7º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 5,38-48


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
38 «Vós ouvistes o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente!”
39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!
40 Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!
41 Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!
42 Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado.
43 Vós ouvistes o que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!”
44 Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!
45 Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos.
46 Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa?
47 E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa?
48 Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

INCLUSIVE OS INIMIGOS

É inegável que vivemos em uma situação realmente paradoxal. «Quanto mais aumenta a sensibilidade diante dos direitos pisoteados ou injustiças violentas, mais cresce o sentimento de ter que recorrer a uma violência brutal ou impiedosa para levar a cabo as profundas mudanças que se anseia» (Documento dos Provinciais da Companhia de Jesus).

Não parece haver outro caminho para resolver os problemas a não ser o recurso à violência. Não é estranho, portanto, que as palavras de Jesus ressoem em nossa sociedade como um grito ingênuo além de discordante: «Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!».

E, no entanto, talvez esta seja a palavra que todos nós mais necessitamos escutar nestes momentos que, tomados pela perplexidade, não sabemos o que fazer concretamente para ir arrancando do mundo a violência.

Alguém disse que «os problemas que somente podem resolver-se com violência, devem ser recolocados» (F. Hacker). E é precisamente aqui onde tem muito que trazer, também hoje, o Evangelho de Jesus, não para oferecer-nos soluções técnicas para nossos conflitos, porém sim para descobrirmos com qual atitude devemos abordá-los.

Há uma convicção profunda em Jesus. Ao mal não se pode vencê-lo em base à força, ao ódio e à violência. Ao mal se vence somente com o bem. Como dizia Martin Luther King, «o último defeito da violência é que descreve uma espiral descendente que destrói tudo o que cria. Em vez de diminuir o mal, aumenta-o».

Jesus não se detém a esclarecer se, em alguma circunstância concreta, a violência possa ser legítima. Mas nos convida a trabalhar e lutar para que ela não o seja jamais. Por isso, é importante buscar sempre caminhos que nos conduzam à fraternidade e não ao fratricídio.

Amar os inimigos não significa tolerar as injustiças e retirar-se comodamente da luta contra o mal. O que Jesus viu com clareza é que não se luta contra o mal quando se destrói as pessoas. Deve-se combater o mal sem buscar a destruição do adversário.

Porém, não nos esqueçamos de algo importante. Este apelo a renunciar ao ódio e à violência deve dirigir-se não tanto aos fracos que não têm nenhum poder nem acesso à violência destruidora, mas, sobretudo, àqueles que manejam o poder, o dinheiro ou as armas, e podem por isso aumentar decisivamente a violência.

CORDIALIDADE

Não é a manifestação sensível dos sentimentos o melhor critério para verificar o amor cristão, mas o comportamento solícito pelo bem do outro. Em geral, um serviço humilde ao necessitado encerra, quase sempre, mais amor que muitas palavras efusivas.

No entanto, insistiu-se, às vezes, de tal maneira no esforço da vontade que chegamos a privar a caridade de seu conteúdo afetivo. Porém, o AMOR CRISTÃO que nasce do profundo da pessoa inspira e orienta também os sentimentos e se traduz em AFETO CORDIAL.

Amar o próximo exige fazer-lhe bem, significa também aceitá-lo, respeitá-lo, descobrir o que há nele de amável, fazer-lhe sentir nossa acolhida e amor.

A caridade cristã induz a pessoa a adotar uma atitude cordial de simpatia, solicitude e afeto, superando posturas de antipatia, indiferença e rejeição.

Naturalmente, nosso modo pessoal de amar é condicionado pela sensibilidade, a riqueza afetiva ou a capacidade de comunicação de cada um. Porém, o AMOR CRISTÃO promove a cordialidade, o afeto sincero e a amizade entre as pessoas.

Esta cordialidade não é mera cortesia exterior exigida pela boa educação nem simpatia espontânea que nasce do contato com pessoas agradáveis, mas a atitude sincera e purificada de quem se deixa vivificar pelo amor cristão.

Talvez, não insistamos hoje suficientemente na importância que tem o cultivo desta cordialidade no seio da FAMÍLIA, no âmbito do TRABALHO e em TODAS AS NOSSAS RELAÇÕES.

A cordialidade ajuda as pessoas se sentirem melhor, suaviza as tensões e conflitos, reduz distâncias, fortalece a amizade, faz crescer a fraternidade.

A cordialidade ajuda a libertar-se de sentimentos de egoísmo e rejeição, pois se opõe diretamente a nossa tendência de dominar, manipular ou fazer sofrer o próximo. Aqueles que sabem acolher e comunicar afeto de maneira sadia e generosa criam ao seu redor um mundo mais humano e habitável.

Jesus insiste em implementar esta cordialidade não somente para com o amigo ou a pessoa agradável, mas inclusive, para quem nos rejeita. Recordemos umas palavras dele que nos revelam seu estilo de ser: «Se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário?».

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A (Homilías) – Internet: clique aqui.

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