QUEM CRITICA A TEORIA DE MARX, CONHECE-A DE VERDADE?
Quatro
mitos sobre a crítica de Marx ao Capitalismo (ou “o que a crítica marxiana ao
capitalismo não é”)
Paulo Pachá
Capitalismo em
desencanto
18-05-2015
Em 2011, na
esteira de um renovado interesse por Marx e por sua crítica ao capitalismo, Terry Eagleton publicou um livro
intitulado “Marx Estava Certo” [edição em português: Nova Fronteira, 2012]. Cada
um dos dez capítulos do livro apresenta uma crítica usual ao marxismo (na maior
parte das vezes oriunda do senso-comum) e a resposta de Eagleton. O livro é uma
leitura interessante para qualquer leitor interessado, mas as dez críticas
selecionadas respondiam a critérios diversos, como o contexto britânico e a
subjetividade do autor.
O livro de
Eagleton pretendia desenvolver subsídios para o evidente retorno da crítica
marxiana ao palco do debate político mundial. Desde a crise de 2008 a percepção
do público em geral havia se transformado: subitamente, o capitalismo deixou de
ser encarado como um sistema natural e as alternativas – ou ao menos a busca
por elas – ressurgiram. A obra marxiana (re)apareceu então como um manancial
importante onde poderíamos encontrar algumas respostas – ou pelo menos
perguntas mais adequadas.
No Brasil,
uma efetiva polarização social vem se expressando nos últimos anos através de
uma polarização do debate eleitoral. Termos como comunista, socialista, vagabundo e Cuba voltaram definitivamente à cena. Se Terry Eagleton passasse
uma temporada em terras tupiniquins, talvez sentisse a necessidade de escrever
um complemento ao seu livro, adaptado ao contexto nacional. O que se segue
abaixo é uma colaboração nesse sentido, tentando responder brevemente a alguns
mitos, enganos, ignorâncias e falsificações acerca do sentido da obra marxiana.
1. Não é franciscanismo.
«É comunista, mas tem
Iphone!»
A crítica
marxiana ao capitalismo não é uma crítica ao modo de distribuição da riqueza,
mas ao seu modo de produção.
Enquanto a forma de produção das riquezas estiver organizada pela separação
entre os proprietários dos meios de produção (os capitalistas) e os
proprietários de sua própria força de trabalho (os trabalhadores) é impossível
garantir uma redistribuição da riqueza de forma duradoura. A caridade
individual pode garantir um lugar no paraíso para o bom cristão, mas não altera
em nada uma questão social. Ao contrário, a transformação da forma de produção
da riqueza implica transformação da sua forma de distribuição.
Outra
dimensão da crítica marxiana é o reconhecimento dos imensos poderes produtivos
criados pelo capitalismo: o marxismo
também não é um primitivismo – uma ideia inocente de retorno a um estado
natural. Ao contrário, é esse imenso poder produtivo da humanidade que
aparece como pré-condição para a superação do capitalismo. Em outras palavras:
o Iphone não é o problema, mas sim que ele represente uma tecnologia vedada à
maior parte da população mundial. Os comunistas não querem um mundo sem
smartphones, mas um em que esse tipo de tecnologia não seja acessível apenas
para uma minoria.
2. Não é um passo-a-passo para o
comunismo.
«O ser humano é egoísta
por natureza!»
Quem lê O Capital [obra mais famosa de Karl
Marx] em busca de um passo-a-passo para uma sociedade comunista, se decepciona.
O subtítulo do livro, muitas vezes ignorado, é “Crítica da Economia Política”. O próprio Marx define o comunismo da
seguinte maneira:
“O comunismo
não é para nós um estado que deva ser criado, nem um ideal pelo qual a
realidade se deve reger. Chamamos de comunismo o movimento efetivo que abole o
estado atual. As condições desse movimento resultam das pressuposições
atualmente existentes.”
Ou seja, comunismo é meramente a superação do modo
de produção capitalista. A própria ideia de que o comunismo pudesse ser
estabelecido através um “plano” definido nos mínimos detalhes por uma pessoa é
expressão de um idealismo combatido pela própria crítica marxiana. Essa ideia normatizadora (“o comunismo tem
que ser desse ou daquele jeito”) estaria diretamente relacionada à outra – uma
normatização de como as pessoas deveriam ser para uma sociedade comunista
“funcionar” (desinteressados, sem individualidade etc). Essas ideias são
traduzidas pela clássica imagem de uma sociedade onde todos comem a mesma
comida (ruim!), vestem a mesma roupa (cinza!) e desempenham trabalhos manuais
(repetitivos!).
