INDÚSTRIA É O QUE FAZ CRESCER, DE VERDADE, A ECONOMIA!
O fantasma na máquina
Alexandre
Versignassi e Pedro Burgos
A indústria é o setor
da nossa economia que mais definha.
Com ela na UTI, o PIB
vai continuar anêmico.
E só existe um jeito
de destravar essas engrenagens.
O PIB travou, mas a indústria nacional está pior. Vai de
marcha à ré mesmo. Há dez anos, o País lucrava forte no mercado de bens industrializados
(coisa que vai de avião da Embraer a lasanha congelada da Brasil Foods). A
diferença entre o que a gente vendia para fora e o que a gente importava, nessa
área, era de US$ 17 bilhões a nosso favor. Depois melhorou. Sabe a história de
que o País só crescia mesmo quando o petróleo e o minério de ferro estavam em
alta? Então. É verdade. Mas não totalmente verdade. Em 2005, com as exportações de matéria-prima bombando, o saldo no comércio exterior de bens
industrializados cresceu num ritmo cruzeirense: 30% em um ano. Saltou
daqueles US$ 17 bi para US$ 22 bi. E
continuou bem até 2007, o último ano do resto da vida da economia mundial.
Em 2008 e 2009,
com a crise devidamente instaurada da Islândia à Terra do Fogo, nosso saldo
entrou no vermelho pela primeira vez em muito tempo: uma conta negativa de US$ 4 bi. Depois piorou. Conforme a crise no
resto do mundo foi arrefecendo, nosso saldo no mercado de bens industrializados
só perdeu gás. Em 2010, conseguimos a proeza de negativar o recorde positivo de
2005, e dando um chorinho, de quebra: US$ 25 bilhões no vermelho. Agora? Bom,
já dobramos essa marca. Faz dois anos
que o Brasil importa US$ 49 bilhões a mais do que exporta nessa área. Feio.
E ainda tem terreno para afundar mais. Não faz tanto tempo,
a participação da indústria no nosso PIB estava pau a pau com a dos países
desenvolvidos: na faixa de 20%. Pois é: nem eles nem nós precisamos de 80%, 90%
de indústria. O setor é importante, claro, mas a Revolução Industrial acabou
faz tempo. O que move mesmo as economias grandes hoje (e a nossa também) é o
setor de serviços, aquele que vai de manicure a banco. Mesmo assim, é na indústria que está boa parte dos
melhores empregos e do desenvolvimento tecnológico (as duas coisas que mais
importam no fim das contas). Então
manter uma indústria na faixa dos 20% do PIB é fundamental, por mais que o
seu país seja bom de serviço.
Mas não é o que aconteceu por aqui. A participação da indústria no PIB saiu da zona de conforto dos 20% e
agora está em 13% – é o menor nível em 60 anos. Mais dois pontinhos de
queda e voltaremos ao mesmo patamar da década de 1940, quando o Brasil era um
país quase que completamente agrário, com 70% da população vivendo nas áreas
rurais (hoje são 15%).
Desde 2011, as nossas
fábricas estão produzindo cada vez menos. Só em 2014, já foram quase 100
mil demissões, de acordo com a Fiesp.
Mesmo assim, os nossos índices de desemprego continuam
baixos. E o motor aí é o nosso setor de
serviços, que subiu de 63% para 69% do PIB em dez anos. Ele continua produzindo
vagas. O problema é que essas vagas não estão produzindo crescimento. O PIB
segue estagnado, freando a renda.
Isso de o setor de serviços não ter força para segurar o
rojão econômico não é exclusividade do Brasil. A história deixa claro que nenhum país conseguiu aumentar decentemente
o nível de renda de sua população sem passar por uma fase de industrialização
maciça. Um “aumento decente”, pelos padrões usados hoje, é fazer com que a
renda per capita salte de US$ 10 mil para US$ 20 mil ao ano. No Brasil, estamos
em US$ 11 mil/ano.
Na prática, viramos
uma economia de serviços, como aconteceu com os EUA [Estados Unidos da
América]. Só que lá a indústria continua relativamente forte. Aqui, viramos uma nação de manicures e
gerentes de banco lastreados pela exportação de matéria-prima – minério,
óleo, soja. Com a demanda por
matéria-prima em baixa (chineses malditos!), nossa economia periga ficar pelada.
Uma hora pode faltar unha para a manicure fazer e cliente para o gerente do
banco vender título de capitalização. Então o mais perverso dos círculos
viciosos tende a dar as caras: o do desemprego que gera desemprego. Daí para o
zimbabwamento geral da economia é um pulo.
Bom, alguém pode dizer que hoje a história é bem diferente.
Que o setor de serviços agora é bem mais amplo, então tem como segurar qualquer
economia sozinho. De fato. Se antes existiam cinco canais de TV, agora são 5
trilhões, se você colocar os “canais” da internet na conta. Isso para ficar num
único ramo do fantástico mundo dos serviços – mundo do qual estes que vos
escrevem fazem parte, inclusive.
Mas os números do
mundo real teimam em desmentir a teoria de que os serviços seguram qualquer
bronca. O grau de industrialização dos países emergentes é tão grande hoje
quanto o dos EUA ou da Europa Ocidental já foram um dia. No México, que tomou o
lugar do Brasil como país mais promissor da América Latina, a indústria representa 35% do PIB. No Peru, que cresce 6% ao ano, são 37%. Na Tailândia, 45%. A China está na casa dos 40% também. Há dez anos, na dos 70%. É
isso: o setor de serviços é ótimo para vitaminar a quantidade de empregos
disponíveis, como o exemplo brasileiro deixa claro. Mas o que engorda e faz crescer é uma indústria forte, principalmente
quando uma nação dá os seus primeiros passos rumo ao desenvolvimento. E
isso o exemplo brasileiro – de país com muito emprego e zero crescimento –
também deixa claro.
Propostas de caminhos para melhorar isso não faltam. Vão de
redução de impostos a deixar o dólar subir (moeda local fraca é bom para quem
exporta). Mas tudo isso é paliativo. Só
dá para construir uma indústria firme com uma educação forte. Formar gente
capacitada para manter uma indústria de ponta leva 20, 30 anos. O governo que
realmente melhorar a educação não vai ver os frutos dessa melhora. Não vai ver
o dinheiro gasto com professores virar PIB. Mas é o único caminho. Que chegue logo a hora de os nossos
governantes, em todas as esferas, enxergarem além dos horizontes da próxima
eleição e investirem para valer em educação. Enquanto isso não acontecer, o
Brasil nunca vai acontecer.
Enquanto isso, na China foram criados 1 milhão de empregos
na indústria de transformação, somente, na última década,
para atender à crescente importação de produtos por parte
do Brasil, pode???!!!
Leia mais sobre isso, clicando aqui.
Fonte: Revista SUPER
INTERESSANTE – Essencial – Edição 341 – Dezembro/2014 – Pgs. 30-31 –
Internet: clique aqui.
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