Lama e falta de planejamento alteram principais eventos do papa no Brasil
Fábio Grellet e Leonardo Maia
Lamaçal em que se transformou o Campus Fidei, onde seriam realizadas a vigília e a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude, na zona oeste do Rio, causou a transferência dos eventos para Copacabana
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Campus Fidei - Campo da Fé - Guaratiba - Rio de Janeiro |
A mudança obriga a prefeitura a reorganizar as estruturas de transporte, segurança e atendimento médico, e aumenta as dúvidas sobre a capacidade para organizar grandes eventos. Esse foi o terceiro contratempo enfrentado pela organização da Jornada desde que o papa chegou à cidade.
- Primeiro, houve um erro de trajeto, que deixou o pontífice preso em um congestionamento, na segunda-feira.
- No dia seguinte, uma pane no metrô e a superlotação do transporte público dificultaram o deslocamento dos peregrinos que foram à abertura oficial em Copacabana.
Embora a região de Guaratiba seja constantemente úmida e sujeita a alagamentos, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), não considerou um erro a escolha do local. "Não podemos avaliar este evento como os outros", disse. Ele também ressaltou não ter "problemas em admitir nossos erros (citando as falhas no trajeto do papa e no sistema de transporte)". E citou a imprevisibilidade do clima, dizendo que, neste período do ano, o principal problema da cidade costuma ser a seca.
Dom Paulo Cesar Costa, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio, admitiu que a mudança na programação frustrou o papa Francisco. "É uma dor muito grande (transferir o evento de Guaratiba), por todo o trabalho que fizemos por lá", disse. Mas, ao saber dos problemas, "o papa apoiou a mudança".
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Lamaçal cobre todo o "Campo da Fé" em Guaratiba - Rio de Janeiro |
Dom Paulo afirmou que ainda não sabe quanto foi gasto para preparar o Campus Fidei. Guaratiba foi escolhida em 2012. Além do grande espaço livre, pesou na escolha o fato de a Igreja querer promover parte da JMJ em uma área pobre do Rio. O terreno do Campus Fidei tem 2 milhões de m² e foi cedido gratuitamente por seus donos, entre eles Jacob Barata Filho, dono de empresas de ônibus.
Em troca, os donos se beneficiaram com obras de terraplanagem e de infraestrutura feitas no entorno. Paes afirmou que o único gasto da prefeitura foi com a dragagem dos rios de Guaratiba. Os outros gastos foram do Comitê Organizador Local, disse. "Mas não vou transformar a visita do papa em um jogo de contabilidade, de ganhos econômicos."
Fonte: O Estado de S. Paulo - Metrópole - Sexta-feira, 26 de julho de 2013 - Pg. A13 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,lama-e-falta-de-planejamento-alteram-principais-eventos-do-papa-no-brasil,1057349,0.htm
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ANÁLISE DE UM TÉCNICO:
Sem chuva, seriam necessários 5 dias para secar lamaçal
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Prof. Francisco José Corrêa Martins - UFRRJ |
Mesmo se a chuva no Rio parasse agora, seriam necessários cinco dias ininterruptos de sol e vento, nas melhores condições climáticas possíveis, para que o lamaçal formado no Campus Fidei, em Guaratiba, na zona oeste da cidade, secasse e ganhasse condições de receber fiéis.
A estimativa é de Francisco Martins, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ). Segundo o especialista, a região de Guaratiba tem origem em um manguezal que se estendia por dezenas de quilômetros nos fundos da Baía de Sepetiba, que banha a zona oeste do Rio e outros municípios da região metropolitana. Entre 20 mil e 10 mil anos atrás, essa área de baixada era ocupada pelo mar. A redução natural do nível do mar, acelerada, no século 20, pelos aglomerados urbanos que ocuparam as áreas de aterro, tornou a área seca, mas sujeita a enchentes.
Martins explica que o solo argiloso, com lençóis freáticos muito próximos da superfície, dificulta o escoamento da água da chuva. "O solo daquela região é uma mistura de camada fina de areia com muita argila. Se a argila fica impregnada de água, torna-se impermeável e não absorve a chuva", disse.
Embora julho seja um mês menos chuvoso no Rio, a escolha de Guaratiba para o Campus Fidei pode ter sido arriscada, na visão do professor. Isso porque, para preparar adequadamente o solo a fim de receber os peregrinos, seria necessário gastar até R$ 100 milhões. Seria preciso:
- cobrir o solo com pelo menos 40 centímetros de brita ou
- instalar pranchões de metal.
- "Sem essa preparação, era previsível que haveria problemas com a chuva", afirmou.
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