Em Marx, ao
contrário, o que encontramos é uma radical
percepção da dimensão plástica do humano – isto é, que não existe uma natureza humana imutável – e do respeito à
individualidade – que não se confunde com individualismo. Essa percepção impossibilita qualquer previsão (ou normatização) sobre
como as pessoas seriam em uma sociedade diferente e ainda inexistente. O
ponto fundamental é afirmar as possibilidades concretas e imediatas de
transformação da sociedade – mesmo naquilo que parece mais natural –, não a
determinação a priori [antecipada] do
resultado dessa transformação.
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KARL MARX: (1818 - Tréveris/Alemanha a 1883 - Londres/Reino Unido) Economista, filósofo, historiador e teórico político |
3. Não é um totalitarismo.
«O comunismo matou um
trilhão de pessoas!»
Uma
abordagem comum nos últimos anos vem sendo a posição anti-intelectual que
vincula a crítica marxiana com os horrores
do stalinismo e/ou do totalitarismo em geral. Essa vinculação seria
responsável por uma mácula primordial, onde marxismo redundaria automaticamente em totalitarismo. Os críticos
menos ignorantes (mas ainda assim bastante ignorantes) pensam ter encontrado no
conceito de “ditadura do proletariado” justamente o termo que expressa essa
vinculação necessária.
Mas o
conceito de “ditadura do proletariado”
não tem nenhuma relação com as ditaduras do século XX – regimes antidemocráticos,
reacionários, militarizados e assassinos. No século XIX, conforme demonstrou o
historiador Hal Draper, o conceito
de ditadura tinha um sentido muito mais próximo de sua origem, na Roma antiga (dictatura): “Essa instituição constituía
um exercício de poder emergencial por um cidadão confiável com propósitos e
duração limitada, no máximo seis meses. Seu objetivo era preservar o status quo republicano”.
Em Marx a
palavra se recobre de um novo sentido – a ditadura de uma classe, não mais para
a preservação do status quo, mas para
a sua transformação. Quando se fala em
“ditadura do proletariado” (e, vale lembrar proletariado quer dizer
assalariado) a imagem que devemos
conjurar não são campos de concentração para a classe média ou pelotão de
fuzilamento para os ricos, mas um período de transição no qual a condução
política da sociedade é fruto da deliberação direta dos trabalhadores.
Ecoando Marx, Friedrich Engels definiu assim a ditadura do proletariado:
“Então está bem, senhores. Vocês querem saber
como essa ditadura é? Olhem para a Comuna de Paris. Isso era a ditadura do
proletariado.”
4. Não é datada.
«O capitalismo já não é
mais como no tempo do Marx!»
Essa
perspectiva supõe um reconhecimento do caráter científico da crítica marxiana,
mas apenas para retirar seu caráter político. O argumento estabelece então que
a crítica marxiana é correta, mas se aplicaria apenas ao capitalismo do século
XIX. O capitalismo do século XX, ao contrário, seria radicalmente diferente –
seja pela suposta redução do número de trabalhadores que desempenham tarefas
manuais, pela expansão do ramo de serviços ou simplesmente pelo avanço
tecnológico.
O que essa
posição ignora é que a crítica marxiana
é uma crítica aos elementos fundamentais do Capitalismo – como trabalho
assalariado, a dinâmica do capital e o dinheiro como mediação social. E
justamente por ser uma crítica desses elementos, inclui cada uma das
“novidades” que são citadas para declarar sua irrelevância. Enquanto a produção social estiver
organizada de maneira capitalista, a crítica marxiana terá validade e
relevância.
O melhor
antídoto contra falsificações e mistificações da crítica marxiana ao
capitalismo é a leitura direta da obra do próprio Marx. Felizmente, atualmente
dispomos de boas edições e excelentes materiais de acompanhamento para essa
tarefa, além de cursos frequentes nas principais universidades.
Marx não tem
todas as respostas – ainda que coloque muitas questões. Sua obra não fornece caminhos fechados ou dogmas, mas um método e uma
crítica. A obra marxiana é, sobretudo, uma plataforma de pensamento – ombros de um gigante sobre o qual
podemos nos apoiar para vermos muito além do nosso horizonte imediato.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos –
Notícias – Quinta-feira, 21 de maio de 2015 – Internet: clique aqui.
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