Agronegócio e investimentos despencam e PIB encolhe 0,5% no 3º trimestre

Agência Estado


Queda é o pior resultado desde o 1º trimestre de 2009, auge da crise financeira internacional; 
na comparação com o mesmo período do ano anterior, economia teve alta de 2,2%

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil encolheu 0,5% no 3º trimestre deste ano ante os três meses imediatamente anteriores. Pelo lado da oferta, o pior desempenho foi o da agropecuária, que despencou 3,5% na mesma base de comparação. Já indústria e serviços ficaram praticamente estáveis, com leve alta de 0,1%. Já pela ótica da demanda, os investimentos (denominados formação bruta de capital fixo) tiveram forte queda: 2,2%, a maior desde o primeiro trimestre de 2012, quando houve recuou 2,7%. Enquanto o consumo das famílias teve alta de 1% e o do governo cresceu 1,2%.

A queda de 0,5% é o pior resultado, nessa base de comparação, desde o primeiro trimestre de 2009, auge da crise financeira internacional. Naquela ocasião, houve recuo de 1,6% no PIB, na margem. O resultado também representa a primeira retração desde o primeiro trimestre de 2009, segundo informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado também representa uma forte desaceleração ante o resultado do segundo trimestre deste ano, que teve a alta revisada para cima: de 1,5% para 1,8%.

A queda no terceiro trimestre ficou no piso das estimativas dos analistas. Levantamento do serviço AE Projeções, da Agência Estado, com 47 instituições, previa recuo de 0,50% a uma expansão de 0,20% para o PIB - com mediana de -0,20%.

Já na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, a economia teve alta de 2,2%, sendo puxada pelo setor de serviços, que também teve expansão de 2,2%. Já a indústria teve alta de 1,9% e a agropecuária recuou 1%. Nesta base de comparação, os investimentos tiveram forte alta: 7,3%. Trata-se da terceira alta seguida, sinalizando para uma recuperação dos investimentos em relação ao ano anterior. Já os consumos das famílias e do governo cresceram, ambos, 2,3%. Em valores correntes, o PIB do terceiro trimestre somou R$ 1,213 trilhão.

O PIB de 2012 ante 2011 foi revisado pelo IBGE de 0,9% para 1%. O resultado ficou abaixo do anunciado pela presidente Dilma Rousseff na semana passada, durante uma entrevista. A presidente disse que o crescimento do ano passado tinha sido revisado de 0,9% para 1,5%.

Este ano, foram incorporadas as revisões de pesquisas usadas no cálculo do indicador, mas também a nova Pesquisa Mensal de Serviços, que começou a ser divulgada pelo instituto recentemente e motivou especulações sobre uma revisão do crescimento do País para cima. No entanto, as revisões definitivas, feitas a partir da incorporação das Contas Nacionais Anuais, só serão realizadas quando o trabalho de mudança na metodologia de cálculo do PIB estiver concluído, o que está previsto para o fim de 2014 ou início de 2015.

Comércio exterior
As exportações, segundo o IBGE, caíram 1,4% no terceiro trimestre em relação aos três meses imediatamente anteriores. Ante o mesmo período do ano anterior, as vendas externas subiram 3,1%. Já as importações diminuíram 0,1% na comparação com o segundo trimestre do ano. Em relação ao mesmo período de 2012, houve alta de 13,7%.

A contabilidade das exportações e importações no PIB é diferente da realizada para a elaboração da balança comercial. No PIB, entram bens e serviços, e as variações porcentuais divulgadas dizem respeito ao volume. Já na balança comercial, entram somente bens, e o registro é feito em valores, com grande influência dos preços.

Como o PIB é calculado? 
O PIB é o indicador mais usado para medir o tamanho da economia de um país. É o total de riquezas produzidas ao longo de um dado período. Ou, na definição do IBGE, que cuida do cálculo: são os "bens e serviços produzidos no país descontadas as despesas com os insumos utilizados no processo de produção durante o ano. É a medida do total do valor adicionado bruto gerado por todas as atividades econômicas".

