PARA ONDE VAI ESSE TREM? [L E I A ! ]
Fernando Gabeira
O Brasil
não precisa apenas de um ajuste fiscal,
mas de
rever todo o modelo que nos jogou no buraco.
Num texto
endereçado a cineastas, Chris Marker
[1] citou uma frase de De Gaulle [2]: às vezes os militares, exagerando a impotência relativa da
inteligência, descuidam de se servir dela. Marker defendia filmes
inteligentes contra o populismo de alguns pares. Creio que De Gaulle criticava
a superestimação da força armada. Algo que ficou célebre na pergunta atribuída
a Stalin [3]:
quantas divisões tem o papa?
A oposição brasileira tem se descuidado de
usar a inteligência não por valorizar a força armada, mas as possibilidades
eleitorais. Quantos votos nos dará esse projeto? Foi assim com a derrubada do fator previdenciário. Nada
mais agradável do que votar pelos aposentados e ao mesmo tempo ganhar um bom
número de votos.
Norberto Bobbio [4] dava muita importância à questão da aposentadoria e a
considerava um elemento divisor entre os conceitos de esquerda e direita. Não
vejo assim no Brasil. A ideia de um sistema que garanta aposentadoria digna é
universal no espectro político.
As coisas se complicam quando se discute a
sustentabilidade do sistema. Tensioná-lo com mais gastos num momento de
crise aguda acaba despertando propostas como a de Joaquim Levy: aumentos de impostos. Um projeto
político no capitalismo não implica apenas respeito às normas democráticas.
Implica também a admissão das próprias leis do capitalismo. Se nos levamos apenas pelo coração, faremos
muitas bondades até que chegue o momento de pagar a conta. Os deputados
jogaram essa conta para o governo, que, por sua vez, a transfere, via impostos,
para a sociedade.
Quando Levy
fala em ajustar a economia e, simultaneamente, em aumentar impostos a partir
das bondades parlamentares, suas tesouras são apenas um passatempo como agulhas
de crochê. As tesouras de Levy refletem o mesmo conflito de ideais socialistas
com as leis do capitalismo. E a oposição tem de se manifestar claramente sobre
isso: é um modelo de crescimento que
faliu. Derrotá-lo não significa usar os mesmos métodos populistas,
certamente com grandes dividendos eleitorais. Derrotá-lo é propor um novo caminho.
O caso das
pensões e dos salários de pescadores, embora tenha distorções, no meu entender,
merecia rejeição, ao menos para negociar.
Como começar um ajuste fiscal sem conhecer
os cortes do governo? Este é o tema mais importante no ajuste. É nele que
uma visão de oposição tende a se fixar: a
racionalização da máquina, a redução de inúmeros e inúteis cargos de confiança.
Minhas
críticas são feitas de fora, o trabalho na estrada não permite conhecer todos
os dados. Mas a oposição precisa mostrar uma certa coerência com o próprio
programa. O problema de votar, em alguns momentos, com o governo também é
eleitoral: medo de desapontar o eleitorado que rejeita Dilma e o PT.
Mas é
preciso dividir as esferas de atuação: um programa claro sobre o ajuste
econômico e um trabalho sério sobre a corrupção, reconstruir e punir. A
responsabilidade pela devastação da Petrobrás, a gestão temerária, o escândalo
do desvio de bilhões é um fato histórico ainda em movimento, pois a Justiça não
se manifestou sobre ele.
Nesse contexto,
um fervoroso eleitor de Dilma é indicado para ministro do Supremo. Os
principais nomes da oposição faltaram à sabatina. Era preciso fazer perguntas,
descortinar a visão política de Luiz
Edson Fachin e apresentar uma interpretação de seu discurso.
Não posso
dizer que a culpa seja de Fernando Henrique Cardoso. Cada um avalia as
prioridades, organiza a agenda, é uma escolha política: a homenagem a Fernando
Henrique em Nova York ou a sabatina de candidato ao Supremo no Brasil. O resultado é que não foi dada toda a
atenção à hipótese de o governo aparelhar o Supremo e bloquear as conquistas da
Operação Lava Jato.
Estou,
talvez, reduzindo a escolha de um juiz a um fato conjuntural. Mas o escândalo da Petrobrás é mais que isso, é
o espaço em que se vai jogar o que mais interessa às pessoas que foram às ruas:
avançar na luta contra a corrupção.
Vivemos um
momento em que nem governo nem oposição se movem de forma articulada, com
ideias claras e compartilhadas sobre sua trajetória. Vivi outros momentos
assim, mas muito rápidos. Usávamos uma expressão para descrevê-los: a vaca não
reconhece seus bezerros.
