Vida fraterna, antídoto a uma Igreja deprimida
ENTREVISTA com
Enzo Bianchi
Vittoria Prisciandaro
Revista JESUS
Setembro/2011
O prior de Bose* reflete sobre a vida da sua comunidade: "Ela se tornou uma realidade maior do que eu pensava". Sobre a vida religiosa: "Hoje, é mais difícil a perseverança do que a vocação". E sobre a Igreja: "Vivi a falsidade na minha pele". Mas continua sereno: "O Senhor me enviou muitas pessoas de valor. Posso voltar à minha solidão".
O prior chega a pé por entre os caminhos entre as árvores. Ou de carro, se tem algo para trazer consigo. Reza com os irmãos, encontra-se com alguns hóspedes que subiram até aqui para lhe encontrar, cumprimenta os congressistas da vez, retira o correio e, depois, assim que pode, escapa e retorna ao seu jardim e à sua cela entre as árvores, um pouco mais escondida do que os outros edifícios da Comunidade, "refúgio e possibilidade de quietude" para um homem que, com seus 68 anos, atravessou as mais entusiasmantes e, ao mesmo tempo, as mais tempestuosas estações da história recente da Igreja: Concílio, pós-Concílio, refluxo.
Enzo Bianchi [foto acima], o monge que muitos não crentes consideram com respeito, que padres e leigos estimam, que alguns monsenhores ainda olham com desconfiança, que os editores cortejam e os amigos apreciam pela sua simpatia e pelo refino da arte culinária ("a cozinha é uma forma de dar algo de si mesmo aos outros"), tornou-se nas últimas décadas uma das raras vozes católicas "significativas" no panorama italiano. Os talk-shows fazem de tudo para recebê-lo em seus estúdios, os pedidos de entrevistas e conferências se estragam.
Mas Enzo tenta saborear a sua presença: "Há alguns anos, decidi fazer um máximo de duas aparições na televisão por ano. Mas gostaria de estar ainda mais escondido. Na rua, já me pararam dizendo: 'Eu já lhe vi, o senhor é o padre Bose'. Enfim, tenho medo de que, na televisão, o meu rosto conte mais do que o aquilo que eu digo. Eu prefiro o rádio e a mídia impressa".
"Além de alguns compromissos aos quais eu sou fiel – continua –, como Jesus [revista], alguma intervenção no La Stampa [jornal de Turim, Itália], e, na França, no Panorama, eu tento não estar muito presente. Tenho medo do 'personagem'. Se eu quisesse ter 'sucesso', bastaria que eu aceitasse ser ordenado sacerdote e poderia ter feito carreira eclesiástica. Quando eu decidi ser um simples monge, eu escolhi não fazer carreira...".
Ele saiu sozinho, há pouco mais de 40 anos. Hoje, ele se encontra com uma comunidade de 80 monges, à que deu vida a outras fundações e é considerada, sem dúvida, como um ponto de referência na Igreja italiana e no exterior. Como ele vive essa situação? "A reação inicial, quando eu penso nisso, é de estupor, quase de surpresa. Mas também devo dizer que me sinto afortunado, porque se realizou o que eu já entrevia claramente na minha mente há mais do que 40 anos: uma comunidade monástica que tivesse no coração a Palavra de Deus em tudo, na liturgia, na nossa vida com a 'lectio divina', na proposta para os hóspedes. Assim como ela é hoje, efetivamente".
