O futuro que nos aguarda
«Tenho medo porque o povo não sai para protestar na rua»
Guillermo Martínez
“Público”, 06-03-2021
Entrevista
com Boaventura de Sousa Santos
Formação em Direito, Economia e Sociologia. Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É igualmente Director Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça. Autor de vasta obra que compreende artigos e livros publicados em diversas línguas.
Uma
ampla avaliação daquilo que tem acontecido às pessoas e às sociedades durante a
vivência da pandemia da covid-19 e as suas repercussões
O futuro começa agora: da pandemia à utopia [Boitempo, 2021] é o título da obra em que este reconhecido sociólogo defende uma mudança de era, em nível mundial, em que a NATUREZA esteja no centro de tudo. Aproveitamos a oportunidade para falar com ele sobre o porquê tem medo, ao lado da esperança, mas também acerca do teletrabalho, da resposta das organizações populares diante da inoperância dos Estados, da relação entre colonialismo, capitalismo e patriarcado, das notícias falsas e sobre como conviver com a incerteza científica.
Eis a entrevista.
Você comenta que “os privilegiados que
puderam continuar trabalhando, através do teletrabalho, se fecharam em casa,
paradoxalmente para se sentir menos fechados. E trabalharam ainda mais
intensamente”. A casa, o lar, mais uma vez como privilégio que não está ao
alcance de todos.
Boaventura de Sousa Santos: Sim, mas um privilégio com ressalvas. Por um lado, os que puderam teletrabalhar não perderam seu emprego e, em alguns casos, viram como a relação com seus familiares melhorava. Sabemos, por exemplo, que no norte global os pais jovens passavam no máximo 20 minutos por dia com seus filhos, assim, agora, tiveram a oportunidade de estar mais tempo com eles. Ao mesmo tempo, sabemos que em todos os países aumentou, sem exceção, a violência machista e o feminicídio, razão pela qual estar em sua casa pode ser bom, mas também sinônimo de conviver mais tempo com o agressor, neste caso, seu companheiro.
Que impacto o teletrabalho terá a partir de
agora?
Sousa Santos: Digamos que o capitalismo, a nova onda que emerge
através da Quarta Revolução Industrial pelas mãos da inteligência
artificial, viu nesta pandemia um experimento global para poder mudar as
relações trabalhistas. Caminhamos para um estágio em que não haverá
fábricas, mas também não haverá protestos de sindicatos, por exemplo, nem
greves, muito mais difíceis de se construir, caso não se trabalhe lado a
lado, nem se conheça os companheiros. Há um perigo neste capitalismo
eletrônico porque, de alguma maneira, significa um regresso ao período inicial
do capitalismo, quando os artesãos trabalhavam em suas casas. A única questão é
que agora faremos isso submetidos ao empresário.
Inquieta-me ver como os
sindicatos e os partidos políticos de esquerda não estão interessados em
enfrentar este problema que virá após a pandemia. Há uma estratégia global, e não só no campo
trabalhista, mas também na educação, onde serão eliminadas as associações
estudantis, dos campi universitários, e será muito mais difícil
articular as demandas.
Em
minha avaliação, o capitalismo não passou por nenhuma crise, mas, ao contrário,
se fortaleceu com a pandemia, como já aconteceu na crise financeira de 2008.
Por fim, a ideia do teletrabalho é importante porque criará novas oportunidades, mas os grupos sociais mais progressistas e populares terão que enxergá-lo assim e não deixar que os interesses do capital mundial, que também veem novas oportunidades, prevaleçam.
Escreve entre o medo e a esperança, como se o
primeiro fosse imposto e a segunda a única coisa que nos resta. Do que você tem
medo? Por que tem esperança?
Sousa Santos: Tenho medo porque o povo não sai para protestar na
rua. Alguns países, sobretudo governados pela direita, aproveitaram a pandemia
para legislar questões que pioram a situação das classes populares, como
Brasil, Colômbia, Reino Unido, Estados Unidos e Hungria. Ao contrário, na Índia
foram às ruas pequenos camponeses e agricultores que viram seus direitos
suprimidos.
Meu medo é que os Estados,
cada vez mais submetidos à lógica capitalista, não recebam uma pressão popular
pacífica para melhorar as condições sociais que serão minadas após a pandemia.
E também me causa medo que, embora não vejo o que foi dito acima, sim, observo
como a extrema direita cresce em todo o mundo porque eles não têm medo
de protestar.
A esperança vem do estudo que fiz da resposta que algumas comunidades deram aos efeitos da crise sanitária. Mostraram que existia uma alternativa possível na qual era possível defender a vida e a economia. Ao contrário, os governos de direita não protegeram nem uma e nem outra, como ocorreu nos países que comentei antes. Minha esperança tem ressalvas. Penso que deveríamos encarar um novo modelo civilizatório, começar uma transição para outra sociedade baseada em um consumo e produção anticapitalista, antirracista e antipatriarcal.
