FATO MUITO ESTRANHO... O QUE PENSAR?
SOCIÓLOGO QUE ESTUDA PROTESTOS É VÍTIMA DE SEQUESTRO
Clarissa Thomé
Paulo Baía foi posto num carro e obrigado a circular pelas ruas do centro,
com quatro homens armados e encapuzados
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Paulo Baía - sociólogo da UFRJ |
O sociólogo Paulo Baía, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-secretário de Estado de Direitos Humanos, foi vítima de um sequestro-relâmpago, na manhã desta sexta-feira [19/julho]. Baía foi posto num carro e obrigado a circular pelas ruas do centro, com quatro homens armados e encapuzados. Ele, que estuda os protestos que eclodiram no País, afirma que foi ameaçado por dar entrevistas a respeito da atuação da Polícia Militar (PM).
Nesta sexta-feira, o jornal O Globo publicou entrevista [veja mais abaixo] em que Baía comentava o quebra-quebra no Leblon, na capital fluminense. "A polícia viu o crime acontecendo e não agiu. O recado da polícia foi o seguinte: agora, eu vou dar porrada em todo mundo", afirmou ao jornal carioca. O caso foi denunciado à Ouvidoria do Ministério Público (MP) e à chefia de Polícia Civil.
De acordo com o procurador-geral de Justiça, Marfan Vieira, o episódio é "extremamente preocupante". "Houve uma tentativa de calar uma voz importante no cenário político nacional. Isso fere o Estado Democrático de Direito e causa enorme preocupação." Baía caminhava por volta das 7h30 no Aterro do Flamengo, na zona sul, quando foi abordado por dois homens armados, com os rostos escondidos por toucas ninjas e óculos escuros, e as cabeças cobertas por capuzes de moletom. Logo em seguida, um Nissan preto, sem placa, estacionou ao lado deles. O sociólogo foi obrigado a entrar.
"Não dê mais nenhuma entrevista, não cite a Polícia Militar de forma alguma, senão será a última entrevista que o senhor dará." Baía circulou pelo Aterro, passou pela Avenida Rio Branco e foi deixado em frente à Biblioteca Nacional - um trajeto de 10 minutos. "O recado está dado", disse um dos homens ao liberar Baía.
"Não estou amedrontado, mas estou sob tensão. É um atentado a minha pessoa, mas também à liberdade de imprensa. O motivador foi a matéria publicada hoje (19)", afirmou Baía. Ele contou que foi a primeira ameaça que sofreu e que pretende mudar a rotina.
"Estou impactado, um pouco traumatizado. Esta é uma posição nova para mim - a de vítima. Já vim a essa casa (MP) muitas vezes, trazendo vítimas. Já trabalhei em casos complicados, até mesmo com o crime organizado, mas nunca passei por isso", disse o professor, que também se encontrou com a chefe de Polícia Civil, Martha Rocha, e registrou o caso na 5.ª DP.
Baía vem estudando há cinco anos a demanda da população por reconhecimento, respeito e novos direitos. Ele tem participado das manifestações e mapeou os grupos que participam dos atos, identificando, inclusive, aqueles que fazem depredações e saques. "É um grupo que comete crime, não vandalismo. Vandalismo é um termo impreciso, incorreto e que desqualifica a manifestação. Esses que fazem saques são criminosos. E fico muito surpreso de a polícia assistir aos crimes e não agir", afirmou o sociólogo.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR - Notícias - 19 de julho de 2013 - 19h33 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,sociologo-que-estuda-protestos-e-vitima-de-sequestro,1055224,0.htm
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ENTRE OS MANIFESTANTES HÁ ATÉ CRIMINOSOS,
AFIRMA SOCIÓLOGO
Vera Araújo
Cientista político da UFRJ divide vândalos em três correntes
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Loja saqueada no Leblon, RJ (18/07/2013) Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo |
Nem todos que usam roupa preta e uma máscara encobrindo o rosto são integrantes do grupo Black Bloc. Assim como também nem todos os jovens que usam o corte de cabelo do tipo moicano são punks. Os protestos do Rio trouxeram para as ruas várias tribos anônimas e até ligadas a partidos políticos. Numa pesquisa acadêmica sobre a classe média, que engloba as manifestações de rua, o sociólogo e cientista político da UFRJ Paulo Baía dividiu os grupos que praticam atos mais violentos em três faixas:
- os que seguem uma política ideológica,
- aqueles de natureza sociocultural e há ainda
- as pessoas ligadas ao crime.
— A outra faixa [sociocultural] tem funkeiros, skinheads e Black Bloc, que se tornaram visíveis com as manifestações, além dos punks e das torcidas organizadas.
— Por último, temos os bandos com vínculos com facções criminosas, como traficantes, milicianos e bandidos comuns — explicou Baía.
Ao identificar os grupos políticos, o sociólogo ressaltou que percebeu a ação deles em cidades que visitou, como Rio, São Paulo, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, Brasília e Belo Horizonte. Ele lembra que há também bombeiros e policiais militares favoráveis à PEC 300, proposta de emenda constitucional que propõe igualar os salários dos militares estaduais de todo o Brasil.
— O que une os manifestantes, levando-os para as ruas, é que todos eles querem ser respeitados e desejam que as instituições funcionem. Não dá para comparar os movimentos de hoje com o Maio de 68 ou a Primavera Árabe, por exemplo. Trata-se de um movimento distinto, mas a maioria quer que o ato criminoso seja coibido. Infelizmente, no episódio do Leblon, a polícia viu o crime acontecendo e não agiu. O recado da polícia foi o seguinte: agora eu vou dar porrada em todo mundo — disse Baía.
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Eloísa Samy - advogada - RJ |
Advogada: há pessoas infiltradas
A advogada Eloísa Samy, que presta auxílio jurídico voluntário aos manifestantes, acompanhou alguns protestos e conhece bem os grupos. Ontem, na página na internet dos Black Bloc RJ, ela fez um apelo para que seus integrantes procurassem coibir saques e depredações. Ao GLOBO, ela disse que há pessoas infiltradas nos protestos, com o objetivo de desmoralizá-los.
— O que eu vi foram cerca de dez pessoas infiltradas e insuflando as outras, com sangue nos olhos. Vários manifestantes tentaram evitar que isso acontecesse, mas não deu para segurar. Tinha bandido no meio — disse a advogada. — As pessoas precisam saber que essa situação (de vandalismo) pode acarretar um estado de sítio. O movimento não pode parar.
Eloísa defendeu o Black Bloc, ressaltando que os vândalos não se vestiam totalmente de preto.
— Não conheço os Black Bloc pelo nome, mas é fácil de identificá-los.
Fonte: O GLOBO - Publicado: 19/07/13 às 5h00 - Atualizado: 19/07/13 às 9h45 - Internet: http://oglobo.globo.com/rio/entre-os-manifestantes-ha-ate-criminosos-afirma-sociologo-9093745
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