Para chegar ao valor do PIB, o IBGE, computa o desempenho dos três setores da economia - agropecuária, indústria e serviços. Ao mesmo tempo, acompanha os componentes da demanda: o consumo das famílias e o do governo; exportações; importações (cujo impacto tem sinal negativo); e, finalmente, a formação bruta de capital fixo, que é justamente a conta de investimentos do PIB.

A conta do IBGE, órgão vinculado ao Ministério do Planejamento, é feita a partir das pesquisas setoriais que ele próprio realiza ao longo do ano e também de dados complementares fornecidos pelo Banco Central, Ministério da Fazenda e Agência Nacional de Telecomunicações, entre outras fontes.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR - Economia e Negócios - 03 de dezembro de 2013 - 09h00 - Internet: clique aqui.
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ANÁLISE
MAIS DECEPÇÃO


Celso Ming

O comportamento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre foi decepcionante: caiu 0,5% em relação ao anterior. Tão decepcionante, ou ainda mais, é a reação de nossas autoridades.

Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não há nada de errado nesses resultados. Eles são até melhores do que os do ano passado...

"O consumo cresceu apenas 1,0% sobre o trimestre anterior porque o crédito desacelerou", disse ele. Ora, o crédito vai crescendo a 14,7% ao ano, o que não é pouca coisa, e só não está crescendo mais porque a inadimplência (calote) aumentou. Isso significa que, há alguns meses, o crédito já tinha avançado demais. Os bancos não haviam levado em conta o excessivo endividamento das famílias. Como essa situação não será revertida tão cedo, também não dá para aceitar a projeção do ministro Mantega, que, outra vez, não passa de torcida, de um quarto trimestre muito melhor.

Outra afirmação esquisita do ministro é a de que o resultado ruim do terceiro trimestre favorece um bom resultado no último trimestre do ano. Por essa lógica, se, em vez de ter caído apenas 0,5%, o PIB do terceiro trimestre tivesse despencado, digamos, para menos 4,0% ou menos 5,0%, o crescimento do trimestre seguinte seria ainda mais favorecido.

Há pouco mais de uma semana, em entrevista ao diário espanhol El País, a presidente Dilma declarou que a revisão das Contas Nacionais pelo IBGE corrigiria para 1,5% o crescimento do PIB em 2012, avaliado em apenas 0,9%. Pois veio a correção anunciada, não para 1,5%, mas para apenas 1,0%. Ou seja, a presidente Dilma errou o chute em 50%. Mas, aparentemente, isso não tem importância, fica o dito pelo não dito...

É leviano atribuir o mau desempenho da economia a fatores fortuitos. A baixa capacidade de voo da galinha não acontece porque suas penas estão encharcadas de graxa. A galinha tem asas atrofiadas; não tem estrutura física para voar como os gansos selvagens. O PIB está se arrastando porque a política econômica está desequilibrada e vai produzindo distorções: 
  • Não é apenas o setor produtivo que segue queimando óleo. 
  • A inflação está à altura dos 6% ao ano; 
  • o rombo das contas externas (déficit em conta corrente) vai subindo para 4,0% do PIB; 
  • a poupança nacional é insuficiente (de apenas 15%) e, por isso, o investimento não pode ser muito maior do que isso. 
  • E não havendo investimento de pelo menos 23% ou 24% do PIB, também não dá para garantir um avanço de mais de 3,0% ao ano, como quer o governo.
Ainda que haja alguma reação no quarto trimestre, o crescimento da economia neste ano não deverá ser superior a 2,2% (veja o gráfico).

A presidente Dilma vem deixando claro que não quer correções de rumo, porque teme seu impacto sobre as eleições de 2014. E isso também aponta para novo desempenho medíocre no ano que vem.

Mas, afinal, para que mudar? Nem uma economia atrapalhada nem um governo atrapalhado conseguem tirar a presidente Dilma da ponta das intenções de voto.


Fonte: O Estado de S. Paulo - Economia - Quarta-feira, 4 de dezembro de 2013 - Pg. B2 - Internet: clique aqui.

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