POR QUE VIVEMOS ESSA CRISE DE ÁGUA E SANEAMENTO BÁSICO?
Para economista, companhias de
abastecimento priorizam lucros imediatos e não investem em saneamento
Carlos Orsi
Jornal da Unicamp
30-04-2015
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EDUARDO FAGNANI Professor de Economia da UNICAMP |
A Sabesp, ou Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, é uma empresa de capital aberto e ações negociadas em bolsa. O governo paulista detém o controle da empresa, com 51% das ações. O restante das ações é detida por grandes grupos financeiros internacionais e nacionais.
Na opinião do pesquisador, a distribuição de
dividendos, somada ao monopólio do saneamento – os clientes da Sabesp não podem
simplesmente trocar de fornecedor, caso estejam insatisfeitos com o serviço –
ajuda a explicar a ausência de investimentos que poderiam ter mitigado a crise
desencadeada pela seca recente. “O
desperdício de água no Japão é 3%, na Alemanha é 5%, em São Paulo, na Sabesp, é
35%. E por que a Sabesp não investiu nisso? Em reduzir a perda de 35% para 10%?
Por que a Sabesp, nos últimos 20 anos, não investiu, por exemplo, na redução
dessas perdas?”, questiona Fagnani, para logo em seguida sugerir uma
possível resposta:
“O saneamento, em geral, é monopólio. Quer dizer,
não tem concorrência – então, por que eu
vou investir? Porque, o investimento reduz a parcela de dividendos que
anualmente é distribuída aos acionistas”, argumenta.“Se tivessem investido para redução de perdas, provavelmente a Cantareira não estaria no problema em que está. Mais de um Cantareira é jogado fora em perdas e ineficiências da gestão privada. Por que acontece isso? Há vários motivos, mas com certeza, eu acho que também tem a ver com essa lógica privada e a pressão pela distribuição do lucro aos acionistas”.
Neoliberalismo
“A privatização está ligada à agenda neoliberal que passou
a ser hegemônica no mundo a partir de 1980, quando a ideia é a seguinte:
·
reduz o Estado;
·
o Estado regula; e,
·
o mercado opera.
Você abre a
economia para que as empresas internacionais venham atuar no Brasil”, disse
Fagnani.
“A justificativa era que o Estado estava
quebrado, o setor privado era eficiente e tinha recursos para investir. Mas
isso era só um discurso: na verdade, isso se dá para responder às necessidades
do capital financeiro. O capital financeiro busca valorização, e obtém isso
onde? Entrando num setor que é essencialmente público; e o saneamento não fugiu
à regra”.
O pesquisador relata como, no caso brasileiro, as empresas estaduais de saneamento básico, criadas durante a ditadura militar, foram sucateadas ao longo do período de inflação alta dos anos 80, até que a privatização ou abertura de capital aparecesse como uma espécie de tábua de salvação do setor, na década seguinte.
Sucateamento
“Em 1971 a ditadura cria o Planasa, Plano Nacional de Saneamento. Esse plano cria, em cada Estado, uma concessionária estadual, e obriga os municípios a entregar a concessão para a concessionária estadual. Os municípios foram obrigados, pela ditadura militar”, explica Fagnani. “Quem não desse a outorga às concessionárias estaduais era penalizado, não tinha direito a certos financiamentos, havia uma coerção. Como resultado, 90% dos municípios brasileiros fizeram isso”. Essas concessionárias passam a ser, então, o carro-chefe do saneamento básico no Brasil.
“Essas empresas, aí
que está um equívoco, também tinham que ser lucrativas: a própria receita da
tarifa tinha que sustentar a empresa e os investimentos”, disse Fagnani.
“Isso é que vai explicar, em parte, por que essas concessionárias estaduais
ampliaram mais a rede de distribuição de água do que coleta e tratamento de
esgoto: porque elas tinham de dar lucro, e o investimento em distribuir água é
mais barato e o retorno é mais rápido. E, seguindo a lógica financeira, não se
vai atender onde a demanda é mais necessária socialmente, vai-se atender onde é
mais rentável, onde o retorno sobre o capital é maior. Então, durante a ditadura militar você expande a
água, mas a coleta de esgoto fica estacionada”. Ainda hoje, em pleno século 21, lembra Fagnani, menos de 50% da população vive em
residências com coleta de esgoto; e, mais da metade do esgoto coletado não é
tratado, sendo despejado no mar e nos rios.
