Como lidar com a DECEPÇÃO?
Decepção: arrancado da ilusão
Anselm Grün
Monge,
teólogo e psicólogo alemão
Decepção
– as consequências disso são drásticas.
É um sentimento que muito se aprofunda e deixa
feridas perenes. Ele é capaz de, renovadamente, desencadear emoções muito
fortes, algo assim como raiva ou desespero. Como devemos lidar com isso?
Em
língua alemã, para designar “decepção”,
temos a palavra entäuschen (ent = “retirar, separar”; täuschen = iludir), originalmente, “retirar de uma ilusão (Täuschung)” e que em 1800, foi formada
como termo substituto para duas palavras francesas: desabuser (abrir os olhos de alguém, tirar-lhe a ilusão, desiludir)
e detromper (esclarecer alguém a
respeito de um engano; desenganar). Muitas vezes nós nos iludimos devido às
expectativas em relação a uma determinada pessoa.
Dói
demais a decepção com uma pessoa a
quem demos muito de nós e nela tanto confiamos, de quem esperávamos que ficasse
do nosso lado e a nós se mostrasse grata. É doloroso termos de nos despedir da
imagem que criamos do outro. Estávamos certos de que nossa ideia correspondia à
natureza do outro. Mas a decepção também
é uma oportunidade: somos arrancados
de uma ilusão, nossos olhos serão
abertos para que possamos encarar a verdade e enxerguemos claramente o
engano. A experiência nos ensina que é melhor avaliarmos bem, para que não
façamos julgamento errado acerca de uma pessoa ou situação.
Nós
nos decepcionamos com pessoas. Depositamos nossa confiança nelas. E, aí, elas
se comportam de modo totalmente adverso. Elas agem contra nós. Elas nos magoam.
Elas não correspondem às nossas expectativas. A decepção é o convite a enxergar o outro de forma realista. Não
devemos inverter nossa superestima e passar a subestimá-lo ou, até mesmo, a
rejeitá-lo. Nós devemos aprender a enxergá-lo de forma realista, sem julgamento.
Isso não é tão simples.
Decepção está sempre
relacionada a dor e, muito frequentemente, à raiva também. Essa raiva é capaz de nos
cegar de tal maneira que, a partir de um dado momento, passamos a ver o outro
como monstro e nele projetamos tudo de negativo. Assim, novamente nos iludimos
em relação a ele. Aqui se trata, então, de abandonar
as ilusões e encarar a verdade.
Também
ficamos decepcionados quando nos preparamos para uma prova e não passamos ou, então, não nos saímos tão bem nela como havíamos pensado. Aí ficamos
decepcionados com nós mesmos. Nós nos preparamos para fazer a prova. Mas não
conseguimos transmitir nosso conhecimento adequadamente. Se o problema foi
nosso ou do avaliador – de todo modo, alguma coisa não aconteceu do jeito que
tanto queríamos.
Muitas
vezes também ficamos decepcionados com
nós mesmos, quando cometemos um erro, quando algo não dá certo em nosso
caminho interior. Também, aqui, se trata de nos despedirmos de nossas
idealizações acerca de nós mesmos, nos enxergarmos de forma mais realista e nos
aceitarmos. Mas também não devemos agora falar mal de nós mesmos nem nos
diminuir. Somos o que somos. É preciso
humildade, para nos aceitarmos do jeito que somos, com nossos pontos fortes e
fracos.
Há sempre o perigo de nos
fixarmos na decepção, de ficarmos nos lamentando de que tudo deu errado, de que essa pessoa
nos decepcionou tanto, de que cometemos esse erro, de que temos essa fraqueza.
E prejudicamos a nós mesmos, então. O
modo correto de se lidar com isso seria: Reconciliar-se com a decepção e
reconhecer nisso a oportunidade de se
confrontar com:
* a verdade em si,
* com a própria verdade e com
* a verdade da pessoa que nos decepcionou.
A
decepção tem o intento de nos abrir os olhos para que possamos avaliar a nós
mesmos, o outro e a situação de modo mais realista, a lidar com essas coisas
desse mesmo modo.
Em
meu trabalho como administrador de uma Abadia (Münsterschwarzach, na Alemanha), nesses últimos trinta e cinco
anos, eu mesmo vivenciei algumas decepções. Ajudei pessoas e, mesmo assim, por
vezes, não ouvi agradecimento algum; pelo contrário, só colhi críticas e, por
isso, experimentei uma tomada de consciência acima do normal. Percebi que desafio espiritual é, para mim,
não me tornar duro e amargo por causa da decepção.
Quer
dizer, a decepção faz com que eu
pergunte a mim mesmo o que quero de minha vida. Reconhecimento e afirmação? Ou quero – ainda que não seja percebido
no exterior – permanecer fiel à minha
essência e, apesar de toda decepção, criar em torno de mim uma atmosfera de
confiança e serenidade? A decepção me liberta de meu esforço de transmitir
confiança, de todas as tendências egocêntricas. Trata-se, aqui, de ser leal à minha essência e aos meus ideais, sem
contar com reconhecimento alheio. Assim, a decepção me liberta de todo o egoísmo, de modo que eu fique cada vez mais aberto ao Espírito
de Jesus Cristo. Porém, também posso criar um ideal dessa abertura. Em meu caminho até lá
experimentarei muitas coisas, em meu íntimo, que apresentar-se-ão em oposição à
abertura. Vale, portanto, aceitar isso humildemente. Trata-se, então, de me
tornar aberto para Cristo, ciente de meus pontos fortes e fracos.
Traduzido do alemão por Bianca Wandt.
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