Israelenses e palestinos
Gilles Lapouge
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Esplanada das Mesquitas em Jerusalém Conhecida como "O Nobre Santuário" (pelos muçulmanos) ou "O Monte do Templo" (pelos israelenses) |
Raros são os dias em que Jerusalém ou regiões de Israel não
se cobrem de luto em razão de um ou dois assassinatos, com frequência em plena
rua, de cidadãos israelenses.
Na segunda-feira, no espaço de horas, ocorreu uma morte em
Tel-Aviv e outra no bloco de assentamentos de Goush Etzion, na Cisjordânia.
Assustados e indignados, os israelenses têm a sensação que os dias sinistros da
Intifada voltaram.
Claro que o número de vítimas israelenses é bem inferior ao
de palestinos da Intifada. No entanto, como sangue chama sangue, alguns
israelenses inquietos e furiosos já diziam na terça-feira que havia começado
"a terceira Intifada".
É verdade que os atuais incidentes, mesmo limitados, contêm
um micróbio devastador: a religião.
Os primeiros assassinatos, há quatro meses, foram provocados por um conflito
territorial entre palestinos e israelenses.
Depois de alguns dias, a tensão, porém, vem assumindo uma
conotação religiosa, sob influência dos "extremistas" de ambos os
lados.
Geograficamente, o epicentro do incêndio é a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém.
O conflito envolve a defesa dos lugares sagrados para os dois povos.
Um exemplo: na quarta-feira da semana passada, confrontos
ocorreram entre jovens árabes e policiais de Israel nas imediações da Mesquita
de Al-Aqsa, na Esplanada. No confronto, judeus adentraram alguns metros na
mesquita. E rumores se espalharam de modo insano: "eles pisotearam o
Alcorão", diziam alguns.
Esses locais sagrados são administrados desde 1967 por uma
fundação jordaniana (Waqf) - entidade neutra encarregada de aquietar as
reivindicações incompatíveis de árabes e judeus. Mas judeus não têm direito de
orar ali. Essa Esplanada domina a Cidade Velha de Jerusalém. Os muçulmanos a
chamam de "Al-Haram al-Sharif"
(O Nobre Santuário) e os israelenses "Har
HaBayit" (Monte do Templo).
Militantes judeus de tendência messiânica, apoiados por
alguns deputados ultranacionalistas, contestam esse estatuto de 1967 - e, nos
últimos tempos, têm multiplicado o número de suas visitas à Esplanada.
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Yehuda Glick - rabino norte-americano que vive em Jerusalém |
Os jovens árabes montam guarda e se opõem. Cada vez que um grupo de judeus aparece na Esplanada, os jovens árabes - principalmente garotas, aliás - aproximam-se gritando "Allahu Akbar" (Deus é grande, em árabe).
No fim de outubro, um palestino de Jerusalém atirou contra
um rabino conhecido, Yehuda Glick
(de origem americana, de extrema-direita, que milita pelo retorno dos judeus ao
Monte do Templo, em nome da liberdade religiosa.
Esse rabino exaltado é um pouco mais moderado quando o
comparamos a outros "messiânicos", que também querem expurgar todos
os árabes da Explanada. Glick se contenta em reivindicar a
"coexistência" das duas religiões. E nada impede: depois dos disparos
contra Yehuda Glick, foi decidido o fechamento total da Esplanada por algumas
horas, o que jamais tinha ocorrido desde 1967.
Um outro projeto está na cabeça dos judeus mais agitados: a reconstrução do Segundo Templo de Jerusalém,
que se encontrava no local exato onde se situa o Domo da Rocha, e foi destruído
pelos romanos. Lá, encontramos outro rabino, também de origem americana, Yaakov Binyamin HaCohen Ben Arich, cujo
plano é desmontar o Domo da Rocha e reconstruí-lo em Meca. O rabino sabe que
essa ação poderia ser mal interpretada, mas sua resposta é fulgurante: "E
daí? Que importa se devemos encarar uma terceira guerra mundial?".
Verdade? E o que importa? Tudo isso não é nada
tranquilizador: a história nos ensina
que guerras entre religiões são as piores. Dez vezes piores. A Guerra dos
Trinta Anos (1618-1648) transformou a Europa central numa terra devastada. Uma
carnificina. Todas as guerras de religião entre católicos e protestantes
extrapolaram em crueldade as guerras laicas, o que é normal, pois não se
guerreia para roubar um rio ou uma floresta do inimigo, mas para assassinar um
Deus.
Hoje, diante do barril de pólvora aberto em Jerusalém, só
podemos tremer diante da perspectiva de que, talvez, o Estado Islâmico - que
tenta estabelecer um califado no norte do Iraque e da Síria - poderia se
envolver também nessa querela entre os deuses.
Traduzido do francês por Terezinha Martino.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Internacional – Quinta-feira, 13 de novembro de 2014 – Internet:
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