NÍVEL DAS UNIVERSIDADES ESTÁ CAINDO: CULPA DAS COTAS?
TESTEMUNHO DE UM PROFESSOR...
Maurício
Abdalla
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Prof. Dr. Maurício Abdalla Departamento de Filosofia da UFES |
Que ninguém se iluda: o nível da universidade está caindo. E
não é algo tão novo.
Porém, que ninguém
também caia no erro de relacionar isso às cotas sociais. Seria uma
atribuição falaciosa de causalidade, que relaciona um problema a uma causa sem
reflexão sobre o nexo causal entre os dois. Nem sequer relação de sucessão
temporal existe, pois o problema real antecede a adoção de cotas.
Deixo aqui algumas
causas desse declínio, que venho percebendo ao longo de minha vivência na
UFES – Universidade Federal do Espírito Santo (como professor) desde 1995. Nenhuma delas está relacionada às cotas e,
na verdade, todas as antecedem. Espalham-se entre alunos de diferentes
extratos sociais e oriundos de escola pública ou privada:
- Dificuldade (por preguiça ou qualquer outra razão) de ler
os textos solicitados pelo professor para a aula;
- Estudar textos teóricos em frente à TV, com música alta,
com interrupção frequente, redes sociais ativadas e com falta de concentração;
- Faltar aulas frequentemente para ir a bares, bater papo
nos CAs [Centros Acadêmicos] ou nas cantinas ou por mera falta de vontade (às
vezes sob alegação de que "a aula é um saco");
- Copiar trabalhos de livros ou da internet, ou encomendar a
terceiros seguindo inúmeros anúncios espalhados pela universidade oferecendo a
terceirização de trabalhos, monografias e até dissertações;
- Gritar em grupos (essa é a nova forma de conversar) em
corredores onde estão ocorrendo aulas ou próximo à sala de professores (que
tentam estudar para melhorar o conteúdo das aulas ou fazer suas pesquisas);
- Conversar alto nas bibliotecas;
- Não saber o básico do português e usar ortografia de
internet nas provas e trabalhos;
- Ficar conversando ou olhando vídeos pelos celulares e
iPhones durante as aulas;
- Ter sido formado pela informação fragmentada e superficial
dos meios de comunicação, apresentando dificuldade para o raciocínio complexo e
sistemático;
- Estar na universidade apenas como uma continuidade da
educação básica, sem nenhum interesse real nos conteúdos e pensando no diploma
que lhe dará uma profissão;
- Falta de intimidade com a expressão de ideias pela escrita
(para expressar ou interpretar);
- Escolher a sala de aula para bater-papo, ao invés dos
espaços de vivência da universidade;
- Preocupar-se mais com o próximo micareta ou show de
celebridade do que com a qualidade de seu desempenho acadêmico;
- Dedicar mais tempo ao Big
Brother [reality show da TV] do que à análise do mundo real; mais à revista
semanal do que às pesquisas sociais; mais às informações da Internet do que aos
livros; mais ao comentário ou artigo de um jornalista do que às pesquisas de
anos de professores empenhados em compreender o fenômeno mais profundamente
etc...
A lista pode ter ficado incompleta, mas já por ela, podemos
ver que não há nada que esteja relacionado ao extrato social do qual os alunos
são oriundos ou à forma de ingresso na universidade.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 12 de novembro de 2014 –
Internet: clique aqui.
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