"VIDA EM CONDOMÍNIO": TODOS CONTRA TODOS
Entrevista
com Christian Ingo Lenz Dunker
Psicanalista, Professor da USP e escritor
Psicanalista, Professor da USP e escritor
André de
Oliveira
Para
psicanalista, os condomínios foram vendidos como espaços de confraternização,
mas vêm para frisar diferenças
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Christian Dunker - psicanalista e professor da USP |
A psicanálise, segundo Christian
Dunker, ocupa hoje papel importante na vida brasileira. Não é apenas sua
ampla aceitação entre a população como forma de tratamento que a tem colocado
em destaque, mas também a função cada
vez mais civilizatória que vem exercendo em locais onde o vazio cultural é
mais costumeiro. É normal, por exemplo, encontrar psicanalistas que junto de
seus escritórios abrem clubes de leitura e que, além disso, são chamados a
opinar sobre questões do cotidiano. Desse ponto de vista, a reflexão iniciada
no recém-lançado livro de Dunker, Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma: uma
Psicopatologia do Brasil entre Muros, da Boitempo Editorial, não é um
ponto fora da curva. Ao fazer sua crítica social, ele coloca o Brasil no divã.
Psicanalista e
professor titular do departamento de Psicologia Clínica do Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Dunker tem dezenas de
artigos científicos publicados no Brasil e no exterior e, em 2012, ganhou o
Prêmio Jabuti com sua tese de livre-docência Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica, publicada pela
Annablume. Na nova discussão que está propondo, no entanto, o professor não se
atém apenas a questões da psicanálise, mas as usa para interpretar o País, identificando na “vida em condomínio” uma
imagem capaz de elucidar muito do momento atual brasileiro.
Em entrevista ao [suplemento] Aliás, Dunker fala sobre as várias faces do mal-estar brasileiro,
trata de como a lógica do condomínio - muito maior do que apenas o condomínio
em si - criou barreiras sociais e, por fim, comenta os reflexos desse modo de
vida brasileiro dentro e fora de seus muros. “Quando todo mundo é igual, isso se torna uma pólvora, um combustível.
No condomínio, que fica abrigado da guerra de todos contra todos, cria-se uma
guerra de todos contra todos entre iguais.”
O senhor pode fazer um histórico do
mal-estar brasileiro até chegarmos ao condomínio como imagem capaz de ilustrar
o país?
Christian Dunker:
A grosso modo, no momento anterior,
que eu vou caracterizar como o momento da ditadura e o que a antecedeu, nossa
forma de mal-estar estava muito baseada na oposição entre campo e cidade.
Existia um problema que precisava ser superado: saber como urbanizar e
conquistar o Brasil, que tem uma área gigante e desabitada. Ou seja, o grande
interpretante diagnóstico era a oposição entre desenvolvimento e
subdesenvolvimento. Isso fazia parte de um entendimento que pensa o coletivo
como um processo comum. Nós estávamos em uma linha reta, poderíamos avançar,
estagnar ou ir para trás. O Brasil era encarado como uma espécie de Belíndia,
metade Bélgica, metade Índia. A ideia era que a Bélgica precisava puxar a
Índia. Como essa contradição ia ser resolvida? Você tinha uma discussão sobre
os destinos do Brasil como uma totalidade.
O senhor identifica o
subdesenvolvimento como sendo o mal-estar daquela época?
Christian Dunker:
Sim. Era o sentimento de que nós não estávamos onde deveríamos. Mas outra coisa
precisa ser dita. Existe uma ideia forte de que o mal-estar é um empuxo para
uma nomeação. É como uma situação social em que acontece uma coisa que não
deveria ser mencionada, mas é. Ou ao contrário. Quer dizer, a gente não pode
confundir essa experiência com o nome que damos para ela. O mal-estar é uma
coisa mais complicada, que está aí. O que a gente faz é jogar para cima dele um
nome e ir o retificando. Por exemplo, não se chamava o mal-estar de pobreza ou
de descalabro do governo, como se faz agora. Dávamos outros nomes. Mapear o
mal-estar é uma coisa que você faz meio indiretamente: você vai vendo como é
que os nomes mudam e aí infere o que se alterou na configuração social. A gente poderia dizer que tínhamos um
mal-estar que foi hipernomeado por “subdesenvolvimento”.