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Livro lançado, no Brasil, no dia 19 de janeiro de 2021, contém 432 páginas |
Defende que o surgimento do coronavírus supõe
uma mudança de era. A partir de agora, pertencemos à natureza e não vice-versa,
ainda que tudo indique que as classes privilegiadas seguirão petrificadas em
sua posição de máximo lucro à custa da destruição da natureza. Que cenário
enfrentaremos nesta nova era?
Sousa Santos: A fronteira que separará a esquerda da direita, a
partir de agora, será em que posição se localizam.
Para
a direita, a natureza nos pertence, e para a esquerda, nós pertencemos à
natureza.
Sendo assim, se existem
esquerdas que assumirão a primeira postura, estarão ocupando o papel da
direita. Qualquer luta contra a injustiça e a discriminação tem que incluir
a Mãe Terra, a natureza, como um dos seres não humanos mais discriminados,
silenciados e humilhados.
As políticas ambientais que a
União Europeia está promovendo e que as empresas devem cumprir não deixam de
ser uma forma continuísta do capitalismo. As empresas vão para outros lugares,
como a África e a América Latina, onde sem consciência ecológica destroem tudo
o que existe em sua passagem, tanto em nível ambiental, como os povos indígenas
que ainda resistem. A Europa não só pode cuidar dos europeus, como deve fazer o
mesmo com todo o mundo, e todo o mundo deve cuidar de si mesmo.
O fato de que as patentes das vacinas contra o coronavírus não tenham sido eliminadas é um sinal muito preocupante, do pior que pode nos passar. Os grandes desafios serão em nível global, e alguns não podem estar acima de outros porque, caso contrário, cairemos todos.
A análise que você apresenta gira em torno de
três eixos que nos conduziram até aqui e que você tenta desconstruir no ensaio:
capitalismo, colonialismo e patriarcado. Por outro lado, a maioria das pessoas
nem sequer se reconhecem como oprimidas ou opressoras, quando são. O que é
preciso mudar para tomar consciência disso?
Sousa Santos: O fundamental é ter uma alternativa. As injustiças não
abrem possibilidades de resistência por elas próprias. Há resistência quando
há alternativa, por isso defendo que...
... a
pandemia mais grave estamos sofrendo há 40 anos, quando nos fizeram acreditar
que não há alternativa possível ao neoliberalismo.
Isto bloqueou a política e, por isso, temos políticos medíocres na grande
maioria dos países. Criou-se a ideia de que não há outras possibilidades
e isso faz as pessoas entrarem em certo fatalismo, claramente relacionado ao crescimento
do conservadorismo religioso. Como a esquerda aceitou que não há outra
solução a não ser o neoliberalismo, a alternativa agora é a extrema direita,
que dizem que são antissistema.
Fala-se
tanto em livre mercado, mas...
Quando
surgiu a pandemia, as pessoas [e as empresas] não pediram ajuda aos mercados, mas ao Estado,
razão pela qual é preciso fortalecer a parte democrática do mesmo e
começar um debate aberto e claramente anticapitalista, no qual sejam propostas
políticas de transição.
As organizações sociais, as universidades e os partidos políticos de esquerda precisam ver nisto que ocorreu uma possibilidade de mudança e perceber que viver em uma crise permanente é uma armadilha, porque o único fenômeno que nunca está em crise é ela própria.
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Seja no Brasil como no restante do mundo, o auxílio às pessoas e às empresas afetadas pela pandemia veio do Estado, não é mesmo? |
Na primeira parte de seu livro, trata da devastação
provocada pela pandemia e, em um dos capítulos, indaga sobre como o capitalismo
fez da pandemia o que fez com a vida humana e a natureza: torná-la um negócio,
em seus próprios termos. Quem são os vencedores e os vencidos?
Sousa Santos: Os vencedores foram os capitalistas, que tinham as tecnologias. É o capital tecnológico que venceu, empresas como Google, Amazon e Apple, mas também será o financeiro, caso consiga fazer com que não haja mudanças importantes em relação ao perdão da dívida de alguns países. Em relação aos vencidos, as classes mais baixas que já vinham sobrevivendo como podiam.
Também reflete sobre a resposta que os
diferentes Estados deram à crise sanitária. Apesar do fato de que sem saúde não
há economia possível, o imediatismo fez com que a recuperação seja ainda mais
lenta e, em muitos casos, dolorosa. Neste sentido, o que foi bem feito e o que
não?
Sousa Santos: Na Europa, prevaleceu a ideia de defender a vida,
exceto na Suécia, o que teve um resultado catastrófico.
Os
países que saem pior em termos de economia e proteção da vida foram
aqueles desde o início minimizaram os efeitos da crise, muitas vezes,
negacionistas e governados pela direita, como o Reino Unido, Estados
Unidos e Brasil.
