UM LIVRO PARA MUDAR A NOSSA MANEIRA INCORRETA DE PENSAR
Livro derruba 23 mitos do capitalismo
BBC BRASIL
Esta matéria que reproduzo abaixo não é nova.
No entanto, achei oportuno retomá-la,
pois há muitas ideias erradas sobre economia
sendo divulgadas e aceitas sem critério por pessoas bem intencionadas
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Ha-Joon Chang - economista da Cambridge University |
A crise financeira de 2008 expôs ao mundo as fraquezas de um
ídolo que parecia indestrutível desde a queda do muro de Berlim: o capitalismo.
O economista sul-coreano Ha-Joon Chang, da Cambridge
University, na Inglaterra, é um dos mais eminentes críticos das políticas
neoliberais em voga desde a década de 80.
Autor dos livros Bad Samaritans: The Myth of Free Trade and
the Secret History of Capitalism (em tradução livre, Maus Samaritanos: O mito do livre comércio e
a história secreta do capitalismo) e 23 Things They Don't Tell You About
Capitalism (em tradução livre, 23
coisas que não te dizem sobre o capitalismo), publicados recentemente, Chang disse à BBC que não é um
anticapitalista (veja no final do texto a lista de afirmações do livro).
"O capitalismo é o pior sistema, excluídos os
outros", ironiza.
Chang disse que muitos dos críticos ou admiradores do
sistema estão convencidos de que sabem o que é o capitalismo - mas estão
enganados. O economista disse que o que tenta fazer em seus livros é mostrar
que muitas das premissas usadas para
definir o sistema são meias verdades ou puro mito.
"A ideia do livre mercado, por exemplo. O mercado livre
não existe. Todo mercado tem regras e
limites que restringem a liberdade de escolha."
Ele pergunta, por exemplo, por que um motorista de ônibus na
Suécia ganha 50 vezes mais do que um em Nova Déli (na Índia). "Porque o de
Nova Déli não pode ir à Suécia, pois há limites aos fluxos migratórios."
Outro mito, ele explica, é aquele que propõe que quanto mais
livre o mercado e quanto menos envolvimento do governo, maior a riqueza.
Segundo Chang, a coisa não funciona dessa forma. E para
ilustrar sua tese, ele cita o caso da desregulamentação do sistema financeiro
ocorrida desde a década de 80.
"Como se viu na crise financeira de 2008, (a
desregulamentação) destruiu muita riqueza."
Desenvolvimento
Outro mito capitalista, na opinião de Chang, é a ideia do livre comércio. Países desenvolvidos
dizem que as nações em desenvolvimento têm de permitir o livre fluxo de
capitais e mercadorias para que possam se desenvolver.
Mas essa posição ignora a política adotada historicamente
pelos próprios países desenvolvidos - ele diz. "Tomemos o caso do Reino
Unido, berço da Revolução Industrial. No século 17, Daniel Defoe, autor de
Robinson Crusoé, além de empresário e espião, publicou uma história sobre o
comércio inglês que mostra o protecionismo aplicado desde o século 15".
"Esta política segue até o século 19, quando o Reino Unido se tornou partidário do livre comércio porque já havia desenvolvido sua indústria e não precisava protegê-la."
Chang diz achar "curioso" que a Grã-Bretanha, ao abraçar a ideia do livre comércio, apaga sua própria
história e prega algo que não praticou para se desenvolver, ou seja, exige
que o resto do mundo adote o livre comércio.
Ainda ilustrando esse ponto, ele lembra que os Estados Unidos não adotaram a política
de livre comércio defendida pelos britânicos. "No século 19 e nas
primeiras décadas do século 20, os EUA
foram o país mais protecionista do mundo. E uma vez que desenvolveram
plenamente sua indústria, exigiram do resto que se convertesse ao livre
comércio."
Segundo Chang, a lista de países que usaram uma estratégia
similar é grande: França, Japão, Alemanha, Finlândia, Itália, Noruega e
Áustria, entre outros.