Num texto
para homenagear Robert Frost [5], John F.
Kennedy [6] escreveu: a poesia é o meio de
salvar o poder de si próprio. Sem menosprezar a poesia, tenho uma expectativa
mais pedestre: só as pessoas, com suas
dificuldades cotidianas, sonhos e frustrações e pequenas conquistas, podem
salvar o poder de sua degradação. Nenhuma força política parece preocupada
em responder a essa expectativa com um projeto coerente, verificável nos
movimentos cotidianos.
O Congresso parece desgovernado. Vota, simultaneamente, medidas de contenção
e de mais gastos. Os repórteres estão sempre fazendo contas para verificar
se estamos economizando ou gastando mais.
Era esperado
um choque de posições no debate do ajuste [fiscal]; os setores atingidos
procuram se defender: não há nenhuma
previsibilidade de mudanças no tamanho da máquina nem o tipo de País que vai
surgir desse debate. Vendo as universidades federais fluminenses em ruína
antes mesmo da aplicação dos cortes, é razoável duvidar da retomada do
crescimento com um simples ajuste fiscal. Tudo
o que não funciona nos serviços públicos vai ganhar com os cortes uma poderosa
desculpa para mascarar a incompetência: não há dinheiro.
Assim, a
Nova República vai morrer e nascerá a Novíssima
República, como aqueles antigos trens italianos, o rápido, o rapidíssimo,
que nunca chegavam na hora. Será difícil achar a luz no fim do túnel se não
decidirmos, pelo menos, em que direção procurá-la. O Brasil não precisa apenas
de um ajuste fiscal, mas de rever todo o modelo que nos jogou no buraco.
N O T A S :
[ 1 ] - Chris
Marker (Paris, 29 de julho de 1921 - 29 de julho de 2012) foi cineasta,
fotógrafo, escritor e artista multimídia francês. Os seus filmes mais
conhecidos são La Jetée (1962), Sans Soleil (1983) e A.K. (filme) (1985), um documentário
sobre o cineasta japonês Akira Kurosawa (Fonte:
aqui).
[ 2 ] - Charles
André Joseph Marie de Gaulle (Lille, 22 de novembro de 1890 –
Colombey-les-Deux-Églises, 9 de novembro de 1970) foi um general, político e
estadista francês que liderou as Forças Francesas Livres durante a Segunda
Guerra Mundial. Mais tarde fundou a Quinta República Francesa em 1958 e foi seu
primeiro Presidente, de 1959 a 1969 (Fonte:
aqui).
[ 3 ] - Josef
Vissarionovitch Stalin (Gori, 18 de dezembro de 1879 — Moscou, 5 de março
de 1953) foi secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética e do
Comitê Central a partir de 1922 até a sua morte em 1953, sendo assim o líder da
União Soviética. Sob a liderança de Stalin, a União Soviética desempenhou um
papel decisivo na derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial (1939 -
1945) e passou a atingir o estatuto de superpotência, após rápida
industrialização e melhoras nas condições sociais do povo soviético, durante
esse período, o país também expandiu seu território para um tamanho semelhante
ao do antigo Império Russo (Fonte: aqui).
[ 4 ] - Norberto
Bobbio (Turim, 18 de outubro de 1909 — Turim, 9 de janeiro de 2004) foi um
filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador
vitalício italiano. Conhecido por sua ampla capacidade de produzir escritos
concisos, lógicos e, ainda assim, densos. Defensor da democracia socialista
liberal e do positivismo legal e crítico de Marx, do fascismo italiano, do
Bolchevismo e do primeiro-ministro Silvio Berlusconi (Fonte: aqui).
[ 5 ] - Robert
Lee Frost (São Francisco, Califórnia, 26 de março de 1874 — Boston, 29 de
janeiro de 1963) foi um dos mais importantes poetas dos Estados Unidos do
século XX. Frost recebeu quatro prêmios Pulitzer (Fonte: aqui).
[ 6 ] - John
Fitzgerald Kennedy (Brookline, 29 de maio de 1917 — Dallas, 22 de novembro
de 1963) foi um político estadunidense que serviu como 35° presidente dos Estados
Unidos (1961–1963) e é considerado uma das grandes personalidades do século XX.
Ele era conhecido como John F. Kennedy ou Jack Kennedy por seus amigos e
popularmente como JFK (Fonte: aqui).
Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço aberto
– Sexta-feira, 22 de maio de 2015 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.
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