Com a crise econômica e a hiperinflação dos anos 80, o
governo passa a administrar as tarifas cobradas pelas empresas estatais,
incluindo as de saneamento, como modo de tentar conter a alta inflacionária.
“Então a inflação era 100, você podia aumentar 60, digamos”, exemplificou o
pesquisador. “Depois de cinco, seis anos assim, as estatais desmoronaram. E
isso vai acontecer durante os anos 80 como um todo. Aí vem o sucateamento: não se investe nem em
saneamento, nem em água, nem em infraestrutura – e, quando chega a década de 90
com o neoliberalismo, o prato está feito: dizem, ‘veja, está tudo sucateado, as
empresas dão prejuízo, o Estado é ineficiente, etc., melhor privatizar’. Mas
ninguém quer saber por que elas davam prejuízo”.
No Estado de São
Paulo, a onda de privatizações e de abertura de capital chega também às
concessionárias municipais que haviam resistido ao Planasa. “E o que se
privatiza é o filet mignon, certo? Você vai privatizar Limeira, Itu, e Ribeirão
Preto, por exemplo: cidades que já tinham infraestrutura, já tinham uma
situação de saneamento muito melhor que outras. O setor de saneamento básico,
no Brasil, é isso: teve esses quinze anos de regime militar, depois a crise e,
nos anos 90, privatiza. Privatiza ou sucateia o que restou do Estado”.
Planejamento
O produto dessa história, diz Fagnani, é um setor que,
rigorosamente, nunca foi alvo de uma política nacional pública pensada para o
longo prazo, mas viveu submetido a uma lógica
de rentabilidade imediata. “Quando chega em 2007, 2008, o governo apresenta
o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que incorpora a questão do
saneamento, o que traz um aumento do investimento federal no setor”, disse o
pesquisador. “Mas a nova política nacional de saneamento básico só é aprovada
em 2012. É uma política, do ponto de vista da lei, interessante, uma tentativa
de se pensar o saneamento como um problema nacional”.
O problema, segundo Fagnani, é que a lógica do PAC – de
liberação de recursos mediante a aprovação de projetos de investimento – não é
exatamente compatível com as necessidades do programa de saneamento. “Grande
parte dos municípios que mais precisam não tem capacidade de fazer isso, montar
um projeto. Tem uma lógica de financiamento que é melhor do que antes, sim, mas
ainda não contempla o sistema nacional como um todo, o planejamento do setor,
um diagnóstico das carências nacionais e regionais. Houve uma tentativa de
reformular uma política nacional de saneamento, que demorou muito tempo para
sair e que não tem avançado”.
Futuro
Fagnani não vê uma
solução simples para o dilema do saneamento básico no Brasil, dividido entre um
setor privado voltado para a lucratividade e um setor estatal subfinanciado e
sucateado.
Ele afirma que as privatizações e aberturas de capital tiraram dos governos a capacidade de fazer política pública no setor. “Acho que o governo nem tem mais instrumentos para fazer um grande plano. As estatais tinham seus problemas, mas eram instrumentos de política econômica. Você vê essa questão no setor de energia elétrica: sendo do Estado, ela gera energia, gera tarifa e receita. Com essa receita, pode contratar investimento privado, financiar uma construção de hidrelétrica, por exemplo. Quando privatiza, perde-se isso. E aí o que acontece quanto se tem de investir em infraestrutura? Concessão para o setor privado. Mas aí você tem só quatro ou cinco grandes empresas capacitadas, e fica na mão delas”.
No caso da água, a
situação se agrava, por conta do monopólio das concessionárias e do fato de que
se trata de um item essencial para a vida. “Do ponto de vista da
concessionária privada, ela cobra a tarifa e, se não fizer mais nada, já dá
lucro. E a lógica privada é o lucro. Não é outra. Quem vai fazer um investimento
de grande porte? Não é a concessionária privada. É o Estado. O setor privado vai fazer investimentos
pesados para buscar água? Não acredito. O que você tem é ou o Estado sucateado,
ou uma lógica privada antagônica a um projeto para o país. E esse é o
retrato de 500 anos de saneamento no Brasil”.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 4 de maio de 2015 –
Internet: clique aqui.
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