Desinformação mata!

 Um país ilhado pela superstição

 João Gabriel de Lima

Escritor, Professor da FAAP e doutorando em Ciência Política na Universidade de Lisboa 

O Brasil precisa sair do transe e recuperar o debate racional a partir dos fatos, não das fake news

 

Sempre teremos Paris.” A frase famosa é de Rick Blaine, personagem de Humphrey Bogart no filme Casablanca – e era válida, até pouco tempo atrás, para o Brasil da covid-19. Com os principais aeroportos do mundo fechados aos brasileiros, a França era um dos poucos países que aceitavam nossos compatriotas – devidamente testados e temporariamente confinados. Na terça-feira dia 13, no entanto, o governo francês decidiu que não mais receberia aviões provenientes do Brasil. Não teremos mais Paris. 

A sessão do Parlamento francês que decidiu pelo fechamento de aeroportos foi um dos dois recados que o mundo deu, ao longo da semana, à ilha chamada Brasil. Ele veio em forma de sarcasmo. O primeiro-ministro Jean Castex fez piada com a obsessão do governo brasileiro por tratamentos sem comprovação científica, em especial à base de cloroquina. Os deputados franceses caíram na gargalhada. O vídeo viralizou nas redes sociais. 

Assista ao vídeo com a fala de Jean Castex, clicando sobre a imagem abaixo: 

O segundo recado veio da comunidade acadêmica. A revista americana Science, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo, fez um balanço do fracasso brasileiro no combate ao coronavírus.

O GOVERNO FEDERAL foi considerado o principal culpado, por sua “falha em implementar respostas rápidas, coordenadas e equilibradas num contexto de desigualdades locais agudas”.

Novamente surgiu, como fator agravante, o debate estéril sobre medicamentos sem eficácia comprovada: A resposta federal foi uma perigosa combinação de inação e erros, incluindo a promoção do tratamento com cloroquina sem evidência alguma”. 

Leia, na íntegra, o artigo publicado na revista SCIENCE, que está em inglês, clicando: aqui

A risada dos deputados franceses e o juízo da revista americana apontam para um mesmo fenômeno, o da desinformação – que ceifa vidas na pandemia e mina os regimes de liberdade. “A democracia depende da interlocução racional dos vários atores, a partir de fatos que todos aceitam”, diz o jornalista Eugênio Bucci, colunista do Estadão e personagem do minipodcast da semana. Vale lembrar a frase popularizada pelo senador americano Daniel Patrick Moynihan:

“Qualquer um tem direito às próprias opiniões, mas não aos próprios fatos”.

 Entre vários livros, Eugênio é autor de Existe democracia sem verdade factual?

Segundo ele, as instituições se veem ameaçadas sempre que as instâncias comprometidas com a busca dos FATOS – as universidades, os institutos de pesquisa, o jornalismo profissional – são desacreditadas ou atacadas pelos governos.


Plataformas digitais que estimulam a emoção em detrimento da razão são ideais para tais ataques.

Em vez do debate público, cria-se, segundo Eugênio, um clima de “superstição pública”.

Como sugere a revista Science, o fracasso brasileiro no combate à Covid-19 se deve, em grande parte, à proliferação de “superstições públicas” – como o tal tratamento à base de cloroquina. O Brasil precisa sair do transe e recuperar, o quanto antes, o debate racional a partir dos fatos. Para Eugênio, só a boa política, aquela que se tece sobre o diálogo maduro, pode encaminhar a resolução de nossos problemas. Hoje, eles são enormes. Duas tragédias – humanitária e econômica – que resultaram da má gestão da pandemia. 

O mundo já gritou, em inglês e francês, que tem medo do criadouro de variantes em que nos transformamos. Se não corrigirmos logo o rumo, seremos vistos, cada vez mais, como uma ilha indesejável, lamentada por seus mortos e ridicularizada por suas superstições. 

Fonte: O Estado de S. Paulo – Política / Colunista – Sábado, 17 de abril de 2021 – Pág. A8 – Internet: clique aqui (acesso em: 17/04/2021).

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