ECONOMIA: QUAL CAMINHO SEGUIR?
Economistas alertam para o risco de políticas
contracionistas
Entrevista
com Carlos Pinkusfeld
Patricia
Fachin
"A primeira coisa a fazer é abrir mão, no curto prazo, de uma meta
de superávit fiscal que não é factível", sugere o economista.
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Carlos Pinkusfeld - economista da UFRJ |
O manifesto assinado por alguns economistas brasileiros logo
após as declarações da presidente Dilma e do ministro da Fazenda, Guido
Mantega, acerca de corte de gastos no próximo ano, “não tem uma meta nem um
alvo; é mais uma indicação para que o governo não execute políticas
contracionistas fiscais e monetárias no início do novo mandato”, explica Carlos
Pinkusfeld à IHU On-Line.
Segundo ele, “o manifesto sugere que o governo não tenha uma
proposta fixa no sentido de dizer que o superávit tem de ser “x”, que a taxa de
crescimento do gasto tem de ser “x”. Trata-se de um manifesto contra a adoção
de políticas de restrição fiscal e uma política monetária muito apertada. Trata-se, portanto, de se antepor a uma
ideia que tem sido divulgada através da imprensa de que determinadas medidas
seriam inevitáveis, ou as únicas medidas possíveis. Não só tais políticas
devem ser evitadas, porque não trarão nada de bom, como possivelmente jogarão a
economia em uma recessão”, adverte.
O economista lembra que políticas contracionistas eram
defendidas por especialistas que apoiavam a candidatura de Aécio Neves. “Então,
não faz muito sentido agora adotar políticas que eram mais caras ao candidato
Aécio Neves do que são à candidata Dilma Rousseff”. E alfineta: “Também não é
hora de dar algum choque de custo mais geral, porque o governo já vai ter de
dar um choque de custo: a energia elétrica vai ter de subir, a gasolina já
subiu, o óleo diesel também. Dar mais choque de custo via expressiva desvalorização
do câmbio é imprudente na atual condição”.
Carlos Pinkusfeld assinala que “não está claro, e é bom que seja esclarecido”, o que o governo está
entendendo por corte de “gasto social”. Para ele, as contenções
provavelmente estarão relacionadas aos investimentos em infraestrutura,
especialmente ao PAC. “Acho que tem um mal-entendido nessa discussão, como se o
gasto social fosse apenas para medidas compensatórias, medidas de benefício
social direto para extratos da população mais fragilizadas. Mas, na verdade, o
gasto social, o gasto público para obras como o São Francisco, para
hidrelétricas, é muito social, porque sem isso não tem nada, não tem país, não
tem infraestrutura. Nesse sentido, acho que as mudanças serão em relação aos
gastos em infraestrutura, o que é muito ruim, porque cortando isso, se corta
justamente a possibilidade de se ter o crescimento sustentável com uma
capacidade produtiva correta”, critica.
De acordo com ele, o corte de gastos no próximo mandato pode
gerar uma recessão na economia. Portanto, no segundo mandato da presidente
Dilma, é fundamental investir em
políticas industriais e comerciais agressivas e “relaxar a política fiscal”,
sem preocupação excessiva pela busca do equilíbrio fiscal. “Em curto prazo não
há nenhuma razão para buscar equilíbrio fiscal na atual conjuntura. Tem de ter,
sim, algum desequilíbrio fiscal, porque a economia está entrando em possível
recessão, e recessão é como uma espiral. Quando
se tem recessão, diminui a arrecadação, aumenta o déficit, corta-se o gasto, e
assim se começa a andar para trás, e a economia começa a entrar em um ciclo
deflacionário. Poderia-se usar como metáfora uma pessoa que fica deprimida
e que se não toma um remédio, no caso da economia esse remédio é uma política
fiscal anti cíclica, vai até o fundo do poço e pode até se suicidar”, conclui.
Carlos Pinkusfeld
é mestre em Economia pelo Instituto de
Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e doutor pela New School University. Atualmente
leciona na UFRJ.
