A MAIS IMPORTANTE BEATIFICAÇÃO DO SÉCULO 21
Beatificação
de Dom Oscar Romero:
um
momento de virada para o catolicismo
John L. Allen Jr.
CRUX
16-05-2015
«Romero simboliza a Igreja
socialmente engajada que o Papa Francisco quer ver... Agora que ele está
prestes a se tornar um santo padroeiro de um papa popular latino-americano,
talvez Romero recupere a fama que a sua história merece»
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Um homem pinta um retrato do Arcebispo Oscar Romero como parte dos preparativos para o 35º aniversário da morte de Romero em San Salvador, El Salvador. (Foto: AP/Salvador Melendez) |
No próximo
sábado [23 de maio], será celebrada em San Salvador aquela que, com razão, pode
ser considerada a beatificação mais importante do século XXI, onde Dom Oscar Romero alcançará o estágio final
antes da santidade na Igreja Católica.
Trata-se de
um evento que remonta uma história
ocorrida 35 anos atrás, sendo difícil imaginar alguém com uma trajetória
mais marcante.
No estágio
inicial de uma guerra civil sangrenta em El Salvador, no final da década de
1970, Oscar Romero era o representante
mais importante dos pobres e das vítimas de abusos dos direitos humanos no país.
Esta sua postura obviamente ameaçava as estruturas de poder, pois, numa cena
tirada diretamente da obra “Crime na
Catedral”, de T.S. Eliot, Romero
fora atingido enquanto rezava uma missa no dia 24 de março de 1980.
Ninguém foi
processado pelo assassinato, embora seja amplamente aceito que os assassinos eram ligados a um esquadrão
da morte da direita salvadorenha. Homens armados também atacaram uma
multidão seis dias depois, no funeral do sacerdote, deixando dezenas de mortos.
Na sequência
de um golpe apoiado pelos Estados Unidos em outubro de 1979, um regime militar
assumiu o poder no país. Um mês antes de
morrer, o religioso escreveu ao presidente americano Jimmy Carter pedindo-lhe
que suspendesse a ajuda militar e econômica ao governo de seu país,
insistindo que os novos governantes “só sabem reprimir o povo e defender os
interesses da oligarquia salvadorenha”.
Um dia antes
de ser morto, Romero implorou, até mesmo
ordenou, que os soldados e membros das forças de segurança não atirassem contra
os cidadãos.
Desde o dia
em que morreu, Romero vem sendo popularmente reverenciado como um mártir e um
santo. O processo formal de canonização, no entanto, foi mantido parado por
décadas. Em parte, este bloqueio deveu-se a prelados latino-americanos
conservadores que achavam que condecorar Romero com uma auréola poderia ser
visto como uma aprovação da política marxista de esquerda.
O Papa Bento XVI reabriu o caso de Dom
Oscar Romero, e o Papa Francisco parece determinado a finalizá-lo. Ainda em
2007, o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio teria dito a um sacerdote
salvadorenho que “[Romero], para mim, é
um santo e um mártir (...) Se eu fosse papa, já o teria canonizado”.
Há quatro
motivos por que a beatificação de Romero seja um momento de virada na Igreja
Católica.
[1º] Primeiro, ela marca uma cura nas tensões envolvendo a “Teologia da Libertação”,
movimento no catolicismo latino-americano de promoção da justiça social. A
ideia nuclear desta teologia é a “opção pelos pobres”, ou seja: que a Igreja
deve ter uma preocupação especial, assim como teve Cristo, pelos oprimidos e
marginalizados.
Batalhas
enormes foram travadas em torno da Teologia da Libertação nas décadas de 1980 e
1990. Um consenso moderado entrou em seu lugar, e ele se expressa assim: se
“Teologia da Libertação” significa lutar contra a pobreza e buscar a justiça
social, então a resposta é sim; se significar rebelião marxista armada e luta
de classes, a resposta é não.
Beatificar Romero, um herói para este
movimento teológico, equivale a um endosso desta paz.
[2º] Segundo, Romero
torna-se um santo padroeiro dos cristãos perseguidos em outros lugares num
momento em que a violência contra os cristãos se tornou um desafio central para
os defensores dos direitos humanos.
No começo do
século XXI, as estimativas para o número
de cristãos mártires anualmente vão de 100 mil a alguns poucos milhares.
Isso representa 1 vítima a cada cinco
minutos, e 1 em uma hora. Dada a ascensão do Estado Islâmico, os cristãos hoje são, provavelmente, o grupo religioso
mais vulnerável do mundo.
Nesse
contexto, a beatificação de Romero não só dá ao mundo um padroeiro como também
faz um chamado à ação.
