O QUE SERÁ DA IGREJA SE FRANCISCO FRACASSAR EM SUA MISSÃO?
Entrevista com Vito Mancuso
João Vitor Santos e Patricia
Fachin
«Eu acho que, para o
catolicismo, seria um golpe terrível, porque as enormes esperanças que esse
papa está despertando se transformariam em uma decepção igualmente enorme, e o
contragolpe sobre a credibilidade da Igreja poderia ser devastador, se não
letal»
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PAPA FRANCISCO: Um novo e revolucionário estilo de ser Papa! |
A
característica “mais notável” do pontificado de Francisco pode ser reconhecida
na linguagem adotada pelo Papa, diz
Vito Mancuso em entrevista à IHU On-Line,
concedida por e-mail. Para o teólogo, a “escolha
dessa linguagem é uma expressão direta do conteúdo que ele está dando ao seu
pontificado”. É como se sua mensagem fosse orientada diretamente pelos
princípios discursivos que adota em suas ações. Nesse caso, para entender o Papa, é tão importante
olhar a mensagem e a forma como é transmitida. No entanto, Apesar de o Papa
ter adotado uma linguagem mais próxima do povo, Mancuso afirma que “ainda é cedo para estabelecer se Francisco
conseguirá ser realmente reformista ou mesmo revolucionário, porque a sua ação
ainda deve se fundamentar em atos de governo concretos e em reformas
introduzidas”, pondera.
O teólogo
italiano também desenvolve a ideia de Francisco como “um fenômeno paradoxal”. Isso porque ao mesmo tempo em que tem
adesão do povo cada vez mais maior – que adota e se identifica com sua
linguagem – desperta dúvida e certo descrédito no episcopado – que é para quem
a linguagem surpreende e desloca. É o que tipifica como uma “oposição interna por parte da ala
intransigente da Igreja Católica, da qual fazem parte cardeais importantes,
incluindo o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Müller,
bispos, teólogos, responsáveis de movimentos eclesiais, líderes de opinião e
episcopados importantes, como o polonês e o italiano”. Para Mancuso,
somente “depois do encerramento do Sínodo
em outubro próximo, teremos ideias mais claras sobre quanto pesam os opositores
do Papa Francisco entre as hierarquias católicas”.
As
influências e leituras do Concílio Vaticano II e os significados de conceitos
abordados por Francisco também aparecem nessa entrevista, entre outros temas.
Ao abordar o tema das “reformas de Francisco”, o teólogo faz uma provocação: “levando em consideração a hipótese de que
Francisco fracassasse. O que aconteceria se as reformas desejadas não chegassem
ao fim e as expectativas de uma nova primavera se revelassem como apenas
ilusões?”.
Vito Mancuso é teólogo italiano.
Atualmente é professor de “História das Doutrinas Teológicas” na Universidade
de Pádua. Ele é autor de uma vasta obra teológica. Destacamos algumas como Il principio passione. La
forza che ci spinge ad amare (Milano: Garzanti, 2013); La vita
segreta di Gesù. I vangeli apocrifi spiegati (Milano: Garzanti editore,
2014); Io Amo. Piccola filosofia
dell'amore (Milano: Garzanti editore, 2014) e Questa
Vita (Milano: Garzanti editore, 2015). A obra Eu e Deus. Um guia para perplexos
(São Paulo: Paulinas, 2014) foi publicada em português.
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VITO MANCUSO Teólogo católico italiano |
Confira a
entrevista.
IHU
On-Line - Quais são os aspectos positivos do pontificado de Francisco e quais
aspectos mereceriam mais atenção?
Vito Mancuso – Acima de tudo, é uma
questão de estilo, que é ainda mais evidente quanto mais o comparamos com os
antecessores. Com Francisco, temos outro estilo de se apresentar:
·
não mais Sumo Pontífice, mas “bispo de Roma”, como ele se definiu no
dia da eleição;
·
outra habitação: não mais o apartamento Papal e
a villa em Castelgandolfo, mas o
internato de Santa Marta;
·
outra cruz peitoral, não mais de ouro, mas de
ferro;
·
temos um outro tipo de sapatos, não mais
vermelhos, tão excêntricos, mas pretos, tão normais.
