideias, força vital de uma sociedade liberal, está se tornando
cada vez mais restrita”. A atitude de censurar quem pensa de forma
diferente já não está restrita a alguns grupos extremistas. Ela “está se
expandindo em nossa cultura”, denunciam.
O clamor mundial por mais justiça racial e social deve levar
a mudanças efetivas, como a reforma da polícia, a proibição de práticas
discriminatórias ou a adoção de políticas públicas de inclusão. No entanto, essa
espécie de ajuste de contas com o passado não pode levar a uma restrição do
debate, fazendo com que, a cada dia, mais assuntos, temas ou opiniões sejam
proibidos de serem ditos. “A restrição do debate, seja por um governo
repressivo ou por uma sociedade intolerante, prejudica invariavelmente aqueles
que não têm poder e torna todos menos capazes da participação democrática”, diz
a carta. Diminuir a liberdade sempre tem consequências nefastas para todos,
especialmente para os mais vulneráveis e os grupos minoritários.
É um erro, portanto, pensar que se pode promover a justiça
reduzindo as liberdades. “Nós recusamos qualquer falsa disjuntiva entre justiça
e liberdade, já que uma não pode existir sem a outra”, dizem os signatários da
carta. Existem sim ideias perniciosas, que causam danos, reforçam estereótipos
ou reproduzem desigualdades.
Mas “o caminho para derrotar as más ideias é expor, argumentar e
persuadir,
e não tentar silenciá-las ou querer excluí-las”.
Um ponto especialmente importante é abordado no final do
texto publicado na Harper’s. “Como escritores, precisamos de uma cultura
que nos deixe espaço para a experimentação, o risco e até erros. Devemos
preservar a possibilidade de discordar de boa-fé sem terríveis consequências
profissionais”. Para existir liberdade, é preciso que seja permitido errar.
Certamente, a liberdade inclui a correspondente responsabilidade. Eventuais danos
e prejuízos causados devem ser reparados, por meio de um processo judicial
isento, com respeito ao contraditório e ao direito de defesa. Nem por isso se
deve deixar que alguns poucos, por gritarem mais alto ou serem mais desabridos
no uso da violência, levem ao extermínio o que eles tacham de erro. Nesse modo
de agir, não há liberdade, tampouco justiça. Há mera barbárie.
Comentários
Postar um comentário