O que é fazer a experiência de Deus?
Esse amor que não cabe no peito
Frei Betto
Frade dominicano,
escritor, teólogo e
assessor de movimentos populares
Teresa de Ávila, cujo coração conheceu o
encantamento, sentiu-se arrebatada pela saudade do futuro e admitiu: “Morro por
não morrer”
Na experiência espiritual
há um momento no qual o inefável irrompe.
Ocorre algo cuja única analogia é experimentada por quem já esteve apaixonado. Na paixão entre as pessoas, o outro ou a
outra se torna mais presente em mim do que eu em mim mesmo. A saudade nada
mais é do que essa profunda presença do ausente. No entanto, o outro que povoa a minha interioridade está, de fato, fora
de mim.
Na relação com o Transcendente o processo é o mesmo.
Há em mim um Outro que não sou eu e, no entanto, Ele funda a minha verdadeira
identidade. Difere da paixão humana por este importante detalhe: Ele está dentro e povoa a minha
subjetividade. Nele o meu eu se volatiliza em chama viva de amor, que se
derrama em minha relação com o próximo.
“Já não sou eu que vivo, é Cristo quem vive em mim”, exclamou o
apóstolo Paulo ao experimentar esse ardor. Não
há felicidade comparável a essa Presença indizível. Foi ela que fez Jesus
se transfigurar no alto do Monte Tabor.
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Santa Teresa de Ávila (1515-1582): freira, mística Co-fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças |
Teresa de Ávila, cujo coração conheceu o encantamento,
sentiu-se arrebatada pela saudade do futuro e admitiu: “Morro por não morrer.” Se neste mundo não há prazer que supere tal
plenitude, o que nos aguarda do outro lado da vida?
Essa experiência amorosa
exige deixar que nos envolva a nuvem do desconhecido. Paixão que supera a razão e não se confunde com a emoção. Quem não
a conhece é capaz de descrevê-la, como tento fazer aqui. Quem a experimenta, se
cala.
A trilha é árdua. Como
assinala Gilberto Gil, há que ficar a sós, apagar a luz, calar a
voz para encontrar a paz. Folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos
desejos, dos receios; ter mãos vazias,
alma e corpo nus. Aceitar a dor, comer o pão que o diabo amassou, lamber o
chão dos palácios e dos castelos suntuosos dos meus sonhos... E apesar de um
mal tamanho, alegrar meu coração. Tenho
que subir aos céus sem cordas pra segurar, e caminhar decidido pela estrada,
que ao findar vai dar em nada do que eu pensava encontrar.
Esse mergulho no inefável
é o fundamento de todas as religiões. Infelizmente não costuma ser o fruto. A sarça ardente foi congelada pela
institucionalização da fé nas estruturas religiosas, que perderam a
sensibilidade à brisa suave captada por Elias.
Atingir essa experiência amorosa não é uma conquista, é um DOM.
Para recebê-lo é preciso arrancar as ervas daninhas, assim como se lavra a
terra para acolher as sementes. Isso implica em saber dizer não. Abraçar o Amor e evitar todas as demais
seduções.
Assim como um fragmento
de bola de fogo expelido da explosão solar veio, com o tempo, a se constituir
no planeta no qual habitamos, igualmente a
fagulha da mística, abafada pela burocracia religiosa, aos poucos perdeu o
calor primordial. Solidificou-se em dogmas, preceitos, ritos e repressões.
Hoje, as religiões são
como imensas caixas d’água de cimento armado diante das quais os fiéis,
sedentos, têm fé de que, lá dentro, há água. No entanto, suas línguas continuam
ressecadas. Difícil beber da Fonte de
Água Viva, aquela que Jesus ofereceu à samaritana na beira do Poço de Jacó.
Esse amor não cabe no peito.
Próxima à linguagem dos
anjos, a poesia é o nosso único recurso
para tentar traduzir o que prefere falar pelo silêncio. Talvez valha a
tentativa neste Domingo no circo:
“Sou
todo tua presença
na
radiosa manhã de domingo
embandeirada
de infância.
Solene
e festivo circo a(r)mado
no
terreno baldio do meu coração.
As
piruetas do palhaço
são
malabaristas alegrias
na
vertigem de não saber o que faço.
Rugem
feras em meu sangue,
cortam-me
espadas de fogo.
Motos
loucas no globo da morte,
rufar
de tambores nas entranhas,
anúncio
espanholado de espetáculo
fazem
de tua chegada a minha sorte.
Domingo
redondo aberto picadeiro
ensolarado
por tão forte ardor
me
refunde, queima, alucina:
olhos
vendados, sem rede sobre o chão,
atiro-me
do trapézio em teu amor.”
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