·
E ainda as suas viagens em carros pequenos, a
escolha de trazer consigo a maleta preta de trabalho e
·
outra gestão do tempo, como quando decidiu
faltar a um solene concerto de música clássica que previa a sua presença, o que
um cultor da etiqueta como Bento XVI
nunca teria feito.
·
Em suma, um estilo de vida austero, bem pouco
principesco e protocolar.
A linguagem de
Francisco
Mas a
característica mais notável diz respeito à linguagem: quanta diferença, não
digo em comparação com o rigoroso plurale
maiestatis que reinava até Paulo VI, mas mesmo apenas em relação aos longos
discursos lidos (muitas vezes preparados por outros) de João Paulo II e de Bento XVI, que, até nas coletivas de
imprensa, nunca poderiam ter usado as popularescas expressões de Francisco. Mas
assim também se expressa a proximidade
total com o povo que esse Papa mostra continuamente.
Mas se
Francisco, com a sua linguagem, está introduzindo realmente algo de inédito na
história pontifícia, e eu diria até mesmo de escandaloso para o presunçoso
protocolo pontifício e para os ouvidos dos católicos tradicionalistas,
certamente não é de brincadeira: a
escolha dessa linguagem é uma expressão direta do conteúdo que ele está dando
ao seu pontificado. Como pode falar um Papa que não quer carros de luxo,
que não está no apartamento Papal, que não endossa cruzes e anéis de ouro, que
renuncia sistematicamente a todos os sinais do poder? Exatamente como fala esse
Papa, que faz da proximidade com o povo a estrela-guia do seu ser pontífice e
que, portanto, se alegre por poder relatar que, um dia, em Buenos Aires, a um
homem que tentava corrompê-lo, ele teria dado, mais do que de bom grado, “um
chute onde o sol nunca bate”.
Ainda mais
decisivo é o ponto de vista que muitas vezes o Papa assume: um inédito olhar extra moenia ou “fora dos muros”, que não pensa que o mundo a partir da
fortaleza-Igreja, mas, exatamente o contrário, pensa a Igreja a partir do mundo.
Nos seus raciocínios, não há vestígios da costumeira perspectiva eclesiástica
centrada no bem da Igreja e na defesa a
priori da sua doutrina, da sua história, dos seus privilégios, dos seus
bens, tão frequentemente objeto de cuidado zeloso por parte dos eclesiásticos
de todos os tempos. Ao contrário, há um
pensamento que tem como alvo unicamente o bem do mundo. Por isso, o Papa
chegou a dizer uma vez que o problema mais urgente da Igreja é o desemprego dos
jovens e a solidão dos idosos, ou, outra vez, a declarar como escandaloso o
fato de que as mulheres ganhem menos do que os homens.
É esse novo ponto de vista não eclesiocêntrico
que o leva à escolha de não insistir nos chamados “valores inegociáveis” de
vida-escola-família, tão fundamentais para Bento XVI, e de não querer entrar na
vida dos indivíduos como quando, a propósito dos gays, disse: “Quem sou eu para
julgar?”. E que gera nele aquele estilo conciliar permanente, desejado, no seu
tempo, pelo cardeal Martini, e que o levou a convocar o Sínodo sobre a Família
em dois capítulos, precedendo-o com uma consulta popular em todo o mundo sobre
os temas espinhosos da moral da família. Ainda nessa perspectiva, obviamente,
não deve ser esquecida a repetida
preferência pelos pobres e o consequente novo crédito à teologia da
libertação condenada por Wojtyla e Ratzinger, o fato de falar da Igreja como de
“um hospital de campanha”, o ataque contra o clericalismo e o estilo cortesão
da Cúria.
Ainda sou
questionado sobre quais aspectos mereceriam mais atenção. A resposta é simples:
são esses mesmos aspectos, mas que deveriam ser aprofundados e levados a termo,
gerando verdadeiramente aquela reviravolta em nível estrutural de que a Igreja
Católica precisa.
IHU
On-Line - Como o pontificado de Francisco está sendo avaliado na Itália, entre
os católicos e a Igreja italiana?