O economista cita ainda o caso de seu país natal, a Coreia do Sul.
Ele conta que nasceu em 1963, período em que a renda per
capita na Coreia do Sul equivalia a menos do que a metade da de Gana. Em 1977, a renda per capita havia subido para US$ 1 mil e o
país se transformara em um grande exportador de automóveis, semicondutores e
outros produtos de grande elaboração técnica.
"A Coreia do Sul aplicou todas as receitas que os
países desenvolvidos dizem que não se deve aplicar: subsídios, protecionismo,
planos estatais, intervencionismo...", enumera
Chang.
"Não digo que essa política seja uma varinha mágica. O
que digo é que se você estuda a realidade dos países em desenvolvimento no
pós-guerra, a história oficial que prega o neoliberalismo, com o FMI e o Banco
Mundial no comando, não condiz com a realidade."
Para Chang, o milagre japonês é um exemplo claro, assim como
os casos da China e da Coreia do Sul.
Globalização
A ideia da inevitabilidade da globalização como resultado do
advento da internet é, segundo Chang, mais um dos mitos do capitalismo.
O economista diz que a invenção do telégrafo, no século 19,
produziu uma revolução nas comunicações muito maior do que a internet.
"Antes do telégrafo, demorava-se duas semanas para se
transmitir uma mensagem transatlântica por barco. Com o telégrafo, isso foi
reduzido para sete minutos."
"E se compararmos ambas as épocas, o mundo do barco a
vapor e do telégrafo estava muito mais globalizado do que o dos anos 40, 50 e
60 no século 20, apesar da enorme diferença tecnológica."
Chang diz que as transações financeiras são feitas em
segundos, mas lembra que elas só são possíveis porque os mercados financeiros
foram desregulados. "Recorrer à tecnologia é uma maneira de negar que, na
realidade, trata-se de uma decisão política."
Veja a lista de
afirmações do livro:
1. Não existe livre mercado.
2. Companhias não deveriam ser administradas segundo os
interesses de seus donos.
3. A maioria das pessoas nos países ricos ganha mais do que
deveria.
4. A máquina de lavar mudou mais o mundo do que a internet.
5. Espere o pior das pessoas e você receberá o pior.
6. Maior estabilidade macroeconômica não tornou a economia
mundial mais estável.
7. Políticas de livre mercado raramente tornam países pobres
mais ricos.
8. Capital tem nacionalidade.
9. Não vivemos na era pós-industrial.
10. Os Estados Unidos não têm o melhor padrão de vida do
mundo.
11. A África não está destinada ao subdesenvolvimento.
12. O governo pode escolher os ganhadores.
13. Tornar pessoas ricas mais ricas não enriquece o restante
das pessoas.
14. Os salários de executivos americanos são altos demais.
15. As pessoas nos países pobres são mais empreendedoras do
que as dos países ricos.
16. Não somos espertos o suficiente para deixar as coisas a
cargo do mercado.
17. Mais educação, por si só, não vai tornar um país mais
rico.
18. O que é bom para a General Motors não é necessariamente
bom para os Estados Unidos.
19. Apesar da queda do comunismo, ainda estamos vivendo em
economias planejadas.
20. Igualdade de oportunidades é desigual.
21. Um governo grande torna as pessoas mais - e não menos -
abertas às mudanças.
22. Mercados financeiros precisam se tornar menos, não mais,
eficientes.
23. Boas políticas econômicas não requerem bons economistas.
L
I V R O
Título: 23 coisas que não nos contaram
sobre o capitalismo
Autor: Ha-Joon ChangTradutora: Claudia Gerpe Duarte
Editora: Cultrix (São Paulo)
Páginas: 368
Ano de publicação: 2013
Preço de capa: R$ 45,00
Fonte: ESTADÃO.COM.BR
– Economia – 20 de outubro de 2010 – 07h11 – Internet: clique aqui.
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