[3º] Terceiro, esta beatificação ratifica um novo padrão para o que conta como “martírio” no catolicismo.
Não mais é necessário morrer explicitamente in
odium fidei, nas mãos daqueles que odeiam a fé – o que era o critério
tradicional. Pode-se ser reconhecido como mártir por morrer in odium caritatis, como uma vítima na mão de pessoas motivadas por um
ódio à caridade.
O teólogo
peruano Gustavo Gutiérrez, um dos fundadores da Teologia da Libertação, disse
recentemente: “Este é o martírio
latino-americano: dar a própria vida pela justiça, pelo amor às pessoas (...)
Acho que o testemunho de buscar a justiça, o respeito pela dignidade humana, é
uma afirmação da doutrina”.
[4º] Quarto, Romero
simboliza a Igreja socialmente engajada que o Papa Francisco quer ver.
O bispo
auxiliar Gregorio Rosa Chávez, de San Salvador, que trabalhou em estreita
colaboração com Dom Oscar Romero, recentemente disse à Rádio Vaticano que o arcebispo assassinado é um “ícone do tipo
de pastor que Francisco quer, o ícone da Igreja que Francisco deseja (...) uma
Igreja para os pobres”.
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TRADUÇÃO: "Muitos quiseram que o pobre sempre dissesse que é 'vontade de Deus' viver pobre. Não é vontade de Deus que uns tenham tudo e outros não tenham nada". Dom Óscar Arnulfo Romero |
Para o
pontífice, beatificar Romero não tem a ver somente com honrar a sua memória.
Como a escolha do nome “Francisco”, em referência ao grande amante da “Senhora
Pobreza”, beatificá-lo também expressa um programa de governo.
Os
organizadores têm manifestado a esperança de que a cerimônia de beatificação –
que deve ser um dos maiores eventos públicos na história de El Salvador – irá
dar início a uma redescoberta do legado de Romero, que corre o risco de ser
negligenciado com o passar dos tempos.
Quando Francisco
visitou uma favela no Rio de Janeiro, em 2013, os organizadores levantaram uma
grande imagem de Romero num campo de futebol onde o pontífice se encontrou com
os mais pobres dos pobres. Curioso em saber até que ponto os latino-americanos
de fora de El Salvador sabem a respeito do famoso mártir, me pus a conversar
com várias pessoas aleatoriamente.
A resposta
mais comum, quando perguntei o que sabiam sobre Romero, era: “Em qual time de
futebol ele joga?”.
Agora que
ele está prestes a se tornar um santo padroeiro de um papa popular
latino-americano, talvez Romero recupere
a fama que a sua história merece.
Pressão
vaticana à África mostra por que a soberania é importante
De vez em
quando, há pedidos para se pôr fim no status do Vaticano como um Estado
soberano, principalmente quando ele parece dar a Roma um habeas corpus para as
consequências de um escândalo.
Por exemplo,
o Vaticano invocou a sua soberania como um escudo contra processos judiciais
nos EUA que buscavam indenização para as vítimas de abusos sexuais cometidos
pelo clero. Tal movimento irritou algumas vítimas e os seus advogados, e
ocasionalmente acende o debate sobre se é hora de se eliminar uma convenção
legal que os críticos veem como um anacronismo medieval..
Por outro
lado, ser um Estado soberano também
permite que o Vaticano promova justiça social e causas humanitárias de uma
forma que, é bem provável, nenhuma outra força no planeta poderia fazer.
Exemplo
disso foi o caso desta semana, quando o
Vaticano anunciou um novo fórum para os diplomatas africanos apresentarem
soluções para a crise crescente de imigração.
Mais de 3
mil migrantes africanos morreram no Mar Mediterrâneo tentando chegar à Europa
na primeira metade de 2015, segundo um funcionário da Caritas em declaração recente. Este número equivale a duas
embarcações do tamanho do Titanic.
No começo de
maio, o número de mortes já era maior do que o total de 2014.
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Cardeal Peter Turkson - de Gana (África): Prefeito do Pontifício Conselho "Justiça e Paz" - Vaticano |
Nesta
semana, a União Europeia apresentou um novo plano para lidar com a crise, que
traz um sistema de quotas para distribuir os migrantes ao longo de uma série de
Estados, e intensificou os esforços navais para impedir o trabalho de
contrabandistas que atuam no litoral da Líbia e destruir as suas embarcações.
Embora a grande maioria das pessoas que
arriscam suas vidas para chegar à Europa sejam africanas, representantes
africanos têm estado ausentes de grande parte do debate.
Na
quinta-feira (14 de maio), o Cardeal
Peter Turkson, de Gana, prefeito do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”,
anunciou a criação de um novo fórum para os embaixadores africanos à Santa Sé.