Vito Mancuso – Entre as pessoas na
Itália há muita empatia por Francisco, como, aliás, em todo o mundo. Mas o
mesmo não pode ser dito sobre o clero e especialmente os bispos. O episcopado italiano, desde sempre, na
sua maioria, em posições conservadoras e tradicionalistas, é um dos mais frios
em nível mundial no seguimento do Papa Francisco.
Não devemos
nos esquecer de que, historicamente, a
Igreja italiana nunca foi livre das fusões com a política. A Igreja
italiana, liderada primeiro pelo cardeal Ruini e depois pelo cardeal Bagnasco,
deveria recitar não poucos mea culpa
por não ter denunciado suficientemente a imoralidade pública e privada de quem
governou a Itália durante anos (refiro-me, obviamente, a Berlusconi ), do qual,
ao contrário, chegou-se até a contextualizar benignamente as blasfêmias
públicas para obter favores políticos, por exemplo, em relação à aula de
religião nas escolas públicas.
Agora, com o
Papa Francisco, tudo isso acabou na Igreja italiana? Não sei. É verdade que na
Itália também há outro governo, mas até agora os homens do poder eclesiástico são quase sempre os mesmos; nem as
novas figuras brilham particularmente por inteligência e coragem.
No entanto,
uma novidade muito importante diz respeito à luta contra a máfia. O Papa
Francisco declarou na Calábria: “Os
mafiosos estão excomungados”. Finalmente, a luta da Igreja contra o crime
organizado tornou-se mais firme e coerente. O Papa também chegou a dar o nome
específico da máfia calabresa, hoje a mais poderosa da Itália: “A Ndrangheta é isto: adoração do mal e
desprezo pelo bem comum”, e acrescentou: “Esse mal deve ser combatido, deve ser afastado, é preciso dizer-lhe
não”. E sancionou a excomunhão. Obviamente, é preciso bem mais do que isso
para erradicar o fenômeno, mas, para a Igreja, não se trata de pouca coisa.
IHU
On-Line - O senhor menciona a existência de um “fenômeno paradoxal” em relação
ao pontificado de Francisco porque, de um lado, há um crescimento popular de
aceitação do pontificado e, por outro, o crescimento da oposição interna contra
o Papado. Pode nos explicar quais são as razões desse “fenômeno paradoxal” e
como ele tem se manifestado ao longo desses dois anos do pontificado?
Vito Mancuso – Estamos efetivamente
diante de um fenômeno paradoxal: o crescimento contínuo do favor popular em
relação ao Papa Francisco e, contextualmente, o crescimento igualmente contínuo
da oposição interna a ele por parte da ala
intransigente da Igreja Católica, da qual fazem parte:
·
cardeais importantes, incluindo o prefeito a
Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Müller,
·
bispos,
·
teólogos,
·
responsáveis de movimentos eclesiais,
·
líderes de opinião e
·
episcopados importantes, como o polonês e o italiano.
Seguramente,
depois do encerramento do Sínodo em outubro próximo, teremos ideias mais claras
sobre quanto pesam os opositores do Papa Francisco entre as hierarquias
católicas.
Tal paradoxo
(aumento do favor popular e aumento da oposição hierárquica) é explicado de
forma bastante simples: é a perfeita
radiografia do descolamento de boa parte da hierarquia eclesiástica em relação
à vida real, aquele descolamento do qual o cardeal Carlo Maria Martini
falava, dizendo: “A Igreja ficou 200
anos para trás”.
Vícios do
clericalismo
No seu primeiro ano, Francisco talvez
acreditasse que poderia converter a mente dos prelados, mostrando o que
significa ser autoridade na Igreja, com o seu estilo simples e austero de vida.
