Evitando a pandemia de 2022
CPI da Covid tem de investigar desde já o risco de faltar vacina no ano que vem
Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação do jornal Folha de S. Paulo. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (Estados Unidos)
A fim de evitar
desastre novo, é preciso desde já planejar o ritmo de fabricação e compra de
imunizantes
A pergunta pode parecer um despropósito. Falta vacina para o
mês que vem. Até sexta-feira (23 de abril), apenas 18% da população adulta
havia tomado a primeira dose (as duas doses, apenas 7,6%). Parte desse
retardo vacinal foi gerada em meados de 2020 pelo triângulo horroroso que
juntou:
* negligência,
* perversão e
* ignorância lunática na alcova do governo Bolsonaro.
Vamos parir outro monstro em 2022?
O problema vai além de produzir ou importar vacinas
suficientes, em caso de necessidade de revacinação geral, como na gripe. Em
tese, nesse aspecto 2022 pode ser menos desesperador. Prevê-se que a nova
fábrica do Butantan produza 100 milhões de doses de Coronavac (a ButanVac é
ainda mera esperança); talvez a Fiocruz fabrique 300 milhões. Mais um
tanto de doses importadas e vacina-se a população inteira até o fim do ano.
Mas pode ser que seja preciso revacinar todo o mundo bem antes.
Os cientistas ainda não sabem dizê-lo. Além do mais, com
sorte a vacinação deste 2021 talvez apenas termine em dezembro, o que é outro
risco.
Qual o problema?
Ainda não se sabe por quanto tempo uma pessoa infectada pelo coronavírus fica imune (nem o que quer dizer exatamente “imune”). Talvez fique protegida de infecção mortal por até oito meses, estimou um estudo pequeno e cheio de dedos, mas feito por pesquisadores de centros reputados (“Immunological memory to Sars-CoV-2 assessed for up to 8 months after infection”, publicado em janeiro na “Science” – disponível aqui).
Também não se sabe por quanto tempo uma pessoa vacinada fica protegida de doença grave. As vacinas da Pfizer e da Moderna protegem por pelo menos seis meses, afirmaram os fabricantes, agora em abril. Deve ser mais, não se sabe, até porque as vacinas são recentíssimas.
De resto, proteção imunológica não é um interruptor, liga e desliga: pode ser eterna ou durar por muito tempo, com força declinante.
E daí?
Sem informação mais segura sobre quanto e como dura a
imunidade, é difícil fazer prognósticos sobre a epidemia. Em um cenário de horror, exagerado
para efeito didático,...
... pode ser que, quando terminar a vacinação de 2021, os primeiros
infectados e vacinados já tenham perdido a proteção.
O risco aumenta porque o vírus estará circulando pelo mundo ainda por muito tempo (apenas 0,3% das vacinas foram para países pobres, segundo a OMS). Há ainda o problema das variantes. Pfizer e Moderna estudam a necessidade de uma terceira dose, incrementada para conter os mutantes.
É fácil
perceber que, quanto menos durar a imunidade e quanto mais tempo o
vírus estiver solto no mundo, mais rápido será necessário vacinar ou
revacinar.
Na dúvida, é melhor prevenir do que remediar, até porque não há remédio que cure Covid.
A fim de evitar desastre novo, é preciso desde já planejar o
ritmo de fabricação e compra de vacinas, analisar os imunizantes que temos, aprofundar a pesquisa da imunidade
dos infectados, testar mais gente e vigiar as variantes. Para tanto, precisamos
de um plano nacional e muita pesquisa. Não temos, claro (Bolsonaro está
matando também a ciência brasileira).
A CPI tem de fazer um escândalo a respeito, tanto que a gente possa
implementar um plano assim, a despeito dos monstros no poder.
Fonte: Folha de S. Paulo – Mercado / Colunas e Blogs – Domingo, 25 de abril de 2021 – Pág. A21 – Internet: clique aqui (acesso em: 25/04/2021).
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