Haverá trabalho no futuro???
A inteligência artificial e o futuro do trabalho
Fábio de
Biazzi
Engenheiro de
Produção, doutor em Engenharia pela USP, diretor executivo e consultor de
gestão,
é professor de
Liderança e Comportamento Organizacional do MBA executivo do Insper
Estudos estimam que entre um terço e metade das funções
correm o risco
de ser automatizadas
A
decisão dos ingleses de deixar a União Europeia e a eleição de Donald Trump pelos
americanos parecem ter ao menos um elemento em comum: em ambos os casos as populações de cidades e Estados que vêm sofrendo
estagnação ou algum declínio econômico penderam para essas soluções de eficácia
ainda a ser provada. Por trás desses votos em comunidades sem avanços
econômicos significativos nas últimas décadas, o maior temor é de que as oportunidades de trabalho se tornem mais e
mais escassas.
Entretanto,
por mais que os defensores do Brexit
e da Trumponomics prometam “trazer os empregos de volta”, essa
visão está longe de se mostrar de fácil realização. O economista Mark Muro, da Brooking Institution, afirma, em entrevista publicada em 22/01 no jornal
O Estado de S. Paulo, que a digitalização e a automação têm permitido
a produção de bens e serviços com alto valor agregado sem se ter de empregar
grande número de pessoas. Mesmo o retorno de algumas instalações
industriais aos Estados Unidos não teria como causar impacto relevante no
número de empregos.
A
mesma lógica de desaparecimento gradual das vagas de emprego que afeta os
Estados Unidos e a Inglaterra também engloba o Brasil ou qualquer outro país.
Por essa razão, a questão dos desafios do trabalho é tão relevante e, para
otimistas e pessimistas, tem tudo para ficar ainda mais intensa no futuro. Isso
porque os últimos anos têm revelado um
avanço descomunal não somente em termos de automação ou digitalização, mas na
evolução da chamada “inteligência artificial” (Artificial Intelligence em inglês, sigla: AI). E um avanço ainda maior é esperado já para os próximos anos,
não apenas para as próximas décadas.
A AI surgiu há cerca de 50
anos, com a missão de desenvolver máquinas capazes de resolver problemas
anteriormente limitados à resolução por cérebros humanos. Um grande marco da
inteligência artificial foi alcançado com duas séries de jogos de xadrez entre
o então campeão mundial Garry Kasparov
e o supercomputador da IBM chamado Deep
Blue. Em 1996, na Filadélfia, Kasparov ganhou a série de embates por 4 a 2.
Em 1997, em Nova York, uma segunda série de seis jogos – também sob as regras
de torneios internacionais – terminou com a vitória do Deep Blue por 3,5 a 2,5. Apesar desse feito extraordinário, os
avanços da AI nos anos que se seguiram acabaram por se mostrar decepcionantes,
até para tarefas bem mais triviais do que bater um grande mestre, como, por
exemplo, as soluções de reconhecimento de voz.
Com
o objetivo de analisar sua evolução e seus impactos sociais, a revista The Economist publicou em meados de 2016
um detalhado relatório sobre a AI. Segundo ela, “depois de muitas falsas largadas, a inteligência artificial finalmente
decolou”. Um símbolo desse salto seriam os resultados de um concurso anual
de reconhecimento de imagens chamado ImageNet
Challenge, em que milhões de imagens
são rotuladas com a identificação do tipo de figura que representam e
alimentadas em sistemas de AI concorrentes. Em 2010 o sistema vencedor
conseguiu identificar 72% das imagens. Essa taxa foi aumentando ano a ano e apenas dois anos atrás (2015) outro sistema
conseguiu identificar 96% das imagens, ultrapassando pela primeira vez o
patamar de reconhecimento médio dos seres humanos, de 95%.
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APRENDIZAGEM PROFUNDA A abordagem é o aperfeiçoamento da máquina a partir de erros e acertos como demonstrado na imagem: ensinar, treinar (train) e aplicar, entender (deploy) |
Esse
exemplo ilustra o veio mais promissor de evolução da AI, chamado deep learning, ou aprendizagem profunda. A aprendizagem profunda baseia-se em redes
neurais artificiais que seriam “treináveis” pelo processamento de enormes
quantidades de dados, em vez de serem sistemas “explicitamente programados”. Tais dispositivos já têm sido utilizados em
mecanismos de busca, bloqueadores de spams, tradutores, detectores de fraudes
em cartões de crédito e nas experiências com veículos autodirigíveis. Outro
exemplo impressionante são os softwares
de reconhecimento facial. Já existem
em funcionamento quatro deles com precisão maior que 99,5%, ante uma taxa de
acerto médio dos humanos de 97,5%.
Os impactos dessa
“decolagem” da AI, embora não totalmente antecipáveis, prometem ser cruciais
para o futuro da humanidade. O renomado físico Stephen Hawking, em artigo publicado em dezembro de
2016 no jornal The Guardian, sustenta
que “a automação das fábricas já dizimou postos de trabalho na manufatura
tradicional e a ascensão da inteligência artificial provavelmente estenderá a
destruição às funções das classes médias, com a sobrevivência apenas dos papéis mais criativos, de supervisão ou de
cuidados pessoais”. A própria The
Economist cita estudos que estimam
que entre um terço e metade das funções correm o risco de ser automatizadas.
As mais vulneráveis ao avanço da AI seriam as funções de rotina, tanto manuais
quanto intelectuais.
Será que estaríamos chegando
finalmente à plenitude da Terceira Onda, descrita por Alvin Tofler em 1980? Conseguirão os países e
seus líderes reconfigurar novamente para melhor suas sociedades com o advento
da AI – da mesma forma que a civilização prosperou e criou novas ocupações com
a mecanização e a automação no passado –, mesmo se antevendo um impacto
centenas de vezes mais intenso e rápido que nos casos anteriores?
Otimistas ou pessimistas, aqueles que têm voz
na definição do futuro de suas empresas, sociedades e países deveriam
regozijar-se com mais essa vitória da humanidade sobre o labor interminável e
pouco significativo das tarefas repetitivas. Deveriam também privilegiar e
fomentar um importantíssimo fator que esteve presente na assimilação
socialmente equilibrada das mudanças tecnológicas anteriores (e no qual o
Brasil tem falhado de maneira recorrente): a
educação e requalificação para o desempenho de atividades mais complexas e que
demandam maior capacidade cognitiva, flexibilidade, criatividade e colaboração.
[Difícil acreditar que o Brasil dê conta dessa tarefa
se não consegue nem educar bem as crianças e adolescentes para os desafios que
já se apresentam hoje!]
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