Como lidar com os negacionistas
1º) Discurso coerente e bom senso podem convencer a maioria
Daniel Martins de Barros
Psiquiatria
Negacionismo
estruturado da pandemia, como estratégia de comunicação, só funciona por se
aproveitar da inevitável tendência gregária do ser humano
Inicialmente tentaram negar a existência da doença; posteriormente sua gravidade; e agora negam a eficácia dos meios de preveni-la. Os agentes desse negacionismo nem precisam estar convencidos de suas crenças irracionais – embora muitos estejam. Suas motivações muitas vezes são meramente políticas.
Tal mecanismo é responsável por mais mortes do que podemos
calcular,
... mas ele só funciona por se aproveitar da inevitável tendência gregária do ser humano. Nosso cérebro é programado para buscar a relação com os outros, para nos inserir no grupo e não nos permitir ficar isolados.
Sentir-se excluído dispara um alarme em nós já que isso era uma condenação à morte para nossos antepassados. Então, quando grupos conseguem ligar determinadas crenças a sua pretensa ideologia, há uma tendência muito forte a que todos aqueles que se identificam com o grupo acatem tais crenças. Afinal ela passa a fazer parte da identidade daquele grupo, e não aderir a elas seria pôr em risco essa sensação de pertencimento.
Felizmente a maioria das pessoas não está nos extremos.
Há os que se identificam mais com um lado ou com outro, mas não a ponto de pespegar imediata e totalmente as convicções de seu grupo como distintivos a ser exibidos. Elas se inclinarão a acreditar mais em determinadas mensagens, mas não são refratárias às evidências.
São elas o alvo de nossos esforços. Os extremistas
radicais dificilmente abandonarão sua irracionalidade.
Mas se insistirmos num discurso público coerente, com bom
senso e sem apelar a extremos opostos, refrearemos ao menos sua influência
perniciosa sobre a maioria das pessoas.
O que, considerando tudo, é uma conquista e tanto.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Saúde / Colunista – Domingo, 21 de março de 2021 – Pág.
A12 – Internet: clique aqui (acesso em: 21/03/2021).
Marcelo Knobel
Professor Titular de Física e Reitor da UNICAMP
A pandemia evidenciou
a importância das instituições públicas de pesquisa e das universidades e
amplificou as vozes dos cientistas, mesmo assim, somos inundados diariamente
com promessas de curas milagrosas
Mesmo assim, observamos estarrecidos retrocessos preocupantes e, especialmente durante a pandemia, somos inundados diariamente com promessas de curas milagrosas, questionamento às vacinas e negação de fatos consolidados, como a importância do distanciamento e do uso de máscaras.
Neste momento, engajar-se no combate às pseudociências (métodos e práticas duvidosas que se disfarçam de ciência) e à desinformação (informação falsa ou enganosa que é espalhada deliberadamente) é um imperativo ético e humanitário. Mas como fazer isso?
Um dos caminhos é divulgar a ciência:
a) Mostrar o árduo trabalho dos pesquisadores e a importância de investir na formação de pessoas e de infraestrutura continuamente, para podermos pelo menos sonhar com um país soberano e um desenvolvimento sustentável.
b) Promover o conhecimento e o encantamento pela ciência, mostrar a sua incrível beleza, como
ela permeia a nossa vida e até onde conseguimos avançar graças a ela. E, ao
mesmo tempo, alertar para o absurdo e o perigo das pseudociências e do
negacionismo, que pode ir muito além do aparentemente inofensivo
terraplanismo.
c) O principal, porém, é que nós, como sociedade, façamos todo o esforço para conhecer melhor os métodos científicos e estimular o pensamento crítico e para encarar a realidade, por mais dura que seja, demonstrando confiança nos resultados da ciência, que, como disse Edward O. Wilson (em Consilience: The Unity of Knowledge), “não é uma filosofia nem um sistema de crenças”. “É combinação de operações mentais que se tornou gradativamente o hábito das pessoas educadas, uma cultura de iluminações descoberta por uma feliz reviravolta da história, que levou ao modo mais efetivo de aprender sobre o mundo real já concebido.”
Fonte: O Estado de S. Paulo – Saúde / Análise – Domingo, 21 de março de 2021 – Pág. A15 – Internet: clique aqui (acesso em: 21/03/2021).
Comentários
Postar um comentário