PLANOS DE SAÚDE NÃO ESTÃO SAUDÁVEIS!
Livro vê “todos contra todos” em planos de saúde
Entrevista
com os médicos:
Drauzio
Varella e Mauricio Ceschin
CATIA LUZ e
FABIANA CAMBRICOLI
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Mauricio Ceschin e Drauzio Varella |
Responsáveis pela saúde de 50 milhões de brasileiros, as
operadoras de saúde dão sinais de que são elas que não andam saudáveis. O
aumento crescente de custos pode tornar o sistema de saúde suplementar
insolvente. E foi esse diagnóstico que fez com que os médicos Drauzio Varella e
Mauricio Ceschin, presidente da administradora de benefícios Qualicorp e
ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar, se unissem para
escrever o livro A Saúde dos Planos de Saúde, que será lançado nesta segunda-feira,
24 de novembro. Na publicação, eles defendem
novos modelos de gestão, que acabem com a cultura do "todos contra
todos" e com o desperdício de recursos, e propõem mudanças como a
coparticipação do usuário no custeio e a classificação dos beneficiários
conforme grupos de risco. Ao [jornal] O Estado
de S. Paulo, eles detalham as propostas.
Qual é o cenário da saúde
suplementar hoje?
Varella: Para
mim, o que sempre chamou a atenção é que estão todos contra todos. Os planos de
saúde estão contra os usuários porque os usuários acham que o plano tem
obrigação de pagar tudo o que for pedido. Quando o contrato não dá direito a
determinado serviço, ele vai à Justiça e ela manda fazer. Já os planos de saúde
estão contra os médicos porque eles pedem exames demais e atendem os doentes
correndo. Os usuários, por sua vez, estão contra os médicos, que atendem
depressa demais e estão contra os planos porque pagam mensalidade e, quando ele
vai usar, é glosado ou demora muito para ter o serviço de volta. E os médicos
estão contra todo mundo porque acham que são explorados e não dão conta de atender
o doente também. Então, com um sistema
desses, alguma coisa está errada aí, né? Ou muitas coisas estão erradas.
Do ponto de vista dos médicos, quais
são os piores problemas?
Varella: A má
remuneração. O médico acha que ganha pouco e quer compensar no volume de
pacientes. Como você faz se tem de atender uma pessoa depressa e não quer dar a
impressão de que atendeu mal? Você pede exame! Os planos de saúde dizem que os
médicos pedem exame demais. E é demais mesmo: 30% dos exames de imagem da Amil os pacientes não vão buscar. E
olha o que aconteceu: nos últimos 20 anos, os
laboratórios que eram empresas pequenas viraram monstros. Esse é o grande
negócio da medicina hoje.
E para o paciente fica a impressão
de que o médico é bom porque pediu check-up completo...
Ceschin: Nós
deslocamos a segurança do paciente para a tecnologia em vez do atendimento
médico e hoje a gente paga o preço disso. Você
tem uma superprodução de exames e de procedimentos que virou fonte de receita
para o sistema.
O Drauzio Varella falou do ponto de
vista médico e do ponto de vista do consumidor. E do ponto de vista de gestão?
Qual é a maior sangria?
Ceschin: A gestão
que existe no sistema é basicamente discutir tabelas de remuneração, tentando
diminuir ao máximo os aumentos de custos e repassar isso para o cliente. E, na
hora que você repassa, os reajustes tendem a ser crescentes, porque a
utilização é crescente, pela mudança epidemiológica, pelo envelhecimento da
população, pelo maior acesso à tecnologia. A tendência dessa equação é não
fechar. Não existe uma bala de prata para resolver isso. São várias medidas que
vão trazer a solução. Um modelo em que você paga o plano e que vai crescendo
por faixa etária, em uma população que vai triplicar o número de idosos nos
próximos 20 anos, não é sustentável. Hoje, um hospital eficiente aqui no Brasil
não se sustenta. Ele tem de produzir consumo de materiais, medicamentos e
equipamentos, para criar margem. A maioria
dos hospitais no Brasil ganha dinheiro no almoxarifado. Então, a lógica de
remuneração tem de inverter. Nos países desenvolvidos, é feita por pacotes
fixos, com valores atrelados a diretrizes clínicas já especificadas. O que eu
digo é: o indutor do sistema deveria ser
a eficiência, mas é o consumo.