No segundo ano, porém, ele teve que
reconhecer que é preciso mais, porque, enquanto
ele vive em cerca de 70 metros quadrados, há cardeais que não renunciam em nada
ao luxo e, acima de tudo, há muitos outros totalmente contrários a segui-lo nas
reformas. Assim se explica, a meu ver, a repetida insistência do Papa
contra os vícios do clericalismo, que culminou na pregação à Cúria do dia 22 de
dezembro de 2014, com a denúncia dos 15
males da burocracia vaticana, resumíveis em uma só: a identificação com o poder. A batalha, de fato, é entre:
·
misericórdia e poder,
·
entre Igreja “hospital de campanha” funcional às
necessidades das pessoas e Igreja suma autoridade, à qual as pessoas devem
obedecer,
·
entre Igreja dos pobres e Igreja poderosa entre
os poderosos.
Ninguém sabe
como vai acabar essa batalha que começou há dois anos, mas certamente os
cardeais e os curiais que se opõem a Francisco são a expressão daquilo que, por
séculos, foi o Papado, de modo que reformar
a sua mentalidade significa reformar o Papado como poder absoluto.
Com o Papa
Francisco, de fato, passou-se de um Papado de perfil substancialmente
doutrinário (segundo o qual o Papa é aquele que explica, ensina, corrige e,
assim, governa) a um Papado de perfil
existencial e espiritual (o Papa é aquele que entende, compartilha, sofre e
se alegra com e, assim, governa), mas não
está nada claro se essa transformação radical é apreciada e desejada pelos
bispos e pelos cardeais. Para além da retórica das declarações oficiais,
quantos deles estão dispostos a seguir Francisco até o fim, passando de uma
Igreja na cátedra a uma Igreja “hospital de campanha”, a deixar os privilégios
do poder e a ter “o mesmo cheiro das ovelhas”? Se fosse preciso realizar o conclave hoje, quantos cardeais eleitores
votariam novamente em Bergoglio?
O
pontificado, com a conclusão do Sínodo, encontra-se diante de uma prova
decisiva: a de ver ou não confirmado o estilo novo por ele impresso na ação da
Igreja e, portanto, inevitavelmente, também na sua identidade.
IHU
On-Line - Como interpreta a ideia de que o Papa propõe uma “reforma” na Igreja?
Em quais pontos o Papa vê a necessidade de fazer mudanças? Quais são os
indícios de que essas mudanças estão sendo feitas nos dois últimos anos?
Vito Mancuso – Ainda é cedo para
estabelecer se Francisco conseguirá ser realmente reformista ou mesmo
revolucionário, porque a sua ação ainda deve se fundamentar em atos de governo
concretos e em reformas introduzidas. Até agora, a única verdadeira reforma
estrutural me parece ser a que envolveu o Instituto
para as Obras de Religião - IOR , o que certamente não é pouca coisa, mas
não é suficiente. A Cúria Romana é tal e qual. Também não foram tomadas
decisões a propósito dos grandes problemas que dizem respeito à estrutura da
Igreja, dos quais é preciso pôr nos primeiros lugares:
·
os
critérios de nomeação dos bispos,
·
uma real
liberdade de ensino teológico,
·
a efetiva
promoção da mulher em nível de partilha do poder, abrindo ao menos para o
diaconato feminino,
·
a concessão
dos sacramentos aos divorciados recasados,
·
o status
das pessoas homossexuais e da sua afetividade.
Trata-se de
tornar o governo da Igreja Católica mais conforme com a vontade do Vaticano II,
de incidir na relação com a política, cessando para sempre a compra e venda de
favores entre cardeais e ministros, de pôr ordem entre os bispos e os
superiores das ordens religiosas, chamando
todos novamente a um estilo de vida sóbrio e conforme com os valores
evangélicos, de sustentar sobre bases novas o recrutamento e a formação do clero.
Temas éticos
Em relação
aos temas éticos, a questão mais candente certamente é a da procriação responsável. Aqui, o Papa,
dizendo ter se encontrado com uma mulher grávida do oitavo filho, depois de ter
tido sete por cesariana, chegou a afirmar que uma maternidade não controlada e
não responsável equivale a tentar Deus (“Mas a senhora quer deixar sete órfãos?
Mas isso é tentar Deus”). Como estamos distantes da imagem de mãe tão cara ao
catolicismo tradicional, que se sacrifica totalmente pelos filhos, chegando até
a morrer para pô-los no mundo! Mas tudo isso ainda permanece apenas em nível de
episódio, de “fioretto”, sem encontrar expressão na doutrina, que deve ser
completamente revista a propósito do tema específico da contracepção.
