Catolicismo 2015-2025: o que vai acontecer?
Massimo
Faggioli*
TheHuffingtonPost.it
09-05-2015
A questão
institucional da Igreja está em aberto: Paulo VI tentou reformar a Cúria, João
Paulo II confiou-se ao Santo Ofício para governar, e Bento XVI nunca viu o
governo da instituição eclesiástica como uma das suas tarefas principais. Os
resultados do último meio século estão diante dos olhos de todos. Não é uma
questão apenas formal de colegialidade, descentralização e subsidiariedade do
processo decisional, mas uma questão substancial.
As mudanças ocorridas no catolicismo mundial na década de
2005-2015 deveriam desencorajar qualquer pessoa de fazer previsões sobre o
catolicismo na próxima década de 2015-2025. Dez anos atrás, em abril de 2005,
um conclave que lidava com a pesada herança de João Paulo II elegia ao papado
Joseph Ratzinger, o candidato natural.
A eleição de Bento XVI era o triunfo de apenas uma das
muitas e diversas almas de Karol Wojtyla: para alguns, era o fim de um certo
"catolicismo social" e o início de um catolicismo solidamente
doutrinário. Mas foi possível ver que o papa teólogo não era uma interpretação
do papel do papado sustentado por parte de um catolicismo em que a teologia é
muito mais a exegese do que o ditado da fé.
A surpreendente renúncia do Papa Bento XVI em fevereiro 2013
chegou no fim de um pontificado relutante em assumir todas as responsabilidades
conectadas com o ministério do bispo de Roma, no plano pastoral, ecumênico,
inter-religioso e diplomático. A eleição
do Papa Francisco no dia 13 de março 2013 ocorreu em uma Igreja mais chocada e
dilacerada do que se podia admitir.
A polarização intraeclesial é o primeiro elemento central
para arriscar qualquer conjectura a respeito da próxima década:
·
não é sempre uma polarização político-ideológica (como nos EUA), mas é também
·
uma polarização
entre Igreja local-nacional e o Vaticano (como, por exemplo, na Alemanha),
·
entre os
bispos e os novos movimentos eclesiais (como no Japão),
·
entre uma
Igreja missionária e uma Igreja institucional do status quo (na Itália e um pouco em todas as partes).
É uma polarização da qual o Papa Francisco está bem consciente e que torna o papado essencial hoje
mais do que antes, como símbolo de unidade depois de dois pontificados que
não são lembrados pelos católicos de um e de outro lado como particularmente
eficazes em manter a Igreja unida.
Nesse sentido, a questão
institucional da Igreja Católica parece ser, para a grande maioria dos
católicos que não se apaixonam pela política interna no Vaticano, muito menos
urgente do que outras. Mas a próxima
década será decisiva para demonstrar a capacidade ou a incapacidade da Igreja
de se reformar.
O governo central da Igreja, a Cúria Romana, hoje, ainda é
impressionantemente semelhante à que foi criada em 1588; as reformas do século
XX a retocaram sem nunca incidir em uma estrutura
criada em uma época pré-moderna. O papel da Congregação para a Doutrina da
Fé (o ex-Santo Ofício) ainda é substancialmente um papel de censura: daí a
decisão do Papa Francisco de redimensionar radicalmente a voz dessa congregação
durante o seu pontificado.
Mas a questão institucional está em aberto: Paulo VI tentou
reformar a Cúria, João Paulo II confiou-se ao Santo Ofício para governar, e o
ex-prefeito dessa congregação (1981-2005), Joseph Ratzinger-Bento XVI, nunca
viu o governo da instituição eclesiástica como uma das suas tarefas principais.
Os resultados desse último meio século estão diante dos olhos de todos,
católicos ou não. Não é uma questão apenas formal de colegialidade,
descentralização e subsidiariedade do processo decisional, mas uma questão
substancial.
Qualquer pessoa que esteja a par dos resultados da
centralização dos últimos anos anteriores ao Papa Francisco (um exemplo: a nova
tradução em inglês do missal) conhece os desastres
causados por uma "romanização" imposta pelo Vaticano a uma Igreja
cada vez mais global.
Se olharmos para a tentativa de nova "romanização"
iniciada antes da eleição do Papa Francisco, é óbvio que a década anterior – e,
especialmente, o pontificado de Bento XVI – coincidiu com as tensões mais
graves sobre a unidade da Igreja em torno de algumas questões relacionadas com
o ensinamento da Igreja, especialmente sobre a sexualidade e sobre o papel da
mulher na Igreja.
Não por acaso, esse período também é o da tentação por parte de muitos (mas não
do Papa Bento XVI) de arquivar o
Concílio Vaticano II no armário da história, entre as ideias e as doutrinas
não mais adaptadas para o nosso tempo. O Papa Francisco retomou nas mãos o
Concílio Vaticano II, que não tinha abordado diretamente as questões da
sexualidade e do papel da mulher na Igreja, para chegar a falar dessas
questões.
O Papa Francisco tem
diante de si, depois de uma década de tradicionalismo encorajado pelo Vaticano,
a tarefa de apresentar uma Igreja consciente daquilo que, na tradição, pode ser
mudado. Na década futura, esse será o debate, em uma Igreja muito mais
global do que nunca, em que a lista das questões a serem examinadas –
sexualidade e homossexualidade, mulher, o matrimônio e família, justiça social
e ambiente – faz parte de um elenco que tem prioridades diferentes de acordo
com a a latitude dos catolicismos.
Por esse motivo, o Sínodo dos bispos convocado pelo Papa
Francisco no Vaticano, em duas partes (outubro de 2015 e outubro 2015 – um fato
sem precedentes) é um novo início para uma Igreja que, na próxima década, vai
descobrir se a colegialidade do Papa Francisco permanecerá como uma das
características do catolicismo do século XXI (finalmente recebendo o ditado do
Vaticano II), ou, ao contrário, se a Igreja está destinada a permanecer como um
sistema imperial.
Mas o império católico, contudo, é frágil e muito diferente
do dos séculos anteriores, até mesmo do século XX. As duas questões mais imediatas e dramáticas são:
·
a gestão de uma Igreja de mais de um bilhão de
fiéis com um corpo de clérigos e ordens religiosas cada vez mais reduzido, e
·
as perseguições anticristãs em muitos países da
África e da Ásia.
Esses dois desafios,
em certo sentido, levam a Igreja novamente às suas origens e aos primeiros
séculos. O ano de 2025 será o aniversário do primeiro Concílio da Igreja
universal, celebrado em Niceia, no ano 325: poderia ser a ocasião para um novo
encontro ecumênico entre catolicismo e outras Igrejas cristãs. Aquele que o
Papa Francisco chamou de "ecumenismo do sangue" poderia levar o catolicismo
por caminhos imprevisivelmente novos.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Para acessar a
versão original deste artigo, clique aqui.
* Massimo Faggioli é historiador italiano, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em
Minnesota, nos EUA.
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