IHU On-Line - Em que consiste o “Manifesto
dos Economistas pelo Desenvolvimento e pela Inclusão Social”? Ele tem alguma
proposta alternativa para a política econômica?
Carlos Pinkusfeld –
O manifesto não tem uma proposta específica, não tem uma meta nem um alvo; é
mais uma indicação para que o governo não execute políticas contracionistas
fiscais e monetárias no início do novo mandato. Ou seja, o manifesto sugere que
o governo não tenha uma proposta fixa no sentido de dizer que o Superávit tem
de ser “x”, que a taxa de crescimento do gasto tem que ser “x”. Trata-se de um manifesto contra a adoção de
políticas de restrição fiscal e uma política monetária muito apertada. Trata-se,
portanto, de se antepor a uma ideia que tem sido divulgada através da imprensa
de que determinadas medidas seriam inevitáveis, ou as únicas medidas possíveis.
Não só tais políticas devem ser evitadas, porque não trarão nada de bom, como
possivelmente jogarão a economia em uma recessão.
Assim, o manifesto é menos uma proposta e mais um pedido,
uma indicação ou uma observação para que o governo não adote medidas fiscais
contracionistas, porque isso pode jogar a economia, que já está quase
estagnada, em uma recessão. Tais políticas contracionistas terão um efeito – se
tiverem – muito limitado no combate à inflação. A eleição foi marcada por uma
polarização onde esse tipo de proposta era muito cara ou era muito defendida
inclusive por quem apoiava o candidato Aécio Neves. Então, não faz muito
sentido agora adotar políticas que eram mais caras ao candidato Aécio Neves do
que são à candidata Dilma Rousseff.
IHU On-Line – Existem indícios de
haver retrocessos principalmente em relação às políticas sociais? Por quais
razões os economistas consideraram prudente publicar este manifesto logo após
as eleições, considerando que ao longo das eleições se falaram em dois projetos
distintos?
Carlos Pinkusfeld –
Vou falar de forma abstrata, porque nada foi feito ainda concretamente. O
manifesto se contrapõe a declarações que ouvimos da presidente e do próprio
ministro Guido Mantega, em relação à hipótese de corte de gastos. Por causa das
declarações dela recentemente em uma entrevista a imprensa, e por causa de
declarações dele, apesar de ele não ser o ministro da Fazenda no novo mandato,
há fortes indícios de que vai haver corte de gastos.
Agora, o que não está claro, e é bom que seja esclarecido, é
que esse gasto a ser cortado está sendo chamado degasto social. À primeira
vista parece que se refere ao gasto com o Bolsa Família. Só que a aposentadoria
também é gasto social. Entretanto, é mais difícil fazer cortes na
aposentadoria, porque para isso é preciso aprovar uma lei.
Então, pensando do ponto de vista da previdência como um
todo, descontados esses ajustes pontuais, não acho que possa haver uma mudança,
um novo fator previdenciário, por exemplo. Pelo lado do programa Bolsa Família
também não consigo ver, em curto prazo, uma mudança muito significativa. Só que
o problema é que o aumento do superávit
primário, que despencou recentemente, não despencou porque houve aumento de
gastos sociais, mas porque houve uma queda grande na arrecadação tributária,
porque a economia desacelerou e porque o único componente de gasto que aumentou
de uma forma expressiva foi justamente o PAC [Programa de Aceleração do
Crescimento].
Ou seja, quando se fala em corte de gastos, o que poderia
ser atingido seria o PAC. Mas você pode chamar o PAC de gasto na área social se
referir-se ao Minha Casa, Minha Vida, mas tem muitas obras do PAC que são muito
importantes para a sociedade e que não estamos chamando de social. Acho que tem
um mal-entendido nessa discussão, como se o gasto social fosse apenas para
medidas compensatórias, medidas de benefício social direto para camadas de
extratos da população mais fragilizadas.
