Tarefas urgentes para um Brasil melhor
Associação
Brasileira de Organizações Não-Governamentais – ABONG
Revista Abong nº 528
O povo brasileiro acaba de eleger o governo para os próximos
quatro anos e há tarefas urgentes que devem ser enfrentadas. Vamos lembrar,
entre outras, algumas que foram apontadas pela Agenda Brasil Sustentável, plataforma - da qual a Abong faz parte - que reúne indivíduos
e membros de diversas Organizações da Sociedade Civil (OSCs) em torno de um
conjunto de princípios, cujo objetivo é comprometer candidatos(as) aos cargos
executivos estaduais e federal com o desenvolvimento sustentável do País por
meio de propostas concretas.
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Desmatamento na Amazônia |
Crise
ambiental & Escassez de água
A primeira e mais importante tarefa diz respeito à grave crise ambiental que estamos vivendo.
Há anos, cientistas, movimentos sociais, entidades ambientalistas e muitas ONGs
vêm advertindo para os sérios problemas climáticos que o Brasil teria se
mantivesse o tipo de desenvolvimento predatório implementado até agora. O que
era uma previsão está ocorrendo diante de nós: a crise mais séria de falta de água de que ouvimos falar, com
riscos evidentes para a população, e a ocorrência de chuvas torrenciais,
verdadeiras tempestades, em diferentes lugares do País, que causam destruição e
mortes.
A desconsideração
para com a Amazônia com a continuidade
do desmatamento - mesmo que o ritmo do desmatamento tenha diminuído - é o
principal fator para as chuvas desmedidas. O Brasil precisa assumir a meta do
"desmatamento zero".
A falta d’água é fruto de vários fatores, entre os quais, a
desatenção para com as condições para a vitalidade dos nossos rios, a
realização de megaprojetos, a destruição das matas ciliares, a poluição das
águas e a ausência de esgotamento sanitário e tratamento de esgotos. O Brasil
tem uma situação privilegiada no mundo: 13,8% da água doce estão aqui.
O maior aquífero, o Guarani, está, em sua maior parte, em
nosso país. E, no entanto, vários de nossos rios estão secando e começa a
faltar água em muitos lugares. Isso é inadmissível.
É urgente a elaboração – com a participação da sociedade
civil – de um planejamento que enfrente esta situação, do contrário as
consequências serão desastrosas.
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Índios Guarani-Kaiowá |
Desrespeito
aos indígenas e quilombolas
Os primeiros habitantes desta terra foram os povos
indígenas. Calcula-se que havia mais de cinco milhões quando os portugueses
aqui chegaram. A colonização provocou um verdadeiro genocídio: povos inteiros
desapareceram, restando hoje menos de um milhão. Muitos deles não têm mais
terra onde morar - eles que eram os donos milenares destas terras - e estão
sendo dizimados, como é o caso dos Guarani-Kaiowá. Outros estão perdendo suas
terras e, sobretudo, seus rios, para megaprojetos, para o agronegócio, para
mineradoras. O mesmo está acontecendo com comunidades quilombolas. É urgente
garantir os direitos constitucionais destes povos, restabelecer suas condições
de vida, se é que queremos chamar a nossa sociedade de civilização: uma civilização que não faz respeitar os
direitos humanos não tem direito a este nome.
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Transgênicos: é preciso saber mais! |
O
risco dos transgênicos & agrotóxicos
Até alguns anos, havia dúvidas sobre se os transgênicos
faziam mal à saúde. Este ano, um manifesto
de 815 cientistas de todo o mundo alertou os governos de que os transgênicos representam um perigo e
que se deveria estabelecer uma moratória de cinco anos sem transgênicos, até
que pesquisas independentes comprovem que fazem bem ao ser humano.
É urgente uma política para reduzir, controlar e acabar com
este tipo de plantio que está prejudicando a geração atual, mas prejudicará
ainda mais as gerações futuras. E, pior que isso, permite o controle de nossa
agricultura por grandes multinacionais desta área, cujo único interesse são os
lucros cada vez maiores, pondo em risco nossa soberania alimentar.
O mesmo se pode dizer sobre o uso de agrotóxicos: nós somos o maior consumidor de agrotóxicos em
nível mundial. Nos países desenvolvidos, vários dos agrotóxicos que aqui ainda
são usados foram proibidos há mais de 20 anos. Como chamou nossa atenção o
cineasta Sílvio Tendler, "o veneno
está na mesa". É absolutamente fundamental estabelecer uma política de
estrito controle sobre as substâncias que entram nos nossos alimentos e reduzir
sistematicamente o seu uso.
Urgência
da Reforma Política
É urgente fazer uma reforma política que acabe com uma das
maiores mazelas do nosso sistema político: o
controle das eleições e dos partidos pelo poder econômico. É preciso
estabelecer o financiamento público de campanhas e acabar com o financiamento
empresarial privado. É preciso que certas decisões políticas fundamentais sejam
tomadas pelo conjunto dos(as) cidadãos(ãs), tais como privatização de serviços
públicos e empresas estatais e megaprojetos com forte impacto social e
ambiental. Esta é a democracia de que precisamos. O Plebiscito Popular recentemente
realizado provou que grande parte dos(as) brasileiros(as) deseja esta reforma,
como ficou evidente na participação de 7,7 milhões de eleitores que disseram
“SIM” a uma Assembleia Constituinte exclusiva para a reforma do sistema
político.
