É tudo tão claro!
A CPI do óbvio
Editorial
Jornal «O Estado de S. Paulo»
Os
fatos estão claros para todos, restando à comissão o trabalho de organizá-los,
para que o País entenda quais foram os erros e quem deve responder por isso
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MESA DIRETOR DA CPI DA COVID-19: da esquerda para a direita, temos Randolfe Rodrigues (REDE-AP), Omar Aziz (PSD-AM) e Renam Calheiros (MDB-AL) |
... os fatos essenciais são abundantes e estão claros para todos,
restando à comissão o duro trabalho de organizá-los, para que o País
entenda quais foram os terríveis erros que resultaram em tantas
mortes evitáveis e quem deve responder por isso.
Do ponto de vista estritamente institucional, a CPI terá cumprido seu papel se dela resultarem medidas legislativas destinadas a impedir que esses erros se repitam e, também, se encaminhar às autoridades competentes os elementos necessários para a responsabilização civil e criminal dos infratores.
Mas a CPI é também um foro político, em que a oposição exerce seu direito constitucional de fiscalizar o governo. Por isso, é inevitável que, ao longo dos trabalhos da comissão, os depoimentos e provas trazidos ao escrutínio público sirvam para constranger o presidente Jair Bolsonaro – cuja patente irresponsabilidade inspirou, quando não determinou, o comportamento omisso e inconsequente das autoridades sanitárias federais no combate à pandemia.
Ciente dos estragos que a CPI causará a seu projeto de
reeleição, Bolsonaro tratou de mobilizar boa parte de seus ministros para
organizar sua defesa.
Se o presidente tivesse usado no combate à pandemia a mesma energia
que está gastando para se safar da CPI, o País não teria quase 400 mil mortos e
um sistema de saúde em frangalhos.
Mas a incompetência, produto da mediocridade que é a segunda pele do governo Bolsonaro, mais uma vez se impôs. A título de se antecipar aos questionamentos da CPI, os ministros produziram uma lista de acusações mais completa e detalhada do que a formulada por integrantes da comissão.
Além disso, no afã de tentar impedir que o senador Renan Calheiros, desafeto de Bolsonaro, fosse nomeado relator da CPI, bolsonaristas recorreram à Justiça e obtiveram uma liminar absurda que interferia em decisão exclusiva do Congresso. Enquanto a liminar vigorou, os governistas a usaram para tumultuar a CPI.
Mas a desarticulação da base governista, já célebre, mais uma vez cobrou a conta. O senador independente Omar Aziz (PSD-AM), apoiado pela oposição, elegeu-se presidente da CPI inclusive com o voto de um governista, o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI). Ato contínuo, o senador Aziz escolheu Renan Calheiros como relator.
Profundo conhecedor dos desvãos do Congresso e expert em
chicanas para esquivar-se da Justiça, Renan é o nome ideal para a relatoria.
Sua notória competência servirá para inibir manobras governistas destinadas
a tirar o foco da CPI, isto é,...
... a administração delinquente do Ministério da Saúde sob as
ordens de Bolsonaro.
O fato é que a perspectiva de uma CPI dominada pela oposição e com relatoria de Renan Calheiros preocupa muito o governo. E isso fica claro diante do nervosismo de Bolsonaro, que voltou a fazer ameaças citando as Forças Armadas e a ofender governadores. Essas declarações reafirmam o autoritarismo de Bolsonaro, mas, sobretudo, expõem a tática manjada de desviar a atenção do que realmente importa: a desídia e a inépcia do governo diante do vírus.
“Por que tanto medo?”, perguntou o senador Renan
Calheiros nas redes sociais ante a inquietação bolsonarista. A pergunta, claro,
é retórica. Quando os muitos ministros da Saúde de Bolsonaro forem questionados
na CPI, o País afinal saberá como foram tomadas as decisões cruciais que
resultaram:
* no atraso da vacinação,
* na falta de campanha nacional para
a adoção de medidas preventivas,
* na sabotagem do distanciamento
social e
* no desabastecimento de equipamentos e drogas para o atendimento de doentes.
A rigor, nem seria necessária uma CPI. Quando Bolsonaro escarnece da inteligência alheia, dizendo que o intendente Eduardo Pazuello “fez o dever de casa” ao não comprar vacinas em 2020, ou quando o próprio ex-ministro da Saúde faz chacota dos brasileiros ao aparecer sem máscara e todo pimpão, num shopping de Manaus, a responsabilidade pela tragédia nacional fica óbvia.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas & Informações – Quarta-feira, 28 de abril de 2021 – Pág. A3 – Internet: clique aqui (acesso em: 30/04/2021).
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