Mas, na verdade, o gasto social, o gasto público para obras
como o São Francisco, para hidrelétricas, é muito social, porque sem isso não
tem nada, não tem país, não tem infraestrutura. Nesse sentido, acho que as
mudanças serão em relação aos gastos em infraestrutura, o que é muito ruim,
porque cortando isso, se corta justamente a possibilidade de se ter o
crescimento sustentável com uma capacidade produtiva correta.
Agora, independente
de se é social ou não social, quando se reduz o gasto em uma economia que está
patinando, que está muito devagar, é muito provável que haja uma recessão.
E o efeito social de uma recessão é péssimo, porque gera desemprego, falta de
poder de barganha dos trabalhadores, ou seja, a recessão é muito antissocial
nesse sentido, é muito contra a sociedade como um todo e mais ainda com as
parcelas mais frágeis da sociedade, que vão ficar desempregadas. Então, nós
temos que abrir um pouco esse termo social para colocar a sociedade como um
todo.
Além dos gastos com
infraestrutura, não consigo imaginar qual outro gasto o governo pode cortar.
Porque, por exemplo, o custo do salário dos funcionários públicos está
estagnado, a previdência só pode ser alterada por lei e não vai crescer muito
porque o salário mínimo não cresce pela lei corrente, em termos reais, quando
economia está estagnada. O único componente que cresceu de fato no gasto
federal foi o componente com as desonerações e o gasto do PAC. Mas se cortar o gasto do PAC, primeiro se
pode jogar a economia em uma recessão e, segundo, compromete a infraestrutura
daqui para frente. Em médio prazo se compromete a própria capacidade de
crescer, como se vê agora.
O Brasil não fez uma refinaria de petróleo em cerca de 40
anos, e agora importamos gasolina à toa, por incompetência de vários governos
que não fizeram refinarias. O Brasil importa produto químico porque não fez
fábrica de produto químico, tem problemas de apagão porque não fez
hidrelétrica, começa a ter problema de custo porque não fez novas estradas.
IHU On-Line - Como evitar cortes,
aumentar a arrecadação e criar possibilidades de crescimento e desenvolvimento?
Carlos Pinkusfeld –
A primeira coisa a fazer é abrir mão, no curto prazo, de uma meta de superávit
fiscal que não é factível. O superávit primário, que todo mundo discute, é
resultado do gasto menos a arrecadação. O problema é que o gasto é definido
pelo governo e a arrecadação não; o que o governo define é uma carga
tributária, isto é, quanto nós pagamos de impostos, 27,5%, por exemplo, ou
quanto é o IPI sobre o automóvel. Agora, o quanto o governo vai arrecadar
depende desta variável do imposto que ele definiu e do desempenho da economia.
Como o crescimento da economia, por várias razões, vai mal, a arrecadação foi
menor e o superávit, que era um superávit forte, despencou.
Se olhar para a taxa de crescimento de gasto do governo
Lula, esse crescimento foi muito maior do que no governo Dilma. O crescimento
do gasto do segundo governo Lula foi muito maior do que no governo Dilma, e o
superávit também foi muito maior. Por quê? Porque houve um aumento da
arrecadação. Então, não houve uma mudança terrível da política fiscal. Não, o
que mudou foi uma desaceleração grande da economia no governo Dilma. Quer
dizer, não mudou em razão da decisão do governo em relação aos gastos. Ocorre
que a receita fiscal depende do conjunto da economia: se a economia está
melhor, com muito mais pessoas trabalhando, a receita tributária é maior.
Então, o primeiro ponto é esse, abrir mão, em curto prazo,
de um superávit fiscal que é muito grande. Com isso vai haver, certamente, um
aumento da dívida líquida, o que não é problema. A maioria dos países tem
dívidas muito maiores. Como a economia
está estagnada, o governo vai deixar que a política fiscal fique mais frouxa
para que a economia volte a crescer um pouco. Quando ela volta a crescer,
naturalmente esse superávit desaparece, é quase automático.
Desonerações
O segundo ponto, que é mais complicado do ponto de vista político,
é que algumas desonerações sobre a folha de salário foram muito ineficientes.