No que as operadoras pecam?
Ceschin: O que
vejo é que muitas operadoras continuam olhando isso como uma operação
financeira e isso é uma prestação de serviço, que tem de ter foco no cliente. Quem é que no Brasil hoje se sente
acolhido pelo seu plano de saúde? Eu tenho de ir até ele, tenho de promover o
cuidado, tenho de saber em que estágio ele está, como está cuidando da saúde,
tenho de ser pró-ativo.
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Mauricio Ceschin - médico clínico geral e gastroenterologista |
O senhor acha que o desperdício é o
principal fator de pressão do custo dos planos de saúde?
Ceschin: Não.
Acho que a ausência de uma política de
gestão assistencial é um grande problema. Gestão assistencial é: controle
de desperdício, mudança de modelo de remuneração, indicadores de qualidade para
você fazer avaliação comparativa e movimentar todo o sistema para buscar melhor
qualidade, você corresponsabilizar o
consumidor. Nós defendemos que os
planos devem custar um pouco menos, 15%, 20% menos, e uma parcela disso o
usuário paga um pouquinho toda vez que ele utiliza. Isso traz uma
consciência, do usuário e do médico. Porque o médico também, sabendo que o
usuário está pagando, só vai pedir o necessário.
Varella: Nunca
encontro ninguém que diga que a margem de lucro dos planos é menor do que 50%.
Eles acham que é um grande negócio, onde as operadoras ganham muito dinheiro,
em uma visão distorcida.
E qual é a média dessa margem?
Ceschin: 2% a 3%. Nesse último trimestre, se você olhar o
caderno de informações da ANS, que publica isso, a margem está abaixo de 2%.
Em um setor em que todos estão
contra todos, o que pode ser feito pela ANS [Agência Nacional de Saúde]?
Ceschin: No caso
do médico, quando você incorpora novos procedimentos no sistema de saúde, vem
atrelado a uma diretriz clínica. É óbvio que vão ter exceções, é óbvio que tem
pacientes que fogem da regra, mas é preciso começar a utilizar as diretrizes
clínicas que são universais para balizar e comparar a conduta médica.
Institutos de defesa do consumidor
dizem que os planos ficam presos a uma regra e negam cobertura porque sabem que
a maioria dos beneficiários ou não sabe que tem direito de entrar na Justiça ou
não tem recurso para isso.
Ceschin: A gente
criou um ciclo vicioso que uma atitude errada gera outra, que gera outra, e
assim por diante. Ou a gente quebra esse ciclo, ou não saímos dele. Precisamos
repactuar um novo acerto para buscar um novo modelo.
Tem por onde começar? Na Qualicorp,
o que senhor está fazendo?
Ceschin: Toda a
minha grade de produtos neste ano, por exemplo, estamos montando com
coparticipação. Estamos ainda criando base de dados para ter produtos e
serviços de gestão de saúde, de prevenção, de promoção, de acompanhamento. Como
eu tenho a base de dados das operadoras, a gente consegue identificar os
portadores da patologia, os doentes crônicos e acompanhá-los. Você tem de olhar os perfis de risco e
atuar antes que eles fiquem doentes.
Varella: Acho que
há uma outra questão que pode ser potencializada que é a responsabilidade de cada um sobre a própria saúde. Tem cabimento
eu, com 70 anos de idade, correr maratona e pagar a mesma coisa do que um
gordo, fumante, que come tudo que dão a ele, que não toma o menor cuidado, que
não faz revisões, está certo isso? Você bate o carro dez vezes e o outro não
bate nenhuma, eles dão um desconto para o outro. Por que não existe isso na
saúde? É uma forma de você cobrar das pessoas que elas sejam responsáveis pela
própria saúde.
