DE OLHO NOS BASTIDORES DA POLÍTICA BRASILEIRA
Muito além do mercado
Dora Kramer
Quando a presidente Dilma Rousseff anunciar a composição da nova equipe econômica,
estará transmitindo uma mensagem ao mundo, ao Brasil, mas também ao
ex-presidente Luiz Inácio da Silva. Para
fora, a escolha sinalizará o rumo de governo; para dentro, a qualidade da relação entre os dois no transcorrer
dos próximos anos.
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Presidente Dilma Rousseff & Luís Inácio Lula da Silva (ex-presidente da República) |
No momento em que ficou claro para Lula que Dilma não
abriria espaço para se discutir a possibilidade de troca de candidato [à Presidência da República nas eleições de
outubro passado] e que Rui Falcão interditava de vez esse debate nas
internas do partido, o ex-presidente deu por encerrado o assunto que até então
(meados do ano) chegara a abordar com clareza com petistas, com lideranças do
PMDB - José Sarney, especificamente -, mas jamais tocara com Dilma Rousseff.
A preocupação dos defensores da "volta" [de Lula como candidato a Presidente] era
com a possibilidade da derrota ou com um possível desastroso segundo mandato.
Não se sabe exatamente até hoje por qual razão, provavelmente constrangimento
pessoal, Lula recusou-se a usar sua força política para deflagrar o processo,
embora emitisse sinais de que não desestimularia o movimento se ele ganhasse
corpo no partido.
Não foi o que aconteceu. Lula não passou recibo e, por mais
que tenha havido desmentidos sobre o afastamento dos dois, fato é que se ele conhecesse Dilma no poder como veio
a conhecer, provavelmente não teria feito dela a candidata à sua sucessão.
Pelo seguinte: na condição de subordinada, era uma pessoa. Ao assumir o posto
de chefe da Nação, mostrou-se outra completamente diferente. Semelhante àquela
de temperamento autoritário cujos ouvidos só escutam a própria fala.
Daí a explicação para os longos períodos de silêncio do
ex-presidente durante a campanha eleitoral. Entrou quase na reta final quando a
própria Dilma se convenceu de que, sem a ajuda dele no Nordeste e na periferia
das grandes cidades, a derrota seriam favas quase certamente contadas. Pois
bem: seria esse socorro suficiente para
que a presidente reeleita se dobrasse à evidência de que sozinha não faz frente
às necessidades do bom exercício da Presidência?
Há quem confie e quem duvide. Lula está entre os que têm
certeza. Consumada a vitória, o ex-presidente assegurou a um dos interlocutores
encarregados daquela difícil e delicada tarefa de tentar encaminhar a troca de
candidato que "faria" a equipe econômica. Ou seja, convenceria Dilma
a indicar para o ministério da Fazenda e o Banco Central pessoas comprometidas
com a estabilidade econômica e, portanto, com o restabelecimento da
credibilidade do governo. Na ocasião, o confidente alertou: "Ela não vai
seguir a sua orientação, e o senhor vai se arrepender". Lula retrucou com
segurança: "Fique tranquilo, Dilma não tem outra saída".
Dessa conversa é que se depreende o quanto ficará demarcada a influência de Lula no segundo mandato de
Dilma, a depender da escolha da equipe econômica. Da incerteza de que a
presidente adotará um modo agregador de governar, à maneira do ex-presidente, é
que decorrem as insatisfações manifestadas de forma explícita pelo PT. O
partido aquietou-se ao perceber que Lula não tomava à frente do movimento para
afastar a candidatura de Dilma à reeleição e que o presidente do PT, Rui
Falcão, se mantinha firmemente aliado à presidente.
Em recente reunião, o partido reclamou a escalação de um
ministério "mais qualificado", mais diálogo com o Planalto e
participação no encaminhamento de assuntos de interesse do governo no
Congresso. Fica aí subentendido que o PT
preferia mesmo é que o presidente eleito tivesse sido Lula. Não por outro
motivo a não ser o de que, com ele, se sentiam a bordo de um projeto com
comando e por todos perfeitamente conhecido. Com Dilma, a sensação é a de que estão embarcados em uma nau sem rumo.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Economia & Negócios – Quarta-feira, 19 de novembro de 2014 –
Pg. B1 – Internet: clique aqui.
De repente
Ruy Castro
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Ruy Castro - jornalista |
De quinze em quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu
nos últimos quinze anos, decretou o jornalista, escritor e pensador –malgré
lui– Ivan Lessa (1935-2012). Dura
lex, mas que pode ter um corolário ainda mais cruel: quando uma nova situação
se instala, a anterior deve ser contestada, diminuída e, o mais rápido
possível, evaporada dos anais. Sobram exemplos entre nós.