Para evitar
a procriação indiscriminada condenada pelo Papa, a Igreja hoje propõe os
chamados “métodos naturais”, mas se trata de um procedimento que só alguns
casais conseguem implementar; as estatísticas dizem que, entre os católicos
praticantes, aqueles que o observam variam de 8% a 1%. Consciente dessas
coisas, o cardeal Martini, na sua última entrevista, publicada no dia seguinte
à sua morte, havia declarado: “Devemos
nos perguntar se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria
sexual: a Igreja ainda é uma autoridade de referência nesse campo ou somente
uma caricatura da mídia?”. Na mesma linha se expressou, em fevereiro 2014,
o cardeal Kasper na conferência ao consistório extraordinário sobre a família: “Devemos ser honestos e admitir que, entre
a doutrina da Igreja sobre o matrimônio e sobre a família, e as convicções
vividas de muitos cristãos, criou-se um abismo”. O Papa sabe muito bem que essa é a situação,
mas deve enfrentá-la e, até agora, não o fez.
IHU
On-Line - O senhor chama atenção para o fato de que Francisco trabalha com o
objetivo de ter uma Igreja que seja aberta ao primado da consciência, à
modernidade, e que consulta fiéis sobre temas de moral. Como esses aspectos
aparecem no pontificado dele? Pode comentar cada uma delas?
Vito Mancuso – Quando se fala de ética,
trata-se, em primeiro lugar, de responder a esta pergunta: existe o bem, o bem
como algo universal e objetivo que vale para todos, sem depender das
circunstâncias, ou tudo depende das circunstâncias e não existe o bem, mas só o
conveniente? Essa é a pergunta número um da teologia moral. A pergunta número
dois decorre logicamente: admitindo-se que esse bem universal exista, qual é,
como se reconhece, quem o pode reconhecer?
A resposta
do catolicismo é simples e clara:
1) existe um bem comum a todos os
homens, universal, objetivo, que não depende das circunstâncias, ou dos
sentimentos, ou das emoções, mas que se substancia na natureza das coisas;
2) tal bem consiste naquilo que favorece
a vida e, como tal, todo homem o reconhece mediante a luz da própria
consciência.
A capacidade
de conhecer o bem objetivo mediante a consciência subjetiva é expressada pelo
catolicismo com o conceito clássico de sindérese,
definido pelo Catecismo como “a percepção dos princípios da moralidade”
(art. 1.780). A sindérese exprime a
capacidade luminosa de cada consciência humana de reconhecer o bem, até
prescindindo do próprio interesse e das diversas circunstâncias históricas e
geográficas, a capacidade de saber se estamos fazendo o bem ou não, fundando
assim a capacidade de juízo responsável, fundamentado, por sua vez, na
realidade da liberdade. Normalmente, referimo-nos a essa dimensão dizendo “luz
da consciência” ou também “voz da consciência”.
Primado da
consciência
O primado da
consciência, portanto, não é ontológico, mas gnoseológico. Mas, nesse último
nível, ele é absolutamente essencial, expressa o espírito interior mais
autêntico do catolicismo. E é precisamente a partir de tal primado da
consciência que devemos abordar os temas que a modernidade propõe, sobretudo,
em nível ético. Como eu já lembrei, o cardeal Kasper destacou que, “entre a
doutrina da Igreja sobre o matrimônio e sobre a família, e as convicções
vividas de muitos cristãos, criou-se um abismo”, mas a afirmação de Kasper
sobre a família vale, a meu ver, para muitos outros âmbitos da doutrina
católica; ou, melhor, eu penso que vale para o próprio conceito de doutrina,
entendida como sistema de verdades estabelecidas que o crente é obrigado a
professar e sobre a qual supervisiona a Congregação para a Doutrina da Fé, que
antes de 1965 se chamava “Sacra Congregação do Santo Ofício” e, antes de 1908,
chamava-se “Sagrada Congregação da Romana e Universal Inquisição”.
