RAZÕES DO PODER
Geraldo Alves
Teixeira Jr.*
"Ao fazer do
poder a única norma e seguir desenfreadamente seus desejos, governantes ou
governados abandonam a possibilidade de uma sociedade voltada para a boa vida e
a felicidade, e cegam-se com o excesso de luz de uma razão que produz delírios
egoístas e intolerância."
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Roberto Romano - Professor de Filosofia e Ética na UNICAMP |
Quem buscasse pelo termo razão de Estado nos discursos das
personalidades políticas ou dos chefes de Estado poderia julgar que o assunto é
irrelevante e ultrapassado. Surpreendente, contudo, é que esse juízo ressoe nas
universidades. Desafiando modismos, esse é o tema do novo livro do professor de
ética e filosofia na Unicamp, Roberto
Romano.
Os principais teóricos da razão de Estado pertencem aos
séculos XVI e XVII, e escrevem em reação aos conflitos religiosos europeus. Por
isso a razão de Estado não é apenas uma teoria, mas um discurso político e um
modo de agir que à época instigou comentários e debates políticos. Um
componente filosófico deve ser aí adicionado. Maquiavel era a referência
suprimida dos conselhos que aqueles autores - muitos deles católicos da
Contrarreforma - redigiam para os governantes. Ao extrapolar o maquiavelismo
eles compunham verdadeiros manuais para a conservação do poder.
Os textos da razão de
Estado são também um clamor por uma autoridade capaz de submeter todos e criar
ordem. O tom hobbesiano não é coincidência. Lê-se que no autor inglês a salus populi (bem-estar do povo) permite
“a transgressão, mas sem culpa, não condenável em direito”. Daí os princípios
do absolutismo. E do Estado.
Portanto, se as doutrinas da razão de Estado surgem para
lidar com uma conjuntura datada, sua prática não desaparece quando o Estado
consegue disciplinar as crenças nem quando é disciplinado pelas leis. A razão
de Estado alcança-nos “apenas” por esse elemento político que recorta o globo:
o Estado. Os Estados democráticos
herdaram tais princípios, que permitem a suspensão do direito em casos de
ameaças. Essa face mais visível da razão de Estado afirma que no limiar da
política o povo deve obedecer: “Na
essência da razão de Estado temos a prática habitual dos golpes, fruto direto
da promoção elitista e hostilidade contra a democracia”. Na exceção, o
governante deve fazer tudo para salvar o Estado. Aos governados resta o “ame-o
ou deixe-o”, uma expulsão do pacto social que pode significar o exílio ou o
assassinato. A recusa ao amor
incondicional produz os inimigos, que se sujeitam aos atos de hostilidade do
soberano, não um simples representante, mas a personificação do Estado. O l’État c’est moi [trad.: o Estado sou eu] ainda ecoa.
Romano ressalta que tais golpes não acontecem apenas quando
certos grupos desfilam armas e tanques ao assumirem o palácio. A essência dos golpes é o segredo e a ação
repentina. “Se os países socialistas, supostamente repúblicas populares,
quebram a base da accountability [trad.: responsabilidade,
prestação de contas] e da fé pública
em proveito dos governos, algo similar ocorre hoje na Europa e nos EUA. Nas
formas imperiais dirigidas pela Otan, nas políticas que restringem as
liberdades públicas nos EUA, como na Lei Patriótica, temos um avanço da razão
de Estado.” Com o avanço das leis e das
tecnologias de controle, a transparência e o segredo parecem se inverter, e
caminhamos para o padrão absolutista no qual “o governante acumula segredos
e deseja expor os súditos à luz perene”. Elemento antagônico do princípio de
responsabilidade, “o segredo é essencial para se refletir sobre a forma
democrática. Governos exasperam a prática de esconder os pontos maiores das
políticas no setor público. Entramos no
paradoxo: o público é definido fora do público”.
Ao fazer do poder a única norma e seguir desenfreadamente
seus desejos, governantes ou governados abandonam a possibilidade de uma
sociedade voltada para a boa vida e a felicidade, e cegam-se com o excesso de
luz de uma razão que produz delírios egoístas e intolerância.
A reflexão é valiosa para o nosso contexto político, pois a
tolerância é imprescindível para o sistema eleitoral: “É fácil para (o
adversário derrotado) dar-se por vencido. Ele não é castigado por sua atitude
hostil anterior. Caso se tratasse de colocar sua vida em jogo, ele reagiria de
forma complemente diferente ele conta porém com batalhas futuras. E o número
destas batalhas não tem limite fixado e ele não morre em batalha alguma”. O que
isso nos diz sobre os que, evocando um regime ditatorial, gritam pela eliminação
de certas ideias, partidos, e eleitores? O que a reflexão sobre a soberba nos
diz sobre autoridades públicas que, como os monarcas absolutistas, querem
aplicar a si o noli me tangere [trad.:
não me toques] quando as leis lhe
constrangem?
Discutindo a razão de
Estado, o livro evidencia o poder estatal em seu funcionamento regular e
excepcional. Conhecedor do tema como poucos, seu autor encadeia discussões
teológicas, narrativas literárias, e análises conceituais. E para o horror dos
que preconizam a filosofia pela filosofia, ele
aponta para a história e relaciona suas discussões às situações políticas
passadas ou presentes.
A razão de Estado não aparece atualmente porque está oculta
na política do segredo e da dissimulação.
Razão de Estado e outros Estados da Razão
cumpre então o propósito filosófico por excelência, de mostrar o que não está
aparente, e de inspirar-nos a pensar por meio de leituras minuciosas.
L
I V R O
Título: Razão de Estado e outros Estados da
Razão
Autor: Roberto RomanoEditora: Perspectiva
Publicação: novembro de 2014
Páginas: 296
Preço de capa: R$ 55,00
* Geraldo Alves Teixeira Jr., doutor em Filosofia pela Unicamp e
pós-doutorando UFG/Capes.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 23 de novembro de 2014 – Pg. – Internet: clique aqui.
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