Um sistema perverso
Precisamos do mundo digital sob leis
André Cáceres
Entrevista
com Shoshana Zuboff
Filósofa norte-americana e professora emérita da Harvard Business School (Estados Unidos)
Professora
emérita de Harvard investiga o fenômeno econômico e tecnológico proporcionado
pela internet nos últimos 20 anos em seu livro “A Era do Capitalismo de
Vigilância”
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SHOSHANA ZUBOFF |
Quando o físico britânico Tim Berners-Lee desenvolveu a World Wide Web (WWW), em 1989, ele abriu caminho para a criação da internet como a conhecemos hoje, com o intuito de torná-la, em suas palavras, "uma plataforma aberta que permitiria qualquer pessoa em qualquer lugar trocar informações, ter oportunidades de acesso e colaborar para além de barreiras geográficas e culturais". No livro Dez Argumentos para Deletar Agora suas Redes Sociais, o cientista da computação e pioneiro do estudo em realidade virtual Jaron Lanier lembra que a atmosfera no início da internet era de euforia em relação a um futuro colaborativo, em que tudo seria feito em código aberto. Zuboff explica em seu livro que, em 2000, o projeto Aware Home, desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia da Geórgia, antevia o que se convencionou chamar de "casa inteligente" e "internet das coisas", imaginando um "futuro digital capaz de empoderar os indivíduos a fim de levar uma vida mais eficaz" e com forte compromisso com a privacidade. De que forma valores tão nobres acabaram por se degenerar e transformar a internet em um espaço de vigilância, disseminação de notícias falsas, propagação de teorias conspiratórias, alienação e desconfiança?
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Lançado, no Brasil, pela editora Intrínseca, em outubro de 2018 - Vale a pena ler! |
Para Zuboff, esse sonho de um mundo conectado com enfoque no bem-estar dos usuários dos produtos deu lugar a um novo modelo de sistema econômico, que usa justamente a produção de dados e informações para exercer poder e controle.
É disso que se trata o capitalismo de vigilância. Nesse regime, os dados fornecidos espontaneamente pelos cidadãos alimentam mecanismos de predição que movimentam o que a autora chama de mercados de comportamentos futuros. O mais importante para Zuboff é que esse sistema não é inerente à tecnologia, o caminho que a inovação percorreu nos últimos 20 anos foi subvertido conscientemente.
Pioneiro nessa prática, o Google, de acordo com a autora, se aproveitou de alguns fatores, como o contexto econômico que favorecia a desregulamentação das atividades inspirado por pensadores neoliberais e a sede por segurança nacional galvanizada pelos ataques de 11 de setembro de 2001, para conquistar terreno na zona cinzenta da vigilância de civis. E não basta simplesmente evitar a internet: o espaço virtual se tornou tão ubíquo e incontornável nos últimos anos que pagar para ser controlado pelo capitalismo de vigilância é um pacto faustiano, na visão da autora, pois, assim como no mito do Fausto, nós entramos em um acordo irrecusável embora o que precisemos pagar em troca destrua nossa vida como a conhecemos.
"A prova do nosso entorpecimento psíquico é que há apenas algumas décadas a sociedade americana denunciava as técnicas de modificação de comportamento como ameaças inaceitáveis à autonomia individual e à ordem democrática. Hoje as mesmas práticas encontram pouca resistência, ou mesmo questionamento, quando são rotineira e difusamente implantadas na marcha rumo aos lucros da vigilância", escreve ela.
Zuboff argumenta que todos os
seres vivos precisam de um lar para voltar, mas que o mundo digital só
poderá ser um lar se lutarmos contra o capitalismo de vigilância. Caso
contrário, estaremos condenados a ser exilados nessa nova realidade. Zuboff
aceitou responder algumas perguntas do Estadão por videoconferência.
Eis a entrevista.
Parecemos estar falhando enquanto sociedade
em restringir a ascensão do CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA. O que nós podemos fazer
enquanto indivíduos para nos resguardar?
Shoshana Zuboff:
Eu não concordo com essa afirmação. Na
verdade, nós não começamos a tentar restringir. As soluções virão por meio
do processo democrático com novos marcos legislativos e instituições
de fiscalização. É verdade que, ao longo das últimas duas décadas, o
capitalismo de vigilância floresceu sem impedimentos, mas só se nós fizermos
tudo o que pudermos e ele continuar a crescer pelos próximo vinte anos que eu
me preocuparia. Nós nem tentamos. Nos últimos 18 meses, houve um
crescimento exponencial de propostas regulatórias, desde 2019 temos visto esse
movimento nos Estados Unidos, que está muito atrás da Europa nessa questão. Em
dezembro, a Comissão Europeia trabalhou na Lei dos Serviços Digitais e
na Lei dos Mercados Digitais. Não é tudo o que é preciso, mas eu vejo
como um gigantesco Titanic começando a desviar do iceberg, que no caso é um
Zuckerberg. O que precisamos é que o mundo digital viva sob leis.
O
ciberespaço é um mito inventado para deixar a democracia de fora. Sabemos que
isso não existe. O ciberespaço é metal, dinheiro, pessoas…
O que eles fazem é complicado e abstrato, mas não é algo de outro mundo. É capitalismo. Eu me sinto otimista, acredito que temos a próxima década para fazer isso funcionar. Já enquanto indivíduos, já passamos do ponto em que possamos fazer alguma coisa. É como o aquecimento global. O que podemos fazer? Podemos virar vegetarianos, usar lâmpadas mais econômicas, mas sabemos que isso não fará uma diferença real na trajetória das mudanças climáticas. A única coisa que funcionará, tanto para o aquecimento global quanto para o capitalismo de vigilância, é a ação coletiva.
