Sim, isso é terrorismo

 A ascensão do terrorismo bolsonarista

 Joel Pinheiro da Fonseca

Economista e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) 

Temos o coquetel perfeito para novos surtos com consequências letais

O PM WESLEY SOARES GÓES teve um provável surto, atirou, ameaçou policiais e acabou abatido em frente ao Farol da Barra, em Salvador (BA), no dia 28 de março deste ano

Em 17 de março, um bombeiro ateou fogo à sede de um jornal no interior de São Paulo. O motivo? O jornal defendia medidas de isolamento social. No fim de março, em Salvador, um Policial Militar teve um surto psicótico e passou a ameaçar cidadãos e colegas de trabalho. Imediatamente depois de sua morte, foi elevado à condição de herói nos meios bolsonaristas, inclusive pela deputada Bia Kicis. No domingo (11 de abril), no aeroporto de Guarulhos, outro Policial Militar em surto psicótico fez uma comissária de bordo refém. Casos como esses estão se tornando mais comuns. 

E não são só militares. Também em março, um empresário do interior paulista fez um vídeo, armado, com ameaças ao ex-presidente Lula. O governador de São Paulo, João Doria, decidiu se mudar de sua casa para o Palácio dos Bandeirantes depois das ameaças de manifestantes bolsonaristas. 

A pandemia e o isolamento deixam todos nós sob estresse constante. Some-se a isso discursos extremistas e teorias da conspiração, e temos o coquetel perfeito para novos surtos com consequências letais. 

JOSÉ SABATINI, empresário da cidade de Artur Nogueira, interior de São Paulo

Bolsonaro e seus cabos eleitorais não precisam incitar violência diretamente contra alguém. Se o fizessem, sofreriam um processo criminal. É o que ocorre quando um deles, como o deputado Daniel Silveira ou a militante Sara Winter, se exalta e perde a linha. A receita é mais difusa, mas o resultado é similar e conta com vistas grossas das autoridades. 

Como criar um extremista violento 

1) Doutrine a cabeça de seguidores com teorias da conspiração, paranoia e maniqueísmo político.

2) Eleja alguns adversários como alvos preferenciais do ódio.

3) Conclame a uma atitude genérica de resistência, revolta, a alguma “ação” não especificada para levar à vitória; deixe tudo no ar.

Boa parte do público alvo entenderá a mensagem. Uma minoria de desequilibrados irá colocá-la em prática. É só aguardar. Quando a tragédia previsível acontecer, faça cara de paisagem, lamente o ocorrido e siga adiante, na esperança silenciosa de que os fanáticos se encarregarão de intimidar qualquer crítico. 

Em privado, Bolsonaro revela suas reais intenções sem medo. Na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, depois tornada pública pelo STF, disse com todas as letras que queria o povo armado para resistir às ordens de governadores. Seu sonho se aproxima da realidade com o decreto de armas que entraria em vigor nesta terça (13 de abril) e teve trechos suspensos pela ministra Rosa Weber. 

No que depender de Bolsonaro, a produção e venda de armas e munições no país fica mais facilitada e menos rastreada.

O laudo de capacidade técnica para se armar será emitido, não pelas autoridades, mas por clubes de tiro. O limite de armas e munições que cada um pode ter deve ser generosamente aumentado. Para atiradores, chega a 60 armas. E poderão ainda andar com elas carregadas por aí. Milicianos agradecem. 

Contra o fanatismo que tomou conta de boa parcela da população brasileira favorável a Jair Bolsonaro não há argumentos! Pois o fanatismo apela para a emoção e não à razão! Apoiar o líder tornou-se uma religião, algo que se faz sem pensar!

Em post desta segunda (12 de abril), diz Bolsonaro: “Hoje você está tendo uma amostra do que é o comunismo e quem são os protótipos de ditadores”. Sim, no discurso bolsonarista, as medidas restritivas têm como objetivo implantar uma ditadura comunista. 

Ao fim do post, conclui o presidente: “Pergunte o que cada um de nós poderá fazer pelo Brasil e sua liberdade e ... prepare-se”. O recado está dado, e os meios para se “preparar” também.

População armada e alimentada com propaganda sediciosa em seus celulares. Policiais chamados ao motim.

Quantos desses jovens PMs, por sinal, serão alunos de Olavo de Carvalho, que oferece seu curso —nada mais do que fanatização sectária— gratuitamente a policiais desde 2019? Como se não bastasse a Covid, agora temos que lidar também, e cada vez mais, com o terrorismo bolsonarista. 

Fonte: Folha de S. Paulo – poder – Colunas & Blogs – Terça-feira, 13 de abril de 2021 – Pág. A7 – Internet: clique aqui (acesso em: 13/04/2021).

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