DOIS RETRATOS DA "FARRA" POLÍTICA BRASILEIRA
Farra
na Assembleia Legislativa paulista
Editorial
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"Palácio 9 de Julho" Sede da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo Parque do Ibirapuera - São Paulo - SP |
A Mesa
Diretora da Assembleia Legislativa de São Paulo, a título de submeter todas as áreas da
administração pública às "modernas formas de prestação de contas e a transparência",
encaminhou a votação, em regime de urgência, de três projetos que preveem a criação de ao menos 96 cargos
comissionados - cujo preenchimento não depende de concurso.
Os gastos com essa iniciativa, justamente em
um momento em que o governo paulista corta
despesas para atravessar a crise, reafirmam a vocação da Assembleia para desperdiçar o dinheiro do contribuinte
- infelizmente um mal que não se limita àquela Casa nem tampouco ao Estado de
São Paulo.
Todos os
projetos têm como autores a própria Mesa Diretora, formada pelo presidente Fernando Capez (PSDB), pelo primeiro-secretário
Enio Tatto (PT) e pelo segundo-secretário
Edmir Chedid (DEM). Se aprovadas, as
medidas criarão novas estruturas na Assembleia [Legislativa de São Paulo].
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Deputado Fernando Capez (PSDB) Presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo |
Uma delas é
a Ouvidoria do Parlamento, que visa
a dotar a Assembleia "dos meios necessários
à consecução do atendimento ao cidadão quando este busca informações ou encaminha
demandas que nos cabe responder". Diz ainda o texto da resolução que se trata de uma medida "reclamada pela
população paulista" e que a prestação de contas, a partir do
encaminhamento dado pela Ouvidoria, é obrigação da Casa "por mandamento constitucional".
Tudo muito nobre, mas por que razão são necessários nada menos que 12 cargos
comissionados - frise-se, sem concurso público - para essa Ouvidoria?
A mesma
questão se pode fazer em relação a outro órgão a ser criado, o Gabinete da Corregedoria Parlamentar. A
justificativa para sua existência, que no projeto se resume a uma única frase,
é dar à Assembleia "os meios necessários ao desempenho de sua missão, de
maneira profissional e eficaz, como se exige desta que é a Casa do povo
paulista por excelência". Portanto, não
basta a já imensa e dispendiosa máquina administrativa à disposição dos nobres
deputados; para fazê-los trabalhar "de maneira profissional e eficaz"
era preciso criar outro gabinete - e para isso serão contratados mais 12 funcionários
sem necessidade de concurso.
A mais
importante das resoluções propostas, porém, é a que estabelece o Núcleo de Avaliação Estratégica, vinculado
diretamente à Mesa Diretora. Diz o texto que esse núcleo será responsável por
organizar o também novo Sistema de Avaliação de Desempenho da Administração
Pública, cuja função é recolher dados sobre a administração para oferecer "informações
abundantes às comissões da Assembleia Legislativa e aos cidadãos paulistas".
Já o tal
núcleo, de posse dessas informações, será responsável por organizar "audiências itinerantes" Estado afora e por
"elaborar uma cesta de índices e indicadores com a finalidade de facilitar
a verificação da utilidade social dos gastos públicos". Essa nova estrutura deverá ter 51
funcionários comissionados, como prevê o projeto.
Além de
todos esses cargos sem concurso, as
lideranças partidárias poderão preencher mais 21 vagas comissionadas nos três
novos órgãos. A oposição calcula que a
novidade vai representar um gasto extra de cerca de R$ 1,5 milhão mensais e
se queixa de que, graças à tramitação urgente, não lhe foi dado tempo para
apresentar emendas que limitem essa despesa.
O deputado Capez, presidente da
Assembleia, negou que ocorrerá aumento de gastos. Segundo ele,
haverá um "realocamento de custos", mas o parlamentar não esclareceu quais
despesas serão cortadas para realizar tamanho empreendimento.
Sugestões
para isso não faltam. A Assembleia
paulista é um monumento à gastança, com seus mais de 6 mil funcionários para
atender 94 deputados. Se querem mesmo tornar a Assembleia transparente, Capez e seus colegas da Mesa Diretora devem
começar por acabar com a farra dos cargos comissionados - cujo total supera
em 5 vezes o de cargos preenchidos por concurso e cujos salários a Assembleia
não divulga. Mas, pelo jeito, isso não vai acontecer tão cedo.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas e
Informações – Domingo, 3 de maio de 2015 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.
A
coerência de Marta
Carlos Melo
Cientista Político
e Professor do Insper
Quase tudo o que a senadora tem dito
a respeito do PT parece fazer sentido.
Mas quase tudo não é tudo
Quase tudo o
que Marta Suplicy tem dito a respeito do PT [Partido dos Trabalhadores] e do
governo parece fazer sentido. Para o bem e muito para o mal, a legenda perdeu o
brilho dos valores de sua fundação. Dispensou o patrimônio ético que um dia sua
estrela supôs luzir. Por sua vez, o governo Dilma, com precisão meticulosa,
errou em série: triunfalismo, ideologia, pensar estreito, cavalo de pau na
economia.