Listar os muitos elementos que distanciam o
ensinamento da Igreja da realidade não é difícil; são aqueles já nomeados
acima,
·
a doutrina
sobre a regulação da natalidade com o fracasso prático e teórico da Humanae vitae de Paulo VI,
·
a identidade
sexual e a homossexualidade, em relação à qual é preciso deixar de falar de
doença, como ainda se faz muitas vezes.
·
Depois, há o pântano da bioética, da qual não se sai continuando a repetir “nãos”
principalmente à fecundação assistida, o destino dos embriões congelados, o
diagnóstico dos embriões antes do implante, o princípio da autodeterminação em
nível de testamento biológico.
Depois, há
os problemas eclesiológicos que, ainda em 1987, Hans Küng definia como “chatas
velhas questões”, sobre as quais também já falei: os critérios de nomeação de bispos, a colegialidade como método de governo, o celibato do clero, a liberdade
de pesquisa em âmbito teológico, a questão
laical, a questão feminina, a reforma da Cúria Romana, o respeito pelos direitos humanos dentro da
Igreja – do qual “o tráfico de noviços” denunciado pelo Papa é um aspecto
desconcertante.
IHU
On-Line - Um dos conceitos que Francisco usa é o de misericórdia. Em que
sentido o termo é usado nos discursos do Papa?
Vito Mancuso – A misericórdia expressa
a identidade da mensagem cristã. É o núcleo daquilo que, classicamente, é
chamado de “evangelho” e que, literalmente, significa, como se sabe, “boa
notícia”. A boa notícia que a Igreja
deve entregar ao mundo é a misericórdia, a ternura do coração, que, antes
de ser um sentimento, é uma realidade ontológica, expressa a essência da vida,
da qual se compreende a natureza pensando na relação mãe-filha. A Igreja ou está em função desse anúncio
fundamental, ou é como o sal que perde o seu sabor e que não serve para nada,
exceto para ser pisoteado pelos homens. O Papa está nos ajudando a redescobrir
tudo isso.
IHU
On-Line - Qual tem sido o papel geopolítico do Papa Francisco? Ao longo desses
dois anos, vimos suas intervenções em discursos contra a intervenção militar na
Síria, o discurso sobre a necessidade de reconciliação entre Cuba e EUA, por
exemplo, seguidos de discursos chamando atenção para as implicações sociais e
econômicas da globalização. A partir disso, como avalia a atuação geopolítica
de Francisco e qual sua intenção com esses discursos?
Vito Mancuso – O papel geopolítico de
Francisco é notável. Pode-se compreendê-lo pelo fato de ele ter contribuído
para evitar a intervenção militar ocidental na Síria e, especialmente, pelo
fato de ter favorecido a histórica reconciliação entre Cuba e EUA. Até mesmo a
dura reação do primeiro-ministro da Turquia a propósito das declarações Papais
sobre o genocídio armênio mostra quanta importância é atribuída ao Papa no
contexto mundial. Depois, há as passagens de aproximação à China e o fato de ele ter se tornado um farol para
o Sul do mundo e para os pobres.
Na Itália,
um observador como Eugenio Scalfari,
fundador do jornal La Repubblica e
não crente, escreveu que, graças a Francisco, “Roma tornou-se novamente a capital do mundo... Roma, a cidade do Papa
Francisco, é o centro do mundo”. Scalfari, obviamente, fala da liderança
espiritual, da qual o Ocidente tem uma imensa necessidade para continuar
acreditando nos grandes ideais da humanidade, tradicionalmente definidos como
bem, justiça, igualdade, solidariedade, fraternidade. Em um mundo onde tudo é poder e cálculo, a figura desse Papa faz com
que se compreenda que nem tudo no ser humano é redutível a poder e cálculo, que
ainda há espaço para a gratuidade, para o amor genuíno, para a vontade de bem
pelo bem.
O seu fracasso
seria o fim da luz que se acendeu na existência de todos os seres humanos,
também em muitos não crentes como Scalfari. Lembram isso os cardeais, os
monsenhores e os teólogos que estão fazendo de tudo para bloquear e fazer com
que fracasse a ação reformadora do Papa Francisco.
