Que mundo é esse ? ? ?

 Bolsoverso em desencanto

 Silvio Almeida

Professor da Fundação Getulio Vargas e do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama 

Entenda que tipo de mundo é o nosso que permite que homens como Donald Trump e Jair Bolsonaro sejam alçados ao poder

Apoiadores de Trump invadem prédio  do Congresso dos Estados Unidos - Quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Ainda que figuras como Trump e Bolsonaro tenham responsabilidade individual em todas as tragédias que os cercam, é preciso entender que tipo de mundo permite que homens como eles sejam alçados ao poder. Considero que uma análise da conjuntura política requer a observação do cenário, não somente dos atores. 

Nesta quarta (6 de janeiro) assistimos à tentativa de invasão do Congresso dos Estados Unidos por apoiadores do presidente Donald Trump. É um erro achar que foi a voz de Trump o único fator a influenciar as ações dos invasores. As pessoas que ali estavam são constituídas e guiadas pelos espectros de escravocratas, linchadores e racistas que nunca foram banidos da vida americana. 

Essa presença fantasmagórica é institucionalmente reafirmada nos monumentos, nas leis, na cultura, na economia e na política interna e externa dos Estados Unidos. Parece que o que se chama de “democracia americana” existe, não apesar, mas justamente porque foi erigida sobre um pântano de fascismo, racismo e desprezo pela vida. 

Se a institucionalidade serve como uma tampa de bueiro, a decomposição provocada pelo capitalismo em crise provoca fissuras sociopolíticas que trazem os detritos à superfície. Com efeito, a cena de um homem segurando a bandeira dos confederados dentro do Capitólio é marca desse refluxo dos esgotos da história americana.

Presenciamos um grupo de pessoas brancas afogadas em ressentimento e desesperança, inconformadas com a perda das vantagens raciais que tinham, primeiro com a escravidão e, mais tarde, com a segregação racial.

Como escreveu William Faulkner em “O Som e a Fúria”, no contexto do fim da escravidão no Sul dos Estados Unidos, “não há tempo no mundo que não seja desespero, nem mesmo o tempo é tempo antes de ter sido”. 

É inócuo também dizer que se tratam de “fracassados”. Isso, na verdade, só ajuda a reforçar a ideia de que os indivíduos são os únicos responsáveis pelo que ocorre em suas vidas, até pelas doenças que contraem. Na verdade, muitas daquelas pessoas que invadiram o Capitólio se consideram injustiçadas, autênticos guerreiros na luta pela correção de um mundo que foi corrompido pelos esquerdistas e pelas minorias. 

Jair Bolsonaro segue, à risca, os passos de Trump no Brasil - perigo à vista!

Olhando para o Brasil 

Considerando esse estado de coisas é que temos que olhar para o Brasil. Não devemos esperar que no país dos golpes, das ditaduras e da escravidão mal resolvida as pessoas se comovam com os 200 mil mortos pela Covid-19, se indignem com a incompetência dos Ministérios da Saúde e da Economia, contem com a vergonha das Forças Armadas pelos atos de seu comandante-em-chefe ou mesmo se espantem com a insensibilidade do presidente da República. 

O mundo da vida precária, do racismo, da pandemia e da violência é o ambiente natural de líderes como os do Brasil e dos Estados Unidos. Este é o “Bolsoverso”. Assim, não é o presidente que está no lugar errado; nós é que estamos presos em seu mundo. 

A oposição deve ter no horizonte que as eleições de 2022 vão ocorrer dentro do “Bolsoverso”.

Quem acha que em um ano haverá um surto de sanidade geral que levará a oposição ao poder é porque provavelmente não entendeu que o atual governo é contradição, caos e desorientação.

Se não houver vacina, ele culpará alguém; se houver, dirá que foi graças a ele. Não faz sentido? 

“E daí”, será a resposta. Portanto, para vencer — e levar — as eleições de 2022 será preciso desmantelar o “Bolsoverso”, o que implica pensar a política para além do calendário eleitoral e fora dos limites estreitos da lógica institucional. 

Fonte: Folha de S. Paulo – Poder / Colunas e Blogs – Sexta-feira, 8 de janeiro de 2021 – Pág. A7 – Internet: clique aqui (acesso em: 09/01/2021).

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