É
enorme a desigualdade social
Trinta milhões de brasileiros deixaram a miséria nos últimos
doze anos, o que é um avanço social significativo. No entanto, a desigualdade
social ainda é enorme. A diferença entre
a renda da camada mais rica do país e os 50% mais pobres não só é grande, mas
tem aumentado, como mostrou pesquisa acadêmica recente. Nosso sistema tributário é reprodutor da
desigualdade porque é regressivo: os(as) pobres pagam proporcionalmente
mais que os(as) ricos. O imposto sobre a propriedade rural, em um país que tem
uma das maiores concentrações fundiárias do mundo, é insignificante. Precisamos
de uma reforma tributária para que
haja justiça social: quem ganha mais pague mais. Nosso sistema deve ser
progressivo. Não adianta combater a pobreza se, ao mesmo tempo, se permite a transferência
de renda da maioria para os mais ricos.
Precisamos enfrentar as desigualdades de gênero, étnicas, o
preconceito frente à diversidade sexual e garantir os direitos sexuais e
reprodutivos.
Nova
política de segurança pública
Precisamos, urgentemente, de uma nova política de segurança pública. Estão encarcerados(as), hoje,
no Brasil, cerca de 550 mil presos(as). A maior parte destes(as) estão ali por
crimes contra o patrimônio ou por tráfico de drogas, não por crimes letais. No
Brasil, ocorrem cerca de 50 mil
homicídios dolosos por ano. A maioria das vítimas é jovem, pobre, do sexo
masculino e negra. Este genocídio precisa acabar e nós temos meios para isso.
Dívida
pública devoradora de recursos
O maior devorador dos recursos públicos, hoje em dia, é o sistema da dívida pública, que consome
quase metade do orçamento da União. Por esta razão, faltam recursos para a
saúde, para a educação, para o transporte, para o saneamento básico e para
outras políticas importantes. É preciso, urgentemente, realizar o que manda a
nossa Constituição, que é a realização de uma Auditoria da Dívida Pública, para que possamos descobrir as
irregularidades existentes, visto que a nossa dívida externa foi constituída,
em sua maior parte, durante o regime ditatorial, quando o Congresso e a
sociedade não tinham acesso aos documentos. A Auditoria permitiria reduzir o
montante da dívida e teríamos mais recursos para o bem estar de nosso povo.
Meios
de comunicação social oligopolizados
Atualmente, os meios de comunicação estão nas mãos de um
pequeno grupo de grandes proprietários, que formam um oligopólio que, de acordo
com seus interesses privados, controla o acesso de toda a sociedade à
informação e decide o que podemos saber e o que não lhes interessa que
saibamos. É urgente a democratização dos meios de comunicação com uma lei de
regulação da mídia que limite a propriedade destes meios, – que são concessão
pública, cabe lembrar -, que garanta liberdade
de imprensa para outros atores e não apenas para os atuais donos da mídia.
Deste modo, poderemos ouvir vozes hoje silenciadas – em sua maioria, por não
ter meios pelos quais expressar seu pensamento e suas reivindicações. É preciso
que haja debate, é preciso que situações que atingem diferentes setores da
sociedade possam vir a público. Todos os
países desenvolvidos contam com uma legislação sobre a produção da comunicação.
Não há razão para ser diferente aqui.
A
reforma agrária
O Brasil é um dos raros países do mundo onde nunca foi feita
uma reforma agrária. A maior parte
de nossas terras – quase metade - é apropriada por menos de 1%, enquanto que a
grande maioria dos(as) agricultores(as) tem propriedades pequenas ou não tem
terra. E é esta maioria que produz 70% de nossos alimentos. É urgente
desconcentrar a propriedade, permitir o acesso a terra para milhões de
sem-terra, garantir condições de produção e comercialização dos produtos. E que
se produzam alimentos saudáveis, pela agroecologia, sem agrotóxicos nem
transgênicos.
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Metrô de São Paulo nos horários de pico |
A
questão urbana: mobilidade da população e habitação popular dignas
A questão urbana está se tornando cada vez mais séria em um
país onde 86% da população se concentra
nas cidades. A mobilidade está
cada vez mais difícil, seja por excesso de veículos particulares, seja,
sobretudo, por falta de transporte
público suficiente e de boa qualidade. Os(as) trabalhadores(as) perdem
horas no seu deslocamento diário para o trabalho.
O Brasil precisa
garantir meios de transporte, especialmente os baseados em trilhos (metrô, trem
etc.), mais baratos, mais seguros e com maior capacidade. Precisamos
investir em uma malha ferroviária urbana e interurbana e não dependermos
unicamente da malha rodoviária. Por outro lado, os(as) cidadãos(ãs) precisam
ter condições de exercer controle sobre o transporte em seus municípios. É
absolutamente fundamental que tenham acesso aos dados sobre os serviços
públicos que lhes estão sendo prestados e pelos quais pagam. Isso é
transparência.
Cabe lembrar também as condições de habitação de boa parte
de nossa população. Não há dúvida de que, nos últimos anos, houve investimento
nesta direção, mas ainda falta muito a caminhar: de um lado, é enorme o número de sem-teto em nossas
cidades, de outro, muitos vivem em habitações precárias, com pouco ou nenhum
acesso a serviços públicos.
Certamente, haveria muitas outras coisas de que poderíamos
falar, mas estas nos parecem as mais urgentes e necessárias. Se queremos um
Brasil melhor, elas merecem atenção.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 12 de novembro de 2014 –
Internet: clique aqui.
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