IHU
On-Line - Em vários momentos de seu discurso, o Papa chamou atenção para os
atos de violência que estão ocorrendo no mundo, mencionando, por exemplo, a
morte de mais de cem crianças que foram trucidadas no Paquistão, a cultura de
rejeição ao outro, “as formas equivocadas de religião”, lembrou o massacre em
Paris, e também comentou a situação dos cristãos massacrados e perseguidos no
Oriente, fazendo alusão ao Estado Islâmico. Além disso, reiterou que “jamais se
deve permitir que as crenças religiosas sejam usadas na causa da violência e da
guerra”. Como o senhor lê esses exemplos?
Vito Mancuso – A questão crítica pode
ser formulada deste modo: quem ataca e mata os cristãos pretende atingir a
religião de Jesus ou a religião do Ocidente? É claro que, nem em um caso nem em
outro, a violência teria a menor justificativa; no entanto, não é de pouca importância saber por que o
cristianismo, hoje, no mundo é a religião mais perseguida. Na história, de
fato, não foi assim. Nela, as relações entre religiões nunca foram pacíficas, e
também no passado podem ser assinalados episódios de violenta repressão da qual
os cristãos foram objeto, assim como, aliás, podem ser assinalados episódios em
que a violência era exercida pelas Igrejas cristãs, em primeiro lugar pela
católica, também em forma institucional e continuada. Volta, portanto, a
pergunta: por que, nestes anos, o cristianismo tornou-se objeto de tal
violência? Por que justamente hoje? Eliminando
os cristãos, pretende-se atingir os seguidores de Jesus ou os representantes do
estilo de vida ocidental percebido como uma ameaça mortal para a própria
identidade?
Não há
respostas fáceis, e eu certamente não as tenho. O que eu gostaria de dizer é
que, além de combater o terrorismo com rigor, deve ser empreendida uma grande batalha de purificação do cristianismo,
para fazer com que ele se assemelhe cada vez mais à mensagem de Jesus e cada
vez menos a uma legitimação do poder. E eu acho que o que o Papa Francisco está
fazendo nessa perspectiva é simplesmente extraordinário.
IHU
On-Line - Como o cristianismo pode ser uma resposta aos desafios da
modernidade? Que respostas o cristianismo tem a oferecer para a modernidade?
Vito Mancuso – Em parte, já tocamos
nesses assuntos. No entanto, aproveito para aprofundar o conceito de
modernidade. Ele significa, da forma como eu o entendo, o primado da pessoa. Com a modernidade, inicia aquele processo que
leva o indivíduo a ser mais importante em relação às organizações
estatais, empresariais ou eclesiásticas. Daí a grande dificuldade pela qual
passou e está passando a teologia e a moral.
Tomemos a
posição católica tradicional em relação tanto às pessoas homossexuais, quanto
às pessoas divorciadas e ao papel atualmente ocupado pelas mulheres dentro do
governo da Igreja. Por que hoje elas são insustentáveis? Exatamente pelo
primado do indivíduo. A esse respeito, de fato, é preciso coerência: não se
pode proclamar em palavras o respeito pelas pessoas homossexuais como filhas de
Deus de igual dignidade e, depois, julgar a sua condição como condenada pela
lei natural e pela Bíblia; ao contrário, se realmente se quer mostrar de modo
concreto o respeito de que se fala, é preciso pôr em ação hermenêuticas
consequentes tanto da lei natural (que deve ser entendida, em sentido formal,
como harmonia das relações, e não como definições de papéis e de
comportamentos), quanto das páginas bíblicas que condenam as pessoas
homossexuais (relegando tais páginas ao lado daquelas que promovem a guerra ou
a inimizade para com as outras religiões e que não merecem ser levadas em
consideração). Ou seja, é preciso chegar
ao evangélico “não julgar” e “não condenar”.
Do mesmo
modo, se realmente se quer que a misericórdia tenha primado para os divorciados
em segunda união, é preciso pôr em ação uma disciplina canônica dos sacramentos
que lhes concedem se aproximar deles sem qualquer discriminação. Do mesmo modo,
por fim, se realmente se quer que a mulher tenha mais poder dentro da Igreja,
deve-se proceder em consequência e, como já disse, abrir-lhes ao menos e desde
já ao diaconato (o fato de que as mulheres podem ter acesso ao diaconato é
testemunhado pelo Novo Testamento, basta lê-lo e aplicá-lo).
