QUE "REFORMA" É ESSA?
Reforma política
Vladimir
Safatle
Folha
de S. Paulo
19-05-2015
«O projeto que o
Congresso propõe a votar é um desrespeito ao povo brasileiro. Ele foi feito sob
medida para a perpetuação da classe política que é parte atual do problema. Há
uma casta que se consolidou através de uma estrutura partidária viciada e
distorcida.»
Hoje [terça-feira, 19 de maio] deve ocorrer a votação do projeto de reforma política na
Comissão Especial composta pelo Congresso para este fim.
Desde as manifestações de 2013, com o claro descontentamento
da população com sua classe política igualmente corrupta e seu sistema movido a
acordos de bastidores, permeado por interesses dos agentes econômicos mais
fortes, este tema veio a tona.
Era clara a vontade popular por uma experiência política na
qual a população tivesse presença mais direta e efetiva nos processos de
decisão, veto e gestão. O slogan "não
me representa" dizia ainda algo a mais, a saber, "cansei de existir politicamente apenas se sou representado por
outro".
Em várias partes do mundo, fica evidente os limites da
democracia representativa e a necessidade de pararmos com esta postura cínica
que consiste em repetir que a "a democracia é a pior forma imaginável de
governo, à exceção de todas as outras que foram experimentadas", isto na
esperança de que nenhuma transformação estrutural do que entendemos por
democracia seja sequer tentada. A
constituição de novas formas de democracia é uma necessidade não apenas
brasileira, mas mundial.
Foi com o espírito de discutir uma experiência política
capaz de fazer jus às demandas que o tema da reforma política tem circulado nos
últimos dois anos. No entanto, o projeto que o Congresso propõe a votar é um
desrespeito ao povo brasileiro. Ele foi feito sob medida para a perpetuação da
classe política que é parte atual do problema. Há uma casta que se consolidou
através de uma estrutura partidária viciada e distorcida.
Com propostas como:
·
o "distritão",
·
o mandato de dez anos para senadores e
·
o financiamento
misto de campanha,
a vida política nacional corre o sério risco de ficar pior
do que está.
Não há nada, absolutamente nada a respeito do problema
político central de nosso país, a saber, a
baixa densidade da participação popular nos processos decisórios e de gestão.
O povo brasileiro é algo que é pontualmente convocado em
época de eleição para aclamar e referendar coeficientes eleitorais. Depois
disto, ele desaparece.
Afinal, alguém
perguntou ao povo brasileiro o que a maioria acha sobre projetos como a
terceirização geral das relações trabalhistas?
Mesmo sobre o famigerado projeto de redução maioridade
penal, alguém organizou um verdadeiro debate calmo com a população para que os
vários aspectos do problema fossem expostos?
É assim, de costas
para a população, que a casta que nos governa continuará seu trabalho, com ou
sem reforma política.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 20 de maio de 2015 –
Internet: clique aqui.
Comentários
Postar um comentário