Diante da inoperância dos Estados, em muitas
regiões foram criadas dezenas de redes de solidariedade e apoio mútuo entre os
cidadãos. Este poderia ser o germe da utopia?
Sousa Santos: Eu defendo a ideia da utopia a partir da autodeterminação dos povos e das comunidades, do que eles próprios pensam ser o melhor para eles. Não defendo uma solução tipo Rojava ou Zapatista pelo mundo todo, porque as condições são diferentes em cada país, mas muitos lugares se protegeram da pandemia com suas próprias regras, como os povos indígenas da América Latina. Tudo isto, penso, são experimentos de alternativas anticapitalistas, antirracistas e antipatriarcais. Talvez possam ser o início da utopia, mas, sem sombra de dúvidas, não haverá utopia se as mulheres não forem consideradas um sujeito político decisivo. A utopia virá com a autodeterminação e os cuidados, o que inclui a natureza.
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Em várias favelas e comunidades pelo Brasil afora, a solidariedade fruto da organização da população foi fundamental para impedir que muitos passassem fome! |
Na segunda parte do ensaio, entra de cheio na
ideia de que o século XXI pode ser o começo de uma nova era. Inclina-se,
segundo descreve, para o que sugere um novo modelo civilizatório, baseado na
primazia da vida digna e em uma relação com a natureza radicalmente distinta da
que mantivemos na era moderna e que nos levou à beira da catástrofe ecológica e
a um mundo distópico viral. Por acaso, temos outra opção para sobreviver?
Sousa Santos: Não. De fato, agora, sim, que não existe alternativa.
Ou
defendemos a natureza ou será um suicídio.
A vida humana constitui 0,01% da vida total do planeta, e apesar de ser tão pouco, nós nos arrogamos o direito de destruí-la por completo.
Argumenta que “em tempos de pandemia, as NOTÍCIAS
FALSAS se traduzem diretamente em mortes e, portanto, constituem ações
criminosas que os países não estão preparados para punir exemplarmente, assim
como também não estão preparados para frear eficazmente a difusão de notícias
falsas”. Aqueles que propagam estas informações falsas podem estar matando as
pessoas?
Sousa Santos: Sim, sim, podem.
A
propagação de notícias falsas, daqui para frente, pode constituir crimes contra
a humanidade.
Demonstro isto no livro: uma publicação em uma página web dizia que tomando grandes quantidades de álcool puro ou de alto teor, matava-se o vírus. O resultado foi a morte de 800 pessoas e quase 30.000 hospitalizações por este motivo, em 80 países diferentes, além de muitas pessoas ficarem cegas por isto.
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No Brasil, o próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro, divulgou notícias falsas sobre a existência de "tratamento precoce" ou "remédios eficazes" contra a covid-19 |
“Conviver com incertezas científicas” é o
título de um subcapítulo, em seu texto. Se a ciência é a melhor forma que temos
para entender a realidade, como é possível viver no desconhecimento?
Sousa Santos: Temos que viver a incerteza com grande humildade. Além
disso, é necessária uma mudança epistemológica no conhecimento. Eu chamo isto
de epistemologias do sul, pois é preciso democratizar e perceber que não
existe apenas o tipo de conhecimento científico com o qual estamos acostumados.
Por exemplo, os saberes indígenas não podem ser depreciados pela
ciência. Assim como devemos lutar contra as notícias falsas, também temos que
aprender a valorizar este outro e fugir das certezas absolutas.
Se existem os deuses, talvez eles tenham alguma certeza, mas nós não, somos humanos e temos que conviver com a incerteza.
O propósito do livro é ajudar “aqueles que,
durante a pandemia, assumiram a defesa da vida digna e imaginaram políticas e
modos de vida que no futuro possam nos defender melhor das pandemias”. Uma vez
superado o coronavírus, quais outras pandemias teremos que enfrentar?
Sousa Santos: A pior pandemia virá se não superarmos esta crise e
seguirmos com a ideia de que não existe alternativa ao capitalismo neoliberal.
Ocorrerão outras pandemias muito difíceis também, como a de não ter acesso à
saúde pública e a conversão desta em um negócio, em vez de um bem social. A pandemia
da fome, a pandemia da brutalidade policial, a pandemia da
violência machista, a pandemia da falta de moradia e, sobretudo, a
pandemia que precisaremos enfrentar se não mantivermos a água como um
bem público e de acesso universal.
As estimativas marcam que até 2050 metade da população não terá
água potável, ao mesmo tempo em que a água já é negociada no mercado de
futuros.
O capitalismo fará o que for para se antecipar a qualquer situação em que possa se beneficiar.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 9 de março de 2021 – Internet: clique aqui (acesso em: 10/03/2021).
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