E continua: "A surpresa vem, entretanto, do fato de que Bose se tornou uma realidade muito maior do que eu pensava. Eu rezava frequentemente, sobretudo entre 1966 e 1968, para que o Senhor me concedesse algum irmão: 'Seis-sete são mais do que o suficiente', eu pensava. Eu usava uma fórmula emprestada do Pe. Colombàs, um monge que tinha escrito um pequeno panfleto intitulado Por um mosteiro simples e atual. Na minha ingenuidade, eu pensava em um mosteiro simples, que fosse fiel à tradição nos conteúdos e que respondesse à novidade do Concílio Vaticano II. Era a nossa vida como nós a fazíamos então, mas eu não supunha a sua dimensão, hoje muito maior do que aquela que eu pensava e queria. De um lado, há, assim, uma confirmação da intuição inicial; de outro lado, a surpresa, mas também o medo. Às vezes, no meu íntimo, quase não reconheço a Comunidade e me pergunto se, no futuro, conseguiremos permanecer fiéis a algumas coisas que escolhemos e que até agora se confirmaram: a vida simples entre nós, a acolhida simples aos hóspedes, uma vida de trabalho que ainda o fazemos... Conhece bastante a história do monaquismo para alimentar esses medos".
Como é a Igreja vista de Bose?
A Igreja toda vive em um estado de depressão, em que as convicções fortes aparecem só quando são contra os outros, em uma guerra de facções contínua. Por outro lado, parece que ninguém está convencido de nada. O mais grave é que o coração de todo esse conflito é a Eucaristia: os servos da comunhão fazem dela um lugar de divisão. Quanto à Igreja italiana, em particular, vejo dois males. O primeiro é a afonia do laicato: os cristãos na política é como se não existissem mais; frequentemente, houve uma forma de ultrapassamento, pela qual a voz que lhes cabia foi assumida por alguns bispos.
Tudo isso provocou nos últimos 20 anos uma situação um pouco desoladora, não há mais subjetividade laical. Talvez hoje se entreveja um renascimento. Espero que haja um novo começo depois de um tempo de depressão. Outra coisa é que eu gostaria que se entendesse que há urgências muito fortes. É significativo que se tenha escolhido falar sobre a educação nas Orientações Pastorais da década. A meu ver, porém, é inútil pensar em transmitir uma fé às futuras gerações sem lhes fornecer uma gramática humana: elas precisam saber o que a fé lhes diz no cotidiano, na vida, nos afetos, nas histórias de amor, no trabalho, no encontro com os outros.
Dessas duas urgências depende o futuro. Devemos parar de pensar que temos um catolicismo popular que sustenta. A Igreja na Bélgica tinha essa situação 20 anos atrás e é agora é o país mais descristianizado da Europa. Devemos ser menos seguros, menos autogarantidos, menos autorreferenciais.
Não deixe de ler toda a entrevista acessando:
* Bose é uma comunidade monástica de homens e mulheres provenientes de igrejas cristãs diversas, que procuram Deus no celibato, na vida fraterna e na obediência ao Evangelho. A comunidade nasceu a 8 de Dezembro de 1965, o mesmo dia em que se encerrou o Concílio Vaticano II, quando Enzo Bianchi decidiu viver sozinho numa casa alugada na pequena aldeia de Bose [Serra de Ivrea, norte da Itália]. Ainda estudante, Enzo Bianchi gostava de reunir, num grupo de oração, cristãos de várias confissões, mas foi a partir de 1968, que as primeiras pessoas interessadas (católicas e protestantes) se juntaram a ele e ao seu desejo ecumênico, afim de levar uma vida comunitária; entre estes, uma mulher pastor da Reforma. Hoje, a comunidade é composta de 80 irmãos e irmãs: vários protestantes, 5 sacerdotes e um reverendo. O seu prior é o fundador: Enzo Bianchi. Todos os membros da comunidade trabalham, ganhando o seu sustento com as próprias mãos, no pomar ou na horta, na cerâmica, na pintura de ícones (muito belos), na carpintaria, na tipografia ou na pesquisa bíblica e catequética. Neste espírito monástico, a comunidade é também um lugar de acolhimento e de retiro para aqueles que procuram partilhar a oração e a vida da comunidade, ou de reflexão e de colóquios sobre os desafios e problemas do mundo e da Igreja.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 16/09/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=47434
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