Então, essas desonerações vão ter de
ser, aos poucos, eliminadas. Agora, como se faz isso politicamente? Não
sei. É um ponto politicamente delicado, mas é inevitável porque a estratégia do governo de desonerações foi
um fracasso, e não é a primeira vez que isso acontece. As pessoas têm fé
demais no interesse do empresário de investir, e quando a economia desacelera,
ninguém é culpado, mas o empresário não investe porque a economia está
desacelerando.
Então, possivelmente, do lado da receita, o governo terá ou
pelo menos deveria limitar ou reduzir as desonerações que deu no período do
primeiro governo Dilma, ou seja, mudar de estratégia. Obviamente que, na medida
em que se reduzem essas desonerações, se passa a arrecadar mais, e arrecadando
mais, não precisa ter um déficit primário tão grande. É muito mais interessante para o governo gastar mais e tirar a
desoneração, porque quando se gasta, por exemplo, se contratam pessoas para
trabalhar e essas pessoas gastam. Quando se faz uma desoneração, se supõe
que o empresário vai gastar, mas ele não vai gastar. Por que o empresário vai
investir com a economia parada? Se ele investisse, seria um péssimo empresário.
Então, nesse momento a desoneração é completamente ineficiente, se tirar a desoneração e transformar em
gastos, vai ter um impacto macroeconômico maior e vai ser bom para o empresário.
A economia vai crescer mais e ele vai poder pensar em investir. A estratégia
deve abandonar uma meta de superávit primário, deixar eventualmente até ter
déficit primário, e a consequência disso é o crescimento limitado de uma dívida
pública que é muito pequena. Depois disso, tem de ver a reação da economia e
limitar pelo lado da receita as desonerações fiscais que foram uma política não
muito bem sucedida do governo Dilma.
IHU On-Line - O governo precisa de
uma meta de arrecadação para equilibrar as contas e evitar cortes e ajustes
fiscais?
Carlos Pinkusfeld –
As contas já não estão equilibradas, e é bom que se diga isso. O que o Brasil
vem tentando fazer é ter um superávit primário entre todos os gastos e todas as
receitas, não de juros, e tenta compensar o pagamento de juros com isso. O
Brasil já não tem superávit agregado (que é o primário mais os juros) há algum
tempo.
Com uma nova política, o que aconteceria? Aumentaria um
pouquinho o déficit, cerca de 1% do PIB. É bom dizer que o mundo inteiro faz
isso. Por que o Brasil não pode fazer? Segundo dados do FMI a média do déficit
primário dos países desenvolvidos entre 2009 e 2013 foi de 4,92% do PIB, na
área do Euro 2,1%, nos EUA 7,66%. Você olha uma lista dos países e a maioria
deles está negativo. Por que o Brasil
tem essa maluquice de não poder ter déficit primário? Como um país
praticamente estagnado vai ter superávit primário? Parece que estamos no início
dos anos 1930, quando depois do crack de 1929 políticas contracionistas
ajudaram a jogar o mundo numa Grande Depressão. Não faz sentido, quando o país está em uma recessão ou na bica de uma
recessão, como é o caso do Brasil, fazer o superávit primário. Isso é o mesmo
que jogar o país em uma recessão à toa. Essa teoria de ter superávit
primário é vaga e imprecisa. Quem disse que se o país tiver superávit primário,
será tão positivo que vai gerar uma empolgação nos empresários, que eles vão
começar a investir? Isso não tem nenhuma base empírica. É o que nos EUA vem
sendo criticado como a “fada da confiança” que faria a mágica dos empresários
investirem em recessão.
Então, no curto prazo
não há nenhuma razão para buscar equilíbrio fiscal na atual conjuntura. Tem
de ter, sim, algum desequilíbrio fiscal, porque a economia está entrando em
possível recessão, e recessão é como uma espiral. Você tem recessão, diminui a
arrecadação, aumenta o déficit, corta-se o gasto, e assim se começa a andar
para trás, e a economia entra em um ciclo igual ao de quando as pessoas ficam
deprimidas até chegar ao fundo do poço e às vezes até se suicidarem. Por isso
os economistas usam o neologismo “austericídio”.
