Lama e falta de planejamento alteram principais eventos do papa no Brasil

Fábio Grellet e Leonardo Maia


Lamaçal em que se transformou o Campus Fidei, onde seriam realizadas a vigília e a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude, na zona oeste do Rio, causou a transferência dos eventos para Copacabana
Campus Fidei - Campo da Fé - Guaratiba - Rio de Janeiro
O lamaçal em que se transformou o Campus Fidei, área onde seriam realizadas a vigília e a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude em Guaratiba, na zona oeste do Rio, levou os organizadores e a prefeitura a transferir os eventos para Copacabana, bairro da zona sul que já recebeu as primeiras cerimônias da JMJ. O jornal O Estado de S. Paulo adiantou quarta-feira, 24, que a área já sofria com as chuvas e a programação poderia sofrer alterações.

A mudança obriga a prefeitura a reorganizar as estruturas de transporte, segurança e atendimento médico, e aumenta as dúvidas sobre a capacidade para organizar grandes eventos. Esse foi o terceiro contratempo enfrentado pela organização da Jornada desde que o papa chegou à cidade. 
  • Primeiro, houve um erro de trajeto, que deixou o pontífice preso em um congestionamento, na segunda-feira. 
  • No dia seguinte, uma pane no metrô e a superlotação do transporte público dificultaram o deslocamento dos peregrinos que foram à abertura oficial em Copacabana.
Por causa da mudança anunciada na quinta-feira, 25, foram descartadas duas etapas da programação: a peregrinação (uma caminhada de 13 km para chegar ao Campus Fidei) e a vigília que duraria a noite inteira, entre o sábado e o domingo. Agora, a programação será interrompida no sábado, após a Vigília de Oração com o papa Francisco (que começará às 19h30 de sábado), e retomada às 10h de domingo, quando o pontífice vai celebrar a missa de encerramento. Essas cerimônias ocorrerão no mesmo palco onde Francisco esteve na noite de quinta.

Embora a região de Guaratiba seja constantemente úmida e sujeita a alagamentos, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), não considerou um erro a escolha do local. "Não podemos avaliar este evento como os outros", disse. Ele também ressaltou não ter "problemas em admitir nossos erros (citando as falhas no trajeto do papa e no sistema de transporte)". E citou a imprevisibilidade do clima, dizendo que, neste período do ano, o principal problema da cidade costuma ser a seca.

Dom Paulo Cesar Costa, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio, admitiu que a mudança na programação frustrou o papa Francisco. "É uma dor muito grande (transferir o evento de Guaratiba), por todo o trabalho que fizemos por lá", disse. Mas, ao saber dos problemas, "o papa apoiou a mudança".
Lamaçal cobre todo o "Campo da Fé" em Guaratiba - Rio de Janeiro
Prejuízo
Dom Paulo afirmou que ainda não sabe quanto foi gasto para preparar o Campus Fidei. Guaratiba foi escolhida em 2012. Além do grande espaço livre, pesou na escolha o fato de a Igreja querer promover parte da JMJ em uma área pobre do Rio. O terreno do Campus Fidei tem 2 milhões de m² e foi cedido gratuitamente por seus donos, entre eles Jacob Barata Filho, dono de empresas de ônibus.

Em troca, os donos se beneficiaram com obras de terraplanagem e de infraestrutura feitas no entorno. Paes afirmou que o único gasto da prefeitura foi com a dragagem dos rios de Guaratiba. Os outros gastos foram do Comitê Organizador Local, disse. "Mas não vou transformar a visita do papa em um jogo de contabilidade, de ganhos econômicos."

Fonte: O Estado de S. Paulo - Metrópole - Sexta-feira, 26 de julho de 2013 - Pg. A13 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,lama-e-falta-de-planejamento-alteram-principais-eventos-do-papa-no-brasil,1057349,0.htm
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ANÁLISE DE UM TÉCNICO:
Sem chuva, seriam necessários 5 dias para secar lamaçal
Prof. Francisco José Corrêa Martins - UFRRJ

Mesmo se a chuva no Rio parasse agora, seriam necessários cinco dias ininterruptos de sol e vento, nas melhores condições climáticas possíveis, para que o lamaçal formado no Campus Fidei, em Guaratiba, na zona oeste da cidade, secasse e ganhasse condições de receber fiéis.

A estimativa é de Francisco Martins, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ). Segundo o especialista, a região de Guaratiba tem origem em um manguezal que se estendia por dezenas de quilômetros nos fundos da Baía de Sepetiba, que banha a zona oeste do Rio e outros municípios da região metropolitana. Entre 20 mil e 10 mil anos atrás, essa área de baixada era ocupada pelo mar. A redução natural do nível do mar, acelerada, no século 20, pelos aglomerados urbanos que ocuparam as áreas de aterro, tornou a área seca, mas sujeita a enchentes.

Martins explica que o solo argiloso, com lençóis freáticos muito próximos da superfície, dificulta o escoamento da água da chuva. "O solo daquela região é uma mistura de camada fina de areia com muita argila. Se a argila fica impregnada de água, torna-se impermeável e não absorve a chuva", disse.

Embora julho seja um mês menos chuvoso no Rio, a escolha de Guaratiba para o Campus Fidei pode ter sido arriscada, na visão do professor. Isso porque, para preparar adequadamente o solo a fim de receber os peregrinos, seria necessário gastar até R$ 100 milhões. Seria preciso: 
  • cobrir o solo com pelo menos 40 centímetros de brita ou 
  • instalar pranchões de metal.
  • "Sem essa preparação, era previsível que haveria problemas com a chuva", afirmou. 
Fonte: O Estado de S. Paulo - Metrópole - Sexta-feira, 26 de julho de 2013 - Pg. A13 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sem-chuva-seriam-necessarios-5-dias--para-secar-lamacal-,1057383,0.htm

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