Vamos combinar uma coisa???
A sociedade dos militantes
Fernando Schüler
Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com Pós-Doutorado pela Columbia University, em Nova York. É Professor em tempo integral no INSPER, em São Paulo, e Curador do Projeto Fronteiras do Pensamento.
Esqueça
um pouco a polarização, o radicalismo e descubra as coisas interessantes que
temos em comum
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FERNANDO SCHÜLER |
A Redação do Times, diz ela, como a de muitos jornais, passou gradativamente a responder a uma agenda política. E o fez a partir dessa cisão típica dos tempos atuais, entre a gente bacana e esclarecida, “cujo trabalho é informar os outros”, e os caipirões, basicamente definidos por qualquer coisa que diz respeito a Donald Trump.
Daí aparece uma jornalista que recusa a dicotomia fácil [a mania de ver tudo como preto ou branco, direita ou esquerda, certo ou errado etc.]. Que acha risível pautar o jornalismo, todo santo dia, pelo milésimo texto enfileirando palavrões contra o “diabo laranja”. Seu problema, por óbvio, nunca foi Trump ou qualquer político. O problema era a conversão do jornalismo em um campo retórico fechado e avesso às “ideias inconvenientes”.
Foi o caso do editor James Bennet, banido por publicar artigo controverso do senador Tom Cotton. Ele provavelmente discordasse do senador, mas acreditava “dever aos leitores a exposição de contra-argumentos”. Ingenuidade. Contra-argumentos são aceitos, na lógica do ativismo, nos limites de quem tem a hegemonia e o poder de impor danos aos que saem da linha.
O que Bari Weiss diz vale para qualquer posição política e vai além do jornalismo. Demétrio Magnoli tratou disso em coluna recente. Há um modus operandi da política atual, dado pela lógica tribalista das redes. O jornalismo, ou parte relevante dele, apenas foi junto com a maré.
Intuo que se trata de caminho sem volta. O Twitter se tornou bem mais do que o “editor último” do The New York Times, como diz Weiss em sua carta-renúncia. Se tornou, junto com as redes, o editor do debate público, e o faz de modo anárquico, numa constante guerra civil em que cada um imagina ganhar, a cada momento, e todos perdem, ao longo do tempo.
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BARI WEISS - escritora e jornalista norte-americana |
Weiss diz que nos tornamos um grande campus, ou um grande departamento de estudos de gênero. Prefiro outra formulação: tornamo-nos uma sociedade de militantes. Nas redes, nas universidades, no jornalismo e, mais recentemente, na vida das empresas e hábitos de consumo.
É evidente que muita gente se mantém serena em meio à tempestade, para o horror das hordas de qualquer lado. Mas o espírito do tempo é outro. É o “espírito de partido”, como disse Madame de Stäel sobre o clima intelectual francês à época da revolução e de quem me lembrei por estes dias.
O ponto é que isso não irá mudar. Nos anos 1930, Ortega y Gasset vaticinou que o homem-massa [leia explicação deste conceito, abaixo] havia ingressado de vez na cultura. Cem anos depois, graças à internet, quem domina o palco é o cidadão-pregador, o cidadão-dedo-em-riste. Seu destino ainda é incerto. Ele pode conduzir mudanças positivas, mas pode também agir como uma nuvem de “Black Mirror”.
É positivo que as pessoas façam promessas de fim de ano e apostem que a pandemia vai mudar as coisas e que voltaremos a agir com mais empatia e sentido de comunidade.
Quem sabe a esperança de Gabeira,
a quem sempre leio, apostando que a política, depois de ter nos afastado, possa
novamente nos aproximar. Ele lembra que já fomos mais gentis uns com os
outros, mesmo divergindo, como na época das Diretas.
Minha
hipótese é que a política continuará a nos separar. A lógica da tribo, da
reação imediata e baixa empatia veio pra ficar. Ninguém tem a chave para
desligar a geringonça na qual estamos todos enredados.
Nossa melhor chance é
fugir da querela política. Podemos
experimentar isso nos encontros de hoje à noite [virada de ano]. Fugir da
postura do sujeito que um dia me disse que iria “perdoar” seu irmão por apoiar
o político que ele detestava. Presunção tola.
Vale
muito mais um abraço e a descoberta de coisas interessantes que todos temos em
comum.
E elas não são poucas, podem acreditar.
Nota:
O filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) utilizou o conceito do “homem-massa” para descrever o sujeito em uma sociedade de massa. Para o filósofo, o homem-massa é a expressão do conformismo com as determinações exteriores. O indivíduo e sua individualidade saem de cena e dão lugar ao sujeito que busca enquadrar-se nas determinações genéricas do mundo social massificado. O “homem-massa”, assim afirma Ortega, sente-se confortável quando se vê igual a todo mundo, em conformidade com a massa (Fonte: Brasil Escola].
Fonte: Folha de S. Paulo – Poder / Colunas e Blogs – Quinta-feira, 31 de dezembro de 2020 – Pág. A5 – Internet: clique aqui (acesso em: 02/01/2021).
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