Assim, o que precisa fazer é relaxar a política fiscal nesse
primeiro ano. Nós ainda não estamos em recessão, mas estamos crescendo quase
zero, 0,5%, que é muito pouco. O governo
tem de dar um estímulo ao crescimento neste próximo ano. Mesmo porque a
eleição foi muito dividida, os eleitores da Dilma Rousseff mandaram uma
mensagem muito clara de que querem melhorar de vida e não querem entrar em
recessão. Os que elegeram a Dilma Rousseff são aqueles que têm faixa de renda
mais fragilizada e que serão mais prejudicados com uma recessão, pessoas que
vão perder o emprego e não têm riqueza.
IHU On-Line – Além dos cortes
excessivos dos gastos públicos, o manifesto critica a combinação de juros altos
e câmbio valorizado. Quais as implicações econômicas e sociais dessas políticas
e quais as dificuldades de abandoná-las?
Carlos Pinkusfeld –
Essa é uma questão muito mais complicada. No primeiro governo, Dilma buscou
reduzir os juros para desvalorizar o câmbio, e o efeito não foi tão bom assim.
O problema agora é que estamos com uma inflação batendo no topo da meta, 6,5%. Se quiserem fazer uma política de redução
de juros com desvalorização cambial, possivelmente se aceleraria a inflação,
que iria crescer demais. Então, por esse lado nós estamos mais amarrados.
Pensar que se vai fazer uma desvalorização cambial via redução dos juros é
pouco provável, porque, de fato, o presidente do Banco Central, Tombini, tem
uma meta de inflação a cumprir. E quando a inflação passa de 6,5%, parece, no
Brasil, que o mundo acabou. E, ademais, num governo do Partido dos
Trabalhadores, fazer uma inflação de câmbio com redução dos salários reais,
também é uma ideia complicada. Então, acho
pouco provável que no curto prazo seja possível fazer uma redução muito
expressiva, ainda mais porque tem que se observar o que vai se passar com
os juros internacionais este ano.
Também não é hora de dar algum choque de custo mais geral,
porque o governo já vai ter que dar um choque de custo: a energia elétrica vai
ter de subir, a gasolina já subiu, o óleo diesel também. Dar mais choque de custo e alterar o câmbio é imprudente na atual condição.
E o que pode ocorrer é que os preços internacionais das commodities estão
caindo, infelizmente. Aí, olhando a evolução dos preços das commodities, pode
ser que se tenha espaço de desvalorizar o câmbio. Mas, mais importante do que isso, é o governo ser mais proativo na política
industrial e na política comercial externa; tem de tentar reduzir o déficit
comercial brasileiro sem prejudicar os trabalhadores. É preciso políticas
ativas. O fato de estarem criando algumas refinarias vai ser muito bom para o
país, porque vai dar um alívio na conta de gasolina, na conta de óleo diesel
que importamos.
IHU On-Line - Como avalia os nomes
cotados para assumir a pasta da Fazenda: Nelson Barbosa e Henrique Meirelles?
Qual o perfil econômico dos possíveis ministros?
Carlos Pinkusfeld –
Discutir nomes é algo complicado. Nelson tem formação, na pós-graduação, muito
próxima à minha, tanto na UFRJ, mestrado, quanto na New School for Social
Research, doutorado. Do ponto de vista de formação, eu teria mais simpatia por
ele. Obviamente, o nome do Meirelles é inadequado porque ele não sinaliza para
a direção que o PT deu à campanha da reeleição, sendo crítico ao poder
excessivo dos banqueiros. Mas isto é pouco relevante, estou falando como cidadão
Carlos Pinkusfeld e não como economista. Como economista, me preocupo menos com
os nomes e mais com o que eles possam fazer, com suas propostas. Para mim qualquer economista que proponha
medidas restritivas agora está equivocado, qualquer que seja sua filiação
acadêmica, história pessoal ou ligação profissional direta.
