Iphônicos anônimos

RICARDO SEMLER *

O vício já está alastrado e, em breve, demandará reuniões noturnas. 
- Meu nome é Rogério e sou um iPhônico. 
- Olá, Rogério! -responderá o grupo, em coro. 
- Estou há três dias sem consultar meu iPhone. 
Aplausos. 


Da mesma maneira como tentamos afastar o álcool e o cigarro das escolas, temos de erguer uma muralha contra o vício digital


Mas esses equipamentos digitais não são ferramenta de nosso tempo, linguagem contemporânea? É saudosismo achar que a meninada precisa ser blindada contra a rede? 
Pensem no que significa o Google. Por meio dele, não há informação impossível de filtrar. Google e similares filtram tudo para você. Quando estiver naufragando ao navegar, eles lhe enviarão uma tábua de salvação, usando tudo o que sabem sobre você. 


Assim, se você costuma entrar na Amazon, eles lhe propõem livros e compras que "deveriam" lhe interessar. Em vez de abrir seus horizontes, o mundo da navegação apenas reforça seus hábitos e interesses. 


É assim no Facebook, no Twitter ou no LinkedIn - sua pequena comunidade é mantida entre conhecidos, amigos esquecidos ou rede de interesses. Para conhecer alguém diferente, é preciso aventurar-se na praça pública da turba digital. 


Errônea, portanto, a impressão de que a web abre mentes e caminhos. Em muitos sentidos, ela os fecha de vez. E, nesse cerco, faz escravos digitais. Com a convergência, cria-se o smartphone como um cordão umbílico-digital. 


A escola tem de aceitar que essa ligação veio para ficar e que submeterá legiões de coitados. Um vício a mais a ser moderado. 
Afinal, uma taça de vinho ou uns torresminhos por dia são inócuos e prazerosos. Trocar uns e-mails, SMS e dar uma navegada caem nessa mesma categoria. 


Ter os dedos amarelados, pigarro contínuo ou necessidade de um trago frequente é falta de recursos internos e requer auxílio. Tanto o Blackberry que é consultado a cada 20 minutos como a turma de executivos que se senta à mesa onde quase todos teclam ou falam ao celular são exemplos de funcionamento esquizofrênico. 


Agora, no recreio das escolas frequentadas por jovens abastados (e logo, nas públicas, à medida que os smartphones ficarem mais baratos), já temos a meninada com iPhones, ansiosamente conectados. 


Cabe decidir se há um perigo à saúde pública e se os aparelhos já devem vir com avisos soturnos acima de fotos de engravatados sobre macas -safenados, mas grudados aos smartphones em "rigor mortis". 


A escola é lugar para evitar proibições e abrir espaços contínuos de ajuste a novas maneiras. Lá se previne a situação patética de seus pais. Faltam professores e diretores que abram esse espaço para a reflexão juvenil. 
Uma tragada, um gole e uma tecladinha: falta a Lei do Ventre Livre que libertará os que estão a crescer.


* RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco") que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas.


Fonte: Folha de S. Paulo - Cotidiano - Segunda-feira, 10 de outubro de 2011 - Pg. C11 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saber/sb1010201102.htm

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