Ele é uma construção coletiva e também existencial. Tem a ver com a posição que
temos diante do mundo. Daí essas leituras de que estávamos na periferia, por
exemplo.
E o senhor acredita que a nomeação
desse mal-estar mudou durante a ditadura militar?
Christian Dunker:
Sim. Eu localizo isso em meados dos anos 1970, mas principalmente a partir dos
anos 1980, quando esses diagnósticos de mal-estar começam a ser insuficientes.
É justamente nessa época que surgem os primeiros condomínios. Ele representa a
perda de uma preocupação com o ponto de vista da totalidade [que é como
superaríamos o subdesenvolvimento brasileiro] e passa a assumir uma moral da sobrevivência. As pessoas se
demitem de tentar entender como fazer para Bélgica e Índia andarem juntas e
recolhem-se em uma porção de terra, defendida por muros, onde conseguem recriar
um mundo em que possam governar, em que são senhores das leis e em que planejam
tudo. Ele é o princípio de formação de uma identidade sintomática.
Mas como o condomínio aparece nessa
mudança de ponto de vista?
Christian Dunker:
O condomínio pega justamente esse arco em que você precisa redefinir o
mal-estar. Ele não vai ser mais o subdesenvolvimento, a partir daquele momento
ele será renomeado por violência. O
mundo se tornou perigoso, por isso os muros do condomínio. Mas alguém pode
perguntar: o mundo já não era um lugar
perigoso? Era, mas não era assim que uma pessoa da década de 60 olhava para a
diferença social. Ela não era uma coisa perigosa. Quem gestou a retórica do perigo? Foi a ditadura, que falava
incansavelmente de inimigos internos e externos. Nesse período, o Brasil se
fechou, porque, na retórica deles, nós tínhamos que nos defender criando
monopólios, áreas de clientelismo, de restrição de circulação. Isso acabou
gerando uma prática de produzir bolsões. Em seguida, deu origem a um novo
sintoma, que são os condomínios. Nessa nova estrutura, é óbvio que criar um
modo de vida em que o inimigo está lá fora é quase que natural. De repente, a
rua virou um bicho perigoso. Isso tem a ver com transformações urbanas, com
migração? Sim, um pouco. Mas tem a ver com a emergência de uma cultura que se interpreta a partir desse novo nome: violência. A dinâmica das coisas
passa por esse novo nome. A partir daí você tem toda uma nova retórica política em torno de vender
segurança.
Só que essa forma de viver em
condomínio não é exclusivamente brasileira, certo? Os subúrbios americanos são
um bom exemplo de algo similar ao que temos aqui. Como, então, ela pode falar
tanto do nosso País?
Christian Dunker:
Eu a identifico como única do Brasil, sim. Tem uma coisa muito interessante das
propagandas dos primeiros condomínios. É que no formato americano de subúrbios
que, de fato, a gente basicamente importou, os condomínios eram vendidos como
um lugar de confraternização e de resolução de diferenças, entre outras,
étnicas. Lugar em que você teria o oriental, o negro, o branco, o do sul e o do
norte convivendo. No fundo, as diferenças foram apenas homogeneizadas; não à
toa, estamos acostumados a ver isso em uma série de sátiras, como o filme Beleza Americana. Então, qual é a diferença pro caso brasileiro?
Quando os condomínios foram vendidos, não existia referência alguma nas
propagandas brasileiras de que aquele era um lugar em que pessoas diferentes
poderiam viver juntas. Pelo contrário, ele vem instituir práticas que eram sociais
como normativas, vem para
profissionalizar as diferenças: os empregados uniformizados devem entrar por
uma porta, os reais habitantes daquele espaço por outra. Por que isso? Porque no fundo esse espaço foi criado a
partir dessa suposição de que lá fora é perigoso.
Quando o senhor fala do condomínio,
fala mais dele como uma lógica presente no País do que apenas do espaço
condomínio propriamente dito?
Christian Dunker:
Sim. Ele é só um caso modelo, essa história vai além do condomínio [em si]. Na
configuração das cidades, por exemplo, acredito que ele forma uma estrutura com
a favela, prisão e shopping center. Ele
forma uma variação com o monopólio, com as zonas restritas dentro daquilo que
deveria ser um espaço público. É um fake
do espaço público, uma deformação e uma substituição. Ao mesmo tempo que você
tem essa demissão dupla do Estado; de um lado a favela, de outro o condomínio,
você começa a ter os grandes empreendimentos de cessão, como o Projeto Jari. É como se o Estado estivesse falando que
não consegue, que se demite de sua função. Aí você se livra, você está por
sua conta. Quem manda em quem entra e quem sai do shopping? Ninguém, mas a
ideia é que se consiga selecionar um grupo de consumidores, excluindo outro.
