Manipulando a morte
As máscaras do luto
Maria Homem
Psicanalista, é autora de “Lupa da alma” e “Coisa de menina?” (com Contardo Calligaris)
O
que aconteceu com a nossa capacidade de sentir?
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MARIA HOMEM - psicanalista |
Mas hoje, além do copo, do bolso e da ira, eu gostaria de
ajuntar um quarto elemento à série.
Um homem se revela também em sua relação com a morte.
Como você se coloca diante do fato de que é mortal? E, igualmente difícil, como
você se coloca diante da morte do outro?
Alguns diriam que a própria filosofia contemporânea já começa com a consciência de sermos um “ser-para-a-morte”.
Inventamos várias estratégias para dar conta da morte. Nós, como coletivo, e cada um de nós, a cada dia. A mais antiga delas nasce com o início da civilização e já tem uns bons 70 mil anos: fazemos rituais e enterramos nossos mortos com objetos e em circunstâncias que os ajudariam a seguir em sua jornada numa outra vida. Agora está no céu. Agora é uma estrela. Agora está com Deus. Agora está com os deuses e as estrelas no céu. Mudou de plano, de dimensão, de estatura, de envergadura, de círculo da espiral, de vibração astral. Vive a outra vida, quiçá eterna. No fundo, a morte é tão difícil e enigmática que acabamos por roubar no jogo: desdizemos sua existência e reafirmamos a continuidade da vida.
Uma outra tática, mais moderna, acompanha nossos cálculos estratégicos de perda, ganho e lucro. Aceito a morte, computando-a como perda, e imediatamente foco num ganho possível. Num ganho material ou simbólico. Perdi tal coisa, tal pessoa, mas ganharei um cargo, um título, uma herança. Ou o reconhecimento da comunidade. Temos até expressões para dar conta desses movimentos: vampirizar o morto, urubus em cima da carniça. Algo disso está em “A morte de Ivan Ilitch”, a obra-prima de Tolstói. O que você pode ganhar com a morte? Não parece ser uma ideia estranha atualmente (ou sempre). A vida ou a economia? Você prefere morrer de vírus ou de fome?
Há ainda uma outra máscara da morte, e quem sabe mais
moderna ainda, século 21.
Estou sofrendo,
alguém morreu, perdi algo... Então, é o momento: vou pegar carona, criar
minha narrativa e, quem sabe, sair do anonimato. Vou postar uma
imagem minha com a pessoa (se for famosa, melhor), vou mudar minha foto no
WhatsApp, no Instagram, no Facebook, e ainda marcar: #de luto.
Vocês sabem que aumentou muito o comércio de figurinhas e ilustrações de luto na pandemia? Conhecemos o roteiro: redes sociais servem para fomentar uma cultura imagética cada vez mais narcísica que tenta iludir nosso assustado Eu, cada vez mais vulnerável.
Para além dos sofrimentos e impedimentos da pandemia, não
sei se estamos de fato conseguindo realizar um trabalho de luto. Uma real
elaboração diante da perda.
Só usamos máscaras, no grande teatro. O que aconteceu com a nossa
capacidade de sentir?
A anestesia é defesa de base, mecanismo neuropsíquico de sobrevivência. Hélio Schwartsman lembrou recentemente da frase antológica: “uma única morte me choca, um milhão de mortes é uma estatística”.
E assim, justamente aqui, surge a mais curiosa de nossas estratégias. Parece que agora acertamos a mão. Como? Operando a morte. Como se opera na Bolsa. Somos nós próprios os operadores da morte.
Não sou fraco, não a temo mais, pois sou eu que a realizo. Se
são vários cadáveres e se esse número me ultrapassa, tanto melhor. Fato da
vida. É tão maior que eu... Enquanto pobre indivíduo impotente, posso lavar as
mãos e me desincumbir de qualquer responsabilidade.
Melhor até que haja esses 999.999 a mais para que eles possam fazer
a névoa que eu preciso para deixar de ver a face humana de uma vida concreta.
A história, a vida, o calor e a perda incomensurável daquele corpo que é o do meu filho, meu amante, meu pai, meu vizinho. Nada como poder me refugiar no sofrimento difuso da morte em massa para me aliviar da angústia trágica da perda do Um.
Obrigada, presidente. Obrigada, cúmplices.
Fonte: Folha de S. Paulo – TENDÊNCIAS / DEBATES – Domingo, 25 de abril de 2021 – Pág. A3 – Internet: clique aqui (acesso em: 25/04/2021).
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