Também é
verdade - e Marta confirma - que o partido ajudou a promover transformações
positivas. Sim, quase tudo o que Marta diz a esse respeito faz sentido. Só não faz sentido a avaliação que ela faz
de si mesma.
A senadora não pode fugir à
responsabilidade. Prefeita e ministra, contribuiu com o longo processo que
se deu no PT. É oportuno lembrar que, por exemplo, Rui Falcão, hoje presidente da sigla, foi homem forte de sua administração na prefeitura de São Paulo e,
mais tarde, vice em sua chapa à
reeleição. Símbolo dos valores históricos do PT que hoje Marta diz representar,
Hélio Bicudo, seu vice até então, foi preterido naquela disputa em favor de Rui,
figura de importância exclusivamente interna. No poder, foi essa a opção de
Marta.
E Rui não se fez Falcão da noite para o
dia. Presidente do PT municipal, fez sangrar a gestão Erundina (1989-1992).
Há décadas está a serviço do atraso e da burocratização do partido. Pois a
gestão de Marta na prefeitura resgatou e fortaleceu a nomenklatura que, por
fim, controlou sua administração e a protegeu de questionamentos em várias
áreas. Apelidada de Martaxa, a ex-prefeita é caso raro de derrota num sistema em que a
reeleição foi feita para reeleger. Irônico que, à época (2004), Marta
atribuísse à política econômica de Lula, a causa de seu fracasso - a mesma
política que hoje, para se opor a Dilma, ela defende com ardor.
Marta pede coerência histórica e quase está
certa nisso. Mas, ministra do
Turismo durante o caos dos aeroportos em meados da década passada, receitou a
usuários relaxarem (ou algo mais que isto) e não gritou por reformas.
Candidata ao Senado, surfou no desenvolvimentismo da política anticíclica de
Dilma, Mantega e quetais. Em 2012, os
erros de Dilma iam céleres e Marta nada viu, nada alertou, não reagiu.
Antes, pressionou para voltar ao ministério como compensação à candidatura de
Fernando Haddad em São Paulo.
Coerência
pouca é empulhação: quando Marta ergueu
a voz foi antes para reivindicar espaços do que para questionar e rever
práticas. Dirá que nada sabia? É plausível que nunca tenha ouvido o
falatório e as suspeitas dos corredores de Brasília? Alegar desconhecimento
pesa contra. Sim, a senadora faz um bom juízo a seu respeito e é natural que o
faça. Quem se julga mais capaz tem obrigação de lutar pelo poder. E, claro,
suas pretensões são desde sempre legítimas, tanto quanto as de qualquer
cidadão.
O fato é que ela se considera “liderança
política” de qualidade superior. De boa-fé, é o julgamento que faz de si.
Para estes tempos de baixa, talvez até se destaque na terra arrasada da
liderança atual. Mas o mais provável é
que Marta seja apenas o resultado da confusão que normalmente ocorre entre
“celebridade” e “liderança”. A análise fria e distanciada de sua história
política permite inferir que a
ex-prefeita fez-se pelas circunstâncias. Foram as mãos da fortuna que a
colocaram no lugar certo, na hora exata do colapso do malufismo, em 1999-2000.
Mais do que isso: quando teve oportunidade de inverter o processo, não fez.
Romper
padrões sociais e sexuais na TV dos anos 1980 foi importante. Mas, de lá para
cá, na política formal, Marta apresentou bem menos que o necessário. No front
dos costumes políticos, não foi a prefeita que supõe. No centro da cena, exerceu a presença marcante de sua forte figura, de
sua personalidade altiva, mas não conduziu processos, não elaborou
transformações políticas. Nem questionou a tempo procedimentos que levaram
à hecatombe petista. Difere-se, nesse caso, de Luiza Erundina, desde sempre antagonista das direções do PT,
advertida e suspensa até o desenlace de sua saída do partido.
A estratégia
de Marta é bradar coerência e resgatar ovelhas perdidas do velho PT. Avançar -
empurrada pela fúria do antipetismo - sobre os despojos da administração
Haddad, desfilar críticas pelo solo vermelho das ciclovias do prefeito. Faz
sentido. Mas, coerentemente, admita-se
que, entre as ex-prefeitas do ex-PT, o rosto original da pureza dos valores do
PT de ontem é o de Erundina, não o de Marta.
Ex-adversários,
agora mais gentis, esfregam as mãos e acorrem à senadora, vítima em seu enredo
de ocasião. O magnetismo das grandes damas da sociedade, ao mesmo tempo
soberbas e benemerentes, volta a brilhar nos seus olhos. Marta rejuvenesceu e
está mais bonita. A sua carta-desfiliação seguiu-se o ritual de beija-mão
naturalmente oportunista de adversários que sentem o perfume inebriante da rosa
da cizânia que desabrocha no jardim do inimigo. Novamente, o poder de Marta não está no fundamento da ação, mas no
símbolo que incoerentemente ostenta. Agora, sob nova direção.
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