De que modo a pandemia afetou o capitalismo
de vigilância?
Zuboff: É uma via de mão dupla. Por um lado, ela tornou essas
empresas mais ricas e poderosas, aumentou a demanda por atividade virtual e,
com isso, a extração massiva de dados pessoais. Mas há uma justaposição
esquisita. Em abril de 2020, 1,5 bilhão de crianças não podiam ir à escola, o
que multiplicou significativamente a presença do Google no espaço educacional.
No mesmo mês, um procurador do Novo México processou o Google
Classroom e toda a sua suíte de ferramentas educacionais por
extração ilegal de dados estudantis. Cada vez mais pessoas dependem desses
serviços virtuais, mas isso expôs mais pessoas a algo de que elas não gostam.
Pesquisas mostram que a confiança do público nas empresas de Mark Zuckerberg
só não é mais baixa do que a confiança na indústria do tabaco.
O
capitalismo de vigilância é baseado na extração de dados, que
requer engajamento. Para tanto, o conteúdo mais tóxico é amplificado,
porque ele magnetiza mais engajamento. Então a desinformação é uma
consequência desse sistema. Ela é produto de sua operação.
Em outubro de 2020 o Centro
Nacional de Preparação para Desastres da Universidade de Columbia publicou
um estudo sobre mortes evitáveis por covid-19 nos Estados Unidos. Na época, de
217 mil mortes registradas — agora são mais de 500 mil —, entre 130 mil
e 210 mil eram evitáveis. Quatro razões chave foram identificadas, entre
elas a recusa em cumprir os protocolos de prevenção, como o uso de máscara e o
distanciamento social, e a politização da pandemia. Essas questões são
originadas por campanhas de desinformação nas quais o Facebook cumpriu um
importante papel ao amplificar e disseminar.
Em
abril, os dez principais sites de desinformação sobre a COVID-19 receberam 300
milhões de engajamentos pelo Facebook, comparados aos 70 milhões dos dez
principais sites de informação sobre saúde pública.
Quase 20% desse conteúdo foi checado e rotulado como falso, mas continuou circulando. O capitalismo de vigilância matou centenas de milhares de cidadãos americanos e isso ocorreu, certamente, em outros países.
Seu livro explica as razões pelas quais essas
empresas se recusam a remover até os conteúdos mais ofensivos de suas
plataformas. Mas recentemente elas começaram a moderar alguns conteúdos e até
baniram o ex-presidente americano Donald Trump. O que essa mudança de
comportamento indica?
Zuboff: Absolutamente nada. Eu não concordo que seja uma mudança de comportamento. De toda a massa de desinformação, apenas uma pequena fração foi checada. Não dou qualquer crédito a isso. O que essas empresas fizeram foi o mínimo para poderem dizer que estão fazendo algo. Trump foi banido dessas plataformas, mas não até o dia 6 de janeiro. O que aconteceu nesse dia? É claro, a insurreição contra o Capitólio, mas também a confirmação final de que as cadeiras de senadores da Georgia iriam para os candidatos democratas, ou seja, de que o senado não seria mais controlado pelos republicanos. Com essa informação política em mãos, Mark Zuckerberg decidiu suspender o perfil de Trump. O que aconteceria se ele decidisse fazer isso há quatro anos, quando Trump já estava mentindo e espalhando desinformação? Ou há um ano? Quantas vítimas de covid-19 estariam vivas?
O que deveria ser feito em um mundo ideal com
a quantidade massiva de dados pessoais criada pelo uso dos serviços do Google,
Facebook, Amazon, Apple e Microsoft?
Zuboff: Eu não penso em um mundo ideal, mas em um mundo que,
eu espero, nós vamos alcançar.
O
componente de vigilância do capitalismo de vigilância é fundamentalmente
ilegítimo. É ROUBO. Ao usar métodos tecnológicos escondidos, eles roubam nossa
experiência pessoal e esse é um processo ilegal.
Nossa experiência privada
deveria estar sob nosso controle enquanto indivíduos. E nós deveríamos estar no
direito de decidir o que se torna dados. O que e como é compartilhado, e o que
permanece particular. Fazer essa escolha sempre foi um direito individual. Em
um mundo pré-digital esse direito nunca foi ameaçado. Se nós tomarmos de
volta esse direito das empresas, então podemos atrelar a coleta de dados a
direitos fundamentais e o uso desses dados ao interesse público. Nós vamos
usá-los para lidar com a crise climática, curar doenças…
Hoje
essas quantidades massivas de dados ficam guardadas com EMPRESAS e são usadas
para gerar lucro para elas. Essa quantidade inimaginavelmente vasta de
dados é produzida por nós, mas não serve a nós.
Nós queremos as tecnologias digitais, mas queremos que elas sejam usadas em prol das pessoas. Isso não é um mundo ideal, é um mundo normal. O que vivemos atualmente é que é um acidente distorcido da história.
L I V R O
Título: A era do capitalismo de vigilância:
a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder
Autora: Shoshana Zuboff
Tradução: George Schlesinger
Editora: Intrínseca
Páginas: 800
Preço: R$ 99,90 (impresso), R$ 62,91 (e-book)
Fonte: O Estado de S. Paulo – Caderno 2 / Cultura – Terça-feira, 9 de março de 2021 – Pág. H5 – Internet: clique aqui (acesso em: 15/03/2021).
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