Acho que isso capta melhor o que eu quero dizer com a lógica do condomínio. É uma lógica que alcança portarias invisíveis,
crachás que estão além da regra, mas que funcionam.
E o senhor acredita que a “vida em
condomínio” ainda está em ascensão?
Christian Dunker:
Esta é uma questão em aberto, é opinar sobre algo que está acontecendo agora,
mas eu acredito que não, acho que está em declínio. Mas aqui é importante dizer
que existem algumas narrativas do sofrimento e que duas delas são
essencialmente formadoras da lógica do condomínio. Uma é o objeto intrusivo, ou
seja, você sofre porque tem alguma coisa de fora te fazendo sofrer. A outro é o
pacto malfeito, que é quando alguém está quebrando alguma regra. O condomínio
faz parte de uma lógica de bem-estar, é a lógica de um ideal tornado realidade,
porque teoricamente ele elimina essas duas narrativas de sofrer. Não existe
mais sofrimento, mas sabemos que isso não é verdade. Assim, eles surgiram como espaços de luz e felicidade, mas resultaram
numa redução da nossa capacidade de lidar com diferenças. Freud [1] tem um nome técnico para isso: é o narcisismo das pequenas diferenças.
E por que isso mostra que essa forma
de viver começa a entrar em declínio?
Christian Dunker:
A pequena diferença se amplifica. Quando todo mundo é igual, ela se torna uma
pólvora, um combustível. No espaço que fica abrigado da guerra de todos contra
todos, cria-se uma guerra de todos contra todos entre iguais. Aparecem disputas pelo melhor tênis, o
carro mais caro, o jardim mais verde. Quando isso acontece, a gente começa
a ficar intolerante, colérico, irascível, mal-humorado. Aí também entra a figura do síndico, que é um gestor, um cumpridor de normas, um fazedor de regras que vai legislar em cima
de conflitos, estabelecendo um lego de normas em nome do bem-estar. Isso é a judicialização dos conflitos. É a ausência completa de palavra para lidar
com a diferença, um tipo de autoridade impessoal e sistêmica que leva para
outras formas de sofrimento. É o sentimento de que a gente não sabe direito
qual é o nome da autoridade que nos comanda.
É nesse momento que o senhor
acredita que condomínio como ideia de bem-estar começa a ruir?
Christian Dunker:
Sim. É a fonte do retorno do mal-estar. Ao prometer para alguém que tudo o que
ela quer está disponível, se reduz seu desejo à demanda. Uma imagem boa é a da
criança mimada que ganha tudo. Qual é o problema disso? É que você confunde o
que ela pede com o que ela deseja. É nessa lógica que começa a aparecer o
adolescente que se dopa demais, a criança hiperativa, aquela dona de casa tipo Desperate Housewives [série americana de
TV que retrata a vida de donas de casa em um subúrbio americano], o executivo
eternamente ansioso com sua produtividade e desempenho. É uma resposta natural
ao modo como as pessoas estão vivendo. Na primeira fase do sintoma da vida em
condomínio, está tudo tranquilo, na segunda você começa a sentir o cheiro do
ralo. Alguma coisa não vai bem, mas você não sabe o que é, porque teoricamente
tudo deveria estar bem, já que as formas de sofrimento foram isoladas do
condomínio.
Tudo isso começa a aparecer dentro
dos muros, mas como o senhor enxerga esse tipo de insatisfação para além deles?
Christian Dunker:
Está no jovem que não quer mais um carro, que quer bicicleta. Está na tentativa
de reocupação de áreas centrais da cidade. Mas também está nas pessoas que vão
para a Paulista protestar. Esse momento
é vivido como angústia, que é uma das expressões fundamentais do mal-estar.
O problema é que junto disso está vindo
uma onda muito forte de ódio. E não é o ódio saudável que ajuda a separar
quando preciso. É o ódio que junta.
Uma vez que falar de violência já não responde totalmente a questão do
mal-estar, começam a surgir outras nomeações. As pequenas diferenças dos condomínios fizeram com que se perdesse a
ideia de “nós”, por isso é necessário criar um novo “eles” para se reafirmar.