O que dizer aos consumidores para
explicar que esse modelo não é sustentável?
Varella: A
primeira coisa é que isso vai quebrar,
que esse sistema não vai se manter. A população está ficando mais velha, os
novos recursos, as novas tecnologias vão sendo incorporadas à medicina. O custo
dos remédios hoje é absurdo. Em
oncologia, os novos remédios custam no mínimo R$ 8 mil cada um por mês. Se
não fossem os planos, não existia.
Ceschin: É para
preservar isso que o modelo precisa mudar. É
preciso desatrelar essa visão de que quanto mais procedimentos eu faço melhor é
o cuidado que eu recebo. Perceber que isso não agrega valor e desemboca só
em aumento de custo desnecessário e todo mundo vai pagar a conta.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Metrópole/Saúde – Domingo, 23 de novembro de 2014 – Pgs. A30-A31 –
Internet: clique aqui.
Dupla defende
bônus aos saudáveis e critica quarto individual
CATIA LUZ e
FABIANA CAMBRICOLI
Separar clientes
segundo hábitos de saúde, além de procura de serviço e faixa etária, também
pode ser vantajoso, avaliam
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Drauzio Varella - médico oncologista |
Dividir usuários segundo grupos de risco, dar incentivos
econômicos aos clientes para que eles cuidem melhor da sua saúde ou diminuir o
luxo das acomodações hospitalares em alguns hospitais. Essas são algumas
medidas já implementadas em outros países para desafogar o sistema de saúde
suplementar que poderiam ser testadas no Brasil, defendem Drauzio Varella e Maurício
Ceschin no livro A Saúde dos Planos
de Saúde, que será lançado nesta segunda-feira, 24.
Uma das principais ideias internacionais apresentadas na
publicação é não dividir os usuários de planos de saúde apenas pela faixa
etária e pela demanda espontânea por serviços assistenciais, mas pelo chamado perfil de risco populacional. Esse
modelo foi proposto pelo especialista em gestão de saúde Rafael Bengoa para o
País Basco, na Espanha.
Nesse caso, a população sem doenças crônicas receberia
orientações para a promoção da saúde e a prevenção de doenças, considerando
hábitos, antecedentes e idade. Já os portadores de problemas crônicos teriam,
além de orientações e acompanhamento, uma educação continuada de como controlar
a doença. A fórmula, defendem os autores do livro, ajudaria o plano a se
antecipar à ocorrência de doenças e às complicações de problemas crônicos, o
que traria benefícios para a saúde do consumidor e diminuiria os custos da
operadora.
Desconto
Outra opção é atrelar incentivo econômico às campanhas de
prevenção, oferecendo descontos na
mensalidade para clientes que demonstrarem cuidar da sua saúde. A redução
no preço do plano seria dada, por exemplo, a quem não fuma, mas pratica
exercícios físicos e controla níveis de glicemia e colesterol.
Para demonstrar a eficácia dos incentivos econômicos, os
autores citam um estudo feito nos Estados Unidos. Uma empresa pagou US$ 750 aos
funcionários que deixassem de fumar. Na pesquisa, publicada no The New England Journal of Medicine, os
funcionários eram submetidos periodicamente a exames de urina para verificar a
presença de nicotina. Os que passaram um ano sem a substância receberam o
dinheiro. A adesão foi de 60% dos fumantes, enquanto nos programas de combate
ao tabaco tradicionais a taxa de sucesso é de até 18%.
Por fim, Varella e Ceschin ressaltam que em nenhum país do
mundo há a cultura de planos oferecerem internação em quartos individuais, como
no Brasil. Nos países desenvolvidos, como EUA e Suécia, dizem eles, mesmo nos
planos mais caros, os doentes são internados em enfermarias coletivas, com até
seis pacientes. A medida reduz custos e torna o sistema mais sustentável.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Metrópole/Saúde – Domingo, 23 de novembro de 2014 – Pg. A31 –
Internet: clique aqui.
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