IHU
On-Line - Quais são as perspectivas para a Igreja com o pontificado de Francisco?
Para onde ele está direcionando a Igreja?
Vito Mancuso – Eu não sei aonde
Francisco está guiando a Igreja, e talvez nem mesmo ele saiba. Como todo
verdadeiro caminho de novidade procede conhecendo apenas o próximo passo e não
os passos que virão depois, assim também acontece com Francisco. O importante é caminhar para frente, sem
cair e sem voltar atrás. Está em
jogo o papel da Igreja Católica inteira:
·
há o direito dos batizados de terem uma Igreja
para confiar,
·
na qual os bispos são escolhidos por efetivas
qualidades e não por jogos de poder, e sejam sóbrios como os apóstolos e não
opulentos como os magnatas,
·
onde o banco vaticano do IOR esteja ao menos no
nível ético de um banco comum, onde não haja a sujeira denunciada na sua época
por Bento XVI,
·
onde os homens e as mulheres de hoje se sintam
em casa, por serem entendidos também nos seus erros e não julgados por uma
mentalidade friamente doutrinal,
·
onde os escândalos de pedofilia não sejam
escondidos, e os culpados, encobertos.
O que está em jogo é uma Igreja digna da
paixão dos inúmeros sacerdotes honestos que lhe dedicaram a vida, assim como
das religiosas e dos religiosos. É
por uma Igreja desse tipo que o Papa Francisco trabalha, insistindo no
primado da consciência, na abertura à modernidade, na consulta dos fiéis sobre
os temas da moral, no novo crédito à teologia da libertação, na preferência
pelos pobres, em uma linguagem capaz de chegar a todos. Bergoglio sabe que o primeiro passo da Igreja é voltar a acreditar no
Evangelho, acima de tudo na sua cúpula; isto é, ele sabe que a evangelização
diz respeito, acima de tudo, à hierarquia eclesiástica.
Quem hoje
ainda defende o “não” aos sacramentos para os divorciados em segunda união, o
“não” à contracepção, o “não” às relações pré-matrimoniais, o “não” à bênção
aos casais gays está fora do mundo, no sentido de que não entende a sua
evolução. E, com isso, priva-se da possibilidade da ação peculiar que o
Evangelho pede a quem a ele adere, ou seja, o amor.
IHU
On-Line - Gostaria de acrescentar algo?
Vito Mancuso – Gostaria de acrescentar
uma reflexão, levando em consideração a hipótese de que Francisco fracassasse.
O que aconteceria se as reformas desejadas não chegassem ao fim e as
expectativas de uma nova primavera se revelassem como apenas ilusões?
Eu acho que,
para o catolicismo, seria um golpe terrível, porque as enormes esperanças que
esse Papa está despertando se transformariam em uma decepção igualmente enorme,
e o contragolpe sobre a credibilidade da Igreja poderia ser devastador, se não
letal. Não morreria a espiritualidade, que desde sempre está enraizada no coração
humano, bem antes do nascimento do cristianismo. Não morreria nem mesmo o
cristianismo, que encontraria outras formas para se expressar, como fez em
outros lugares do mundo. Ao contrário, nos encaminharíamos irreversivelmente
para a morte da Igreja Católica hierárquica assim como a conhecemos, porque ninguém poderá e quererá mais ter confiança
em uma estrutura que se demonstrou relutante em seguir um cristão sincero e um
homem bom como Jorge Mario Bergoglio. O fracasso do Papa “que veio do fim
do mundo” marcaria o fim da Igreja hierárquica e institucional. Não sei se é
isso que querem os inúmeros cardeais, bispos e curiais que se opõem a ele, mas
acho que é bom que eles saibam disso.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
Fonte: Revista do Instituto Humanitas
Unisinos On-Line – Edição 465: “E sopra um vento de ar puro... Os dois anos de
Papa Francisco em debate” – Internet: clique aqui.
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