A República, por
exemplo. Instaurada em 1889, dedicou-se a desmerecer tudo que viera da Monarquia – inclusive o fato de sua
pregação demolidora ter sido amplamente garantida pelo mais democrático
governante brasileiro, D. Pedro 2º. Bem feito que, em 1930, vitoriosa a
Revolução que entronizou Getulio, aquela República belle époque passaria a ser
chamada de República Velha e também
se tornaria sinônimo de atraso político, corrupção eleitoral e mesmice social.
E não só no terreno político. A Semana de Arte Moderna disseminou o mito de que, com raras
exceções, toda a literatura brasileira pré-1922 era desprezível e o Modernismo viera para salvá-la. Idem
quanto à bossa nova – alguns de seus
adeptos acreditam que tudo que aconteceu na música brasileira até 1958 foi
apenas uma preparação para que João Gilberto gravasse "Chega de
Saudade". Nada disso é verdade.
Mas é na política que essas lendas mais florescem. Quando o PT [Partido dos Trabalhadores]
chegou ao poder, em 2003, seus líderes
apegaram-se ao discurso de que o Brasil começava ali. "Nunca antes na
história desse país" etc. Conquistas então recentes, como o Plano Real, o
fim da inflação e a estabilização da moeda – mérito de seus adversários –,
foram apagadas. O passado não valia nada, não existia.
Agora, de repente, passou a valer. O PT quer dividir com o PSDB os malfeitos da Petrobras. Malfeitos,
aliás, que ele, o PT, teve 12 anos para,
como diz, "mandar investigar".
Fonte: Folha de S.
Paulo – Colunistas – 19/11/2014 – 02h00 – Internet: clique aqui.
Mudar para continuar
Janio de
Freitas
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Janio de Freitas - jornalista |
Um escândalo é um
escândalo, não é uma solução. O otimismo, que não é só de Dilma Rousseff, mas foi por ela
sintetizado na convicção de que o escândalo da Petrobras "pode mudar o
país para sempre" ao "acabar com a impunidade", já foi submetido
a muitos testes. E não passou por nenhum.
No caso extremo dessas esperadas mudanças a história oferece
a fileira de golpes de Estado, consumados ou não. A cada recuperação do regime
legal estuprado pelos militares, "nunca mais haveria golpe". Até vir
o seguinte.
Entre nós, na melhor hipótese, mudam-se os métodos. Já na
primeira eleição com princípios democráticos, pós-ditadura militar, exibiu-se o
golpe eleitoral preventivo. Solucionou o temido risco de violência civil, em
dimensão nacional, contra a conspiração e o golpe militar no caso da possível
eleição de Lula. Agora mesmo passeia pelas ruas de São Paulo uma gangue de
marcolas ideológicos pedindo um golpe sob a forma de impeachment.
Passa-se o mesmo com
a impunidade. Além de não acabar só porque a prisão de empreiteiros seria
exemplar, assume no próprio escândalo da Petrobras uma nova face, para
facilitar-lhe a permanência. A delação
premiada é uma forma de impunidade. O patife delata alguns comparsas,
devolvem o que ninguém sabe se é o todo do que furtaram, e vão viver em casa
como aposentados ricos (o que devolveram
não inclui o que ganharam com uso do dinheiro furtado, nem há quem saiba qual
foi esse ganho total). Em palavras de Rodrigo
Janot, que mantém um desempenho muito acima de seus dois últimos antecessores
como procurador-geral da República, e falou à Folha:
"Eu só não aceito perdão judicial [no acordo de
delação]. Se for um crime que tenha já [direito a] semiaberto, sempre que for
possível eu vou botar no aberto. Vá cumprir pena em casa, sem problema
nenhum".
Importante na delação
premiada não é a conduta criminosa, antissocial, é a recuperação do valor
furtado – o dinheiro ou o bem valioso posto como valor acima de todos. Só o
preconceito moral distinguirá o cidadão honesto do criminoso premiado pela
delação. E pelo investimento do furto, porque, entre os dois, o tolo não é ele.
Ainda assim, um outro otimismo ruiu aos primeiros
depoimentos de empreiteiros presos. Negaram-se a responder aos inquiridores,
contrariando a convicção dos controladores da Operação Lava Jato, exposta por
Rodrigo Janot, de que as prisões levariam os empreiteiros "a falar
mesmo". Se não respondem, não aceitam a delação premiada. Se não a
aceitam, o comprometimento dependerá de que o delator-acusador prove o que disse
ou investigações policiais consigam fazê-lo. Dificuldade que, no caso dos
grandes corruptores da administração pública, não costuma perturbar a
impunidade, aqui ou lá fora.
Fonte: Folha de S.
Paulo – Colunistas – 18/11/2014 – 02h00 – Internet: clique aqui.
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