IHU On-Line - Quais são os desafios
da equipe econômica nos próximos anos? O senhor fala em retomar uma política
anticíclica, mas o ministro Mantega declarou após a campanha eleitoral que já
fez uma política anticíclica e que agora é preciso abandoná-la. Quais os
desafios agora?
Carlos Pinkusfeld –
Está errado. Antes pelo contrário, Mantega
para mim errou em 2011 ao quebrar o
crescimento econômico de 2010 à toa. Em 2010 nós víamos numa política
contracíclica [para saber mais sobre
política econômica anticíclica, clique aqui] muito bem sucedida e seu ajuste
fiscal, junto às políticas macroprudenciais e monetária contracionista,
derrubaram a economia. Em 2011 a taxa de crescimento do PIB, 2,5%, só não foi
mais baixa porque o Brasil ainda cresceu no primeiro trimestre. Depois, nos
três trimestres restantes houve praticamente estagnação. Após este erro, o
gasto, principalmente do PAC, até voltou a crescer, mas aí o investimento
privado já tinha sido jogado para baixo, pela sinalização da estagnação da
economia como um todo. Então, não é
verdade que a política dele foi muito expansionista; pelo contrário, foi
inicialmente contracionista e depois moderadamente expansionista. A
política do governo Lula , principalmente o segundo mandato, foi muito mais
expansionista.
O problema é que a política contracionista de 2011 foi feita
com a economia aquecida, e agora ela está desacelerada. Não vejo a lógica de
juntar uma política fortemente contracionista em 2011 e moderadamente expansiva
em outros anos, tomar o indicador de resultado (o déficit primário), resultado
de movimentos opostas, e dizer que “como não deram certo”, então, pedir uma
política ainda mais contracionista. Eu diria que as políticas fiscais moderadas
pós 2011 não foram capazes de se contrapor aos efeitos negativos da política
contracionista de 2011. Veja bem, há um argumento, com o qual não concordo, de
que existe um componente de confiança no empresário que vai compensar essa
política. Esse argumento carece, entretanto, de comprovação empírica, não apenas
aqui, mas em todo mundo. A ideia de contrações fiscais expansionistas está cada
vez mais desacreditada entre policy
makers [os que tomam as decisões de política econômica], mesmo aqueles mais
ortodoxos. Mas, independente de qualquer coisa, tem de ficar claro que a
política fiscal não foi “irresponsável” (sic) ou todo tempo fortemente
expansionista e nem se desviou do que ocorria no governo anterior. Antes pelo
contrário. O pior resultado tem a ver com a reversão do crescimento econômico,
em grande medida fruto da própria austeridade fiscal de 2011.
IHU On-Line - Diante disso, quais
são os desafios?
Carlos Pinkusfeld –
Em curto prazo:
- não pode fazer política fiscal contracionista,
- tem que ser mais flexível com a meta de superávit,
- talvez tenha que ter um pouco de déficit primário, que vai aumentar só um pouco do déficit agregado,
- tem que ser mais flexível com a ideia de crescimento da dívida líquida,
- tem que ser mais agressivo na política industrial e na política comercial externa para que consigamos melhorar nosso balanço comercial.
- É pouco provável que, num curtíssimo prazo, seja possível mexer no câmbio.
- Além disso, as obras do governo deveriam justamente privilegiar (ainda que não sejam sociais nesse sentido simplório de transferência de renda) bens públicos: habitação, saneamento básico, para que a população que apoiou a eleição do PT tenha, como retorno positivo, coisas como saneamento básico ampliado.
Aliás, isso, é bom
para a economia como um todo via ampliação da demanda interna e gera um bem
público a essa população mais necessitada e eternamente esquecida por governos
que se sucederam até hoje. Não se pode, de novo, ter excesso de fé no câmbio;
tem de fazer uma política industrial e comercial mais agressiva, que não foi
feita até agora.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 14 de novembro de 2014 –
Internet: clique aqui.
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