Vamos nomear isso: são os comunistas, os corruptos, os coxinhas, os ladrões. Aí você vê ressurgirem coisas como a
retórica do inimigo vermelho. É um absurdo. Ninguém mais quer uma
revolução, a esquerda virou tão somente a defesa do social, ninguém mais fala
em estatizar bancos. Só que esse discurso era o que havia de reserva e ele torna
a ser característico de empreendimentos atuais: Bolsonaro [2] indo para a praça
pública com um revólver no cinto, black
blocks quebrando tudo, um cidadão sendo vaiado em um ambiente como o de um
hospital ou restaurante.
Mas, apesar do acirramento, essa não
é a divisão natural entre esquerda e direita?
Christian Dunker:
Existe um elemento novo. Quase sempre, ou pelo menos nesse arco histórico que a
gente está discutindo, a esquerda pensava a cultura, as formas de vida
alternativas. E a direita pensava economia, política. O que está acontecendo? Uma parte da direita está se redefinindo
com um discurso moral de vanguarda. Somos “nós” contra “os ladrões”, “os
que não podemos confiar”, “os bandidos”. Numa reconstrução do argumento, você
chega numa versão da lógica do condomínio com ódio explícito. É o Feliciano [3] tentando
pautar a cultura. E isso é inédito. Esse momento, tudo isso, sugere que o muro não está exercendo mais sua função.
É um momento novo.
N
O T A S :
[ 1 ] –
Sigmund Schlomo Freud (Freiberg in
Mähren, 6 de maio de 1856 — Londres, 23 de setembro de 1939), mais conhecido
como Sigmund Freud, foi um médico
neurologista e criador da Psicanálise. Freud nasceu em uma família judaica, em
Freiberg in Mähren, na época pertencente ao Império Austríaco. Atualmente a
localidade é denominada Příbor, na República Tcheca. Freud iniciou seus estudos
pela utilização da técnica da hipnose como forma de acesso aos conteúdos
mentais no tratamento de pacientes com histeria. Ao observar a melhoria de
pacientes de Charcot, elaborou a hipótese de que a causa da doença era
psicológica, não orgânica. Essa hipótese serviu de base para seus outros
conceitos, como o do inconsciente. Freud
também é conhecido por suas teorias dos mecanismos de defesa, repressão psicológica
e por criar a utilização clínica da psicanálise como tratamento da
psicopatologia, através do diálogo entre o paciente e o psicanalista. Freud
acreditava que o desejo sexual era a
energia motivacional primária da vida humana, conhecida como libido, assim como suas técnicas
terapêuticas. Suas teorias e seu tratamento com seus pacientes foram
controversos na Viena do século XIX, e continuam a ser muito debatidos hoje (Fonte: Wikipédia).
[ 2 ] –
Jair Messias Bolsonaro (Campinas [SP], 21
de março de 1955) é um militar da reserva e deputado federal brasileiro. De
orientação política de direita, cumpre sua sexta legislatura na Câmara dos
Deputados do Brasil, eleito pelo Partido Progressista. Tornou-se conhecido
nacionalmente após fazer declarações controversas e consideradas homofóbicas,
racistas, machistas e sexistas por diversos setores da sociedade. Além disso,
Bolsonaro também é conhecido por defender a ditadura militar no Brasil e
considerar a tortura uma prática legítima. Suas posições políticas geralmente
são classificadas como alinhadas aos discursos da extrema-direita (Fonte: Wikipédia).
[ 3 ] –
Marco Antônio Feliciano (Orlândia
[SP], 12 de outubro de 1972) é um pastor neopentecostal da Catedral do
Avivamento, uma igreja ligada à Assembleia de Deus, e deputado federal
brasileiro. Eleito pelo Partido Social Cristão (PSC) em 2010 com 212 mil votos,
foi o segundo político evangélico com maior número de votos no país e o 12°
entre os 70 deputados eleitos pelo Estado de São Paulo. Foi eleito presidente
da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados do
Brasil, cargo que exerceu durante o ano de 2013, o que gerou controvérsia pelas
diversas declarações polêmicas de Feliciano, principalmente em relação a temas
como direitos dos homossexuais e direito ao aborto (Fonte: Wikipédia).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 24 de maio de 2015 – Páginas E2-E3 –
Internet: clique aqui.
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