“Estamos caindo na dimensão do fanatismo e da irracionalidade, estamos já à beira do abismo”
Entrevista
com David Grossman
Fabio Scuto
La Repubblica (Roma – Itália)
19-11-2014
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David Grossman - escritor israelense |
“Estamos caindo na dimensão do fanatismo e da
irracionalidade, estamos já à beira do abismo”.
A dor é palpável nas palavras de David
Grossman, o escritor israelense voz de uma geração que sonha com a paz na
Terra Santa jamais parou de acreditar, hoje não consegue mais enxergar a mesma
esperança. “O conflito que estamos vivendo deu uma passo para trás, está cada
vez mais brutal, mais selvagem. As mesmas armas usadas para massacrar, facas e
espadas, testemunham o retorno à uma guerra tribal”.
Mas até agora o terror sanguinário passava as portas
sagradas de uma sinagoga. Um massacre que nos deixa consternados...
“Um profundo sentimento de dor e raiva se misturam para os
assassinatos de pessoas inocentes, no momento da oração matinal, atingidos ao
acaso, às cegas, somente porque eram israelenses e judeus. Mas sinto também uma
grande frustração em ver, dia após dia, novas vítimas em ambas as partes.
Mortos, feridos, atingidos ou raptados por este círculo vicioso de violência e
de ódio, que envolve na sua volta cada vez mais pessoas e que está se transformando de conflito político,
que talvez ainda exista uma pequena possibilidade de se resolver, em conflito
religioso, fundamentalista e com consequências irracionais e primordiais.
Conflitos deste tipo, pela sua própria natureza, seguem no
tempo e são de difícil solução. No curso dos anos, várias pessoas e
organizações, sejam israelenses ou palestinas, tentam de forma quase
desesperada chegar a uma solução do conflito, enquanto ainda estava na sua fase
política: a ideia que estava por trás deste grande esforço era tal que não se
podia consentir que fossem focados a irracionalidade e o fundamentalismo”.
Eis a entrevista.
A Cidade Santa para as três
religiões é o símbolo desta tormenta?
David Grossman: “Isso
que vemos hoje em Jerusalém, dia após dia, e quase que hora após hora, é uma
precipitação perigosíssima às dimensões do fanatismo e da irracionalidade. Será
então muito mais difícil agora, do que antes, procurar uma solução do conflito
e talvez isso seja o motivo e a deixa para os líderes dos dois povos agirem
imediatamente e com máxima potência, iniciando um processo de diálogo entre si
ao invés de se insultarem e se ocupar de vinganças, incitando ainda mais o
ódio”.
Existe o perigo de um contágio com
as outras crises da região?
David Grossman: “Certamente,
e se vê ainda como um extremismo bárbaro originado na IS, que introduziu os modos de operação do tipo daquele que hoje
somos testemunhas – pessoas que são mortas a golpes de machado, de uma maneira
verdadeiramente bestial – está se infiltrando no conflito entre Israel e
Palestina. Era quase possível prever que aconteceria, uma vez que a nossa
situação está sem solução, tão cheia de emoções que quando se concretiza um
determinado modus operandi nos nossos
vizinhos mais próximos, os fanáticos locais o adotam imediatamente. Posso então
dizer que provo dessa mesma repulsão e o mesmo desânimo que foi provado a 20
anos atrás, quando em fevereiro de 1994, Baruch
Oldstein assassinou em Hebron 29 fiéis muçulmanos na mesquita da Tumba dos
Patriarcas”.
Além da evidente responsabilidade
dos dois terroristas, você acredita que existam também responsabilidades
políticas neste ocorrido?
David Grossman: “Sim,
acredito que grande parte da responsabilidade destes assassinatos, de um lado e
do outro, pese sobre os ombros daqueles não fizeram praticamente nada para
mudar a situação, ou, na melhor das hipóteses, fizeram muito pouco: aqueles que
falam somente com a linguagem da força, aqueles que não fazem outro que crescer
o ódio entre os dois povos, aqueles que, definitivamente, primeiramente se
desesperam levando ao desespero o próprio povo, negando qualquer possibilidade
de se chegar a um acordo. Eles condenam os seus compatriotas à ações ditadas
pelo desespero e pelo ódio. Nem Abu
Mazen nem Netanyahu são
responsáveis pela cadeia de assassinatos dos últimos tempos e certamente nenhum
dos dois os quis, mas a sua falta de ação e de esforços leva a esta situação. O
próprio fato que, já há muitos meses, para não falar dos últimos 47 anos, não
foram tratados como sérias tentativas de resolução da situação, leva a uma
escalada dela mesma”.
A imobilidade é o primeiro inimigo
para a solução da crise entre Israel e Palestina?
David Grossman: “Sim,
ao invés de ir pra frente, de procurar novas vias de diálogo, de remover cada
obstáculo para encontrar pontos de acordo possíveis, e existem muitos, do tipo
que vemos atualmente, como conflitos nos quais nos encontramos retrocede no
tempo, torna sempre mais brutal, mais selvagem As mesmas armas usadas, facas e
machados, testemunham o retorno a uma guerra tribal. Os líderes dos dois povos,
quando ainda era possível evitar tudo isso, não fizeram nada. Pior que isso,
cometeram todos os erros possíveis, usaram todas as desculpas possíveis para
não falar e não chegar a um comprometimento. E por isso temo que agora, todos
nós devamos enfrentar um período muito difícil”.
Está chegando uma Terceira Guerra
[Intifada]?
David Grossman: “Como
uma pessoa que nasceu e vive aqui já há muitos anos, conheço muito bem os
mecanismos da violência, como seria fácil prendê-la e quanto seria difícil
aquietá-la. A tradição hebraica, como repetiu o rabino chefe de Israel, veta
aos hebreus a subida ao Monte do Templo, onde hoje surgem as Mesquitas.
Referente a esta tradição, que não é uma lei do Estado, mas um preceito
religioso aceito pelos hebreus de todas as gerações sem destruir o Templo desde
o ano 70 d.C., foi criado um status que foi respeitado também pelos governos do
Estado de Israel. Ariel Sharon, com a sua ‘caminhada’ provocatória em 2000,
desencadeou a segunda ‘Intifada’. Hoje vemos novamente políticos exponenciais
de direita subirem nas Explanadas, com a intenção precisa de provocação.
Trata-se de uma postura bélica, irresponsável e perigosa, que pode ainda
agravar uma situação já por si só explosiva e nos levar à beira do precipício”.
Traduzido do italiano por Ivan Pedro Lazzarotto.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 21 de novembro de 2014 –
Internet: clique aqui.
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