O grupo irá desenvolver soluções concretas para a crise imigratória, as quais
serão apresentadas aos seus governos. O objetivo é que estas propostas se
tornam parte da discussão internacional.
(“Santa Sé”
é o termo técnico para estado jurídico do papado como uma entidade soberana no
Direito Internacional.)
“Por que
todos estão falando sobre isso e nada está vindo da África?”, perguntou-se
Turkson em entrevista à Rádio Vaticano. “Não
estamos ouvindo os chefes de Estado africanos. Não estamos ouvindo a União
Africana”.
Reconhecendo
que o poder dos embaixadores é limitado, “nós ainda pensamos que podemos
uni-los e criar (...) uma plataforma para que eles troquem ideias”, disse
Turkson.
Entre outras
coisas, os embaixadores podem exercer uma pressão contra a militarização da
resposta europeia à crise imigratória, já que a população primária posta em
risco pelos ataques aos navios no Mediterrâneo não são os contrabandistas, mas
africanos pobres que, tragicamente, são tratados como cargas dispensáveis.
Por três
motivos, esta soberania dá ao Vaticano uma capacidade única de garantir uma
plataforma pública para que os representantes no vaticanos sejam ouvidos.
Em primeiro
lugar, existe uma concentração maior de
diplomatas africanos em Roma do que praticamente em qualquer outro lugar da
Europa. Dada a religiosidade intensa da maioria das sociedades africanas,
os seus enviados à Santa Sé tendem a ser pessoas muito capazes, com uma
capacidade acima da média em mexer os pauzinhos para coisas sobre as quais eles
se preocupam.
Em segundo
lugar, a Igreja Católica é vista como um
ator político e social sério na África. Em parte, isso se deve ao rápido
crescimento da Igreja aí. No século XX, a população católica da África
subsaariana foi de 1,9 milhão para 130 milhões, uma taxa de crescimento
impressionante de 6.708%. Em parte também por causa do trabalho social da
Igreja. A Organização Mundial da Saúde,
por exemplo, estima que grupos religiosos fornecem entre 30 e 70% de toda a
assistência médica na África, sendo grande parte deste trabalho mantido pela
Igreja Católica.
Consequentemente,
os governos africanos, diplomatas, jornalistas e ativistas levam a sério as
iniciativas encabeçadas pelo Vaticano.
Em terceiro
lugar, quando o Vaticano auxilia os
líderes africanos, ele não o faz como uma força estrangeira.
Hoje, uma
faixa crescente das estruturas de poder da Igreja se compõe de africanos
influentes, com Turkson sendo um dos principais entre eles. A ideia de que o futuro da Igreja reside na
África se tornou moeda corrente, com muitos analistas falando sobre um “momento
africano” no catolicismo.
Um líder
africano visitando Bruxelas ou Washington não pode contar com membros de
gabinete peso pesados africanos em tais lugares para apoiá-los, mas em Roma
pode-se recorrer a Turkson, ao Cardeal Robert Sarah (da Guiné), ao Cardeal
Francis Arinze (da Nigéria), ou talvez ainda ao Cardeal Laurent Monsengwo
Pasinya (do Congo) – que não mora em Roma, mas que frequentemente se encontra
na cidade como participante do importante “G9”, conselho de cardeais assessores
do papa.
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Imigrantes provenientes da África são recolhidos por barco da marinha italiana. São milhares que chegam à Itália fugindo da fome, perseguições e morte. |
Os bispos
africanos estão também intensificando a sua presença dentro da União Africana,
requisitando o status de observador para o SECAM – conjunto de todos os
prelados católicos do continente.
Como resultado, as parcerias com o Vaticano
soam mais naturais para muitos africanos do que aquelas firmadas com outras
instituições ocidentais.
Embora o
Vaticano possa criar um fórum sem ser um Estado soberano, é pouco provável que
os governos africanos investiriam os mesmos recursos sem este estado jurídico.
Entre outras coisas, não haveria embaixadores africanos para se organizarem, se
o Vaticano não tivesse relações diplomáticas com os países que eles
representam.
É igualmente
improvável que a União Europeia, a ONU, a Casa Branca e outros centros do poder
mundial ficariam tão atentos ao Vaticano sem esta sua reputação internacional
única.
A soberania vaticana, em outras palavras,
não é apenas uma relíquia. É uma ferramenta poderosa no aqui e agora, uma
ferramenta pela qual os líderes africanos podem ser gratos.
Traduzido
do inglês por Isaque Gomes Correa. Para acessar a versão original deste artigo, clique aqui.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos –
Notícias – Terça-feira, 19 